(...) ser cantador pra mim é ser um operário do meu pão, dos meus compromissos, da minha família, do meu trabalho, sou evangélico. Ser cantador é ser um trabalhador, até da minha igreja que eu ajudo e como muitos fazem assim. (...) E ser cantador é cantar à altura do povo com caráter, com profissionalismo e qualidade, como eu falei, mas ter a profissão como eu tenho, Simone. A profissão como um trabalho responsável pelos compromissos. (...) Então, a profissão é isso, é trabalho, é compromisso, é alta responsabilidade.
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Figura 25
Cearense, nascido em 1943 na Vila Feiticeiro, em Jaguaribe, Louro Branco assumiu a cantoria com a intensidade de um compromisso que precisa ser honrado em qualquer circunstância. Operário da palavra, ser cantador é tomar para si uma responsabilidade diante de Deus e do público, que garante o pão de cada dia seu e da família. Considerado pelos colegas e pelo público um cantador muito engraçado, brincalhão e cômico, muitas vezes encarnando em sua cantoria o jeito despojado e moleque do cearense, o sexagenário repentista é sinônimo de seriedade e amor pela arte do improviso. Sua jornada começou nas veredas do sertão, debaixo do sol forte acompanhando o pai pescador e agricultor, mas também entre mamulengos (espécie de fantoches usados em folguedos e peças folclóricas), forrós e cantorias...
Eu lembro muita coisa da minha infância. Eu... muito criança... primeiro na minha região tinha muito mamulengo, chamavam bonecos. Eu gostei muito. Fazia muito forrós de violão. (...) Fui tocador de violão dois anos, de dez a doze anos... aquelas festas de padroeiras, eu gostei muito. (...). E a coisa que mais marcou foi a cantoria. Meu pai me levava pras cantorias, começou a me levar pequeno com três, quatro anos. (...) E ali até aos dez anos eu já tava fazendo versinhos e de dez a doze anos eu tocava violão pro povo dançar e um somzim na bateria, um pandeirim. (...) Somente quando completei vinte anos conversei com ele (o Pai) e combinei pra eu somente cantar. E ao invés de eu trabalhar demais, eu trabalhava dia e noite, pescando, trabalhando em roça. Eu disse: Papai eu estou vendo que eu tenho condição de ser um cantador mais ou menos, mais esse trabalho não saio do canto, como esse aí não sai. Aí ele disse: Meu filho, mas aí você vai quebrar minhas pernas, você trabalha por dois homens. Disse: Mas não é por aí papai, eu não vou lhe abandonar, vou lhe ajudar mais do que isso. Assim fiz. Fui cantar e fiquei ajudando ele com dinheiro. E tenho esse orgulho. Bom filho não porque bom só Jesus, mas fiz o possível e a partir de vinte anos me fiz profissional só cantando.
A partir dos doze anos, Louro Branco começou a cantar de improviso, embora não tenha podido desde esse momento se lançar sozinho peregrinando sertão afora, sabia que possuía o dom e no momento certo soube conquistar a confiança do pai e entrar definitivamente para o mundo da cantoria. Mais uma vez fica patente a relação do cantador com o sertão, a terra, o cultivo, a natureza. Daí a dificuldade que inicialmente encontrou, como tantos outros cantadores, em se desvincular do trabalho na agricultura, da ajuda dada aos pais na provisão da família. Tomar a decisão de se tornar cantador e dedicar-se à arte eram um tanto arriscado, pois não se tinha nenhuma garantia de êxito.
Relembra que ouvir bons cantadores foi fundamental para a decisão de seguir o ofício que tanto o encantou. O pai gostava muito de cantoria e promoveu várias em sua casa. Trazia grandes cantadores, entre eles, uma figura inspiradora foi o também cearense Chico Buriti por quem nutria uma admiração profunda.
(...) eu só fui cantador porque ouvi bons cantadores e me inspirei pra cantar num cantador que veio a falecer agora vinte de outubro de 2006, Chico Buriti, da Carnaubinha, no Ceará. Foi nele que eu me inspirei. Foi um cantador chamado maior da região (...) Cantava muito bonito, muito repentista, cantou muito na casa do meu pai e eu gostava muito da cantoria dele e foi nele que eu me inspirei. E comecei a ouvir ele, eu com três anos, quatro, oito, dez, até que com doze anos eu parti a ser profissional. Não profissional, passei a ser amador porque profissional quando você passa a ser livremente cantador. (...) Tinha como profissão
sim, mas não era... com liberdade, né? E agradeço isso a ele, foi exclusivamente, gostava da cantoria dele, achei bonito. E eu não vou negar, eu não parti pra cantar sintonizado em outra cantoria, mas na dele, Chico Buriti.
Importante observar que na construção do ser cantador há sempre algum outro grande cantador cuja cantoria seduz e motiva o jovem poeta a seguir os mesmos passos, quando considera possuir o dom, a capacidade, a habilidade para fazê-lo. Convivendo desde muito cedo com esses artistas, que cantam e encantam o sertão, viu-se enredado nas cordas da viola, que se tornou desde logo companheira inseparável, e na fluidez das palavras cantadas, improvisadas e livres como ele ainda menino desejava ser. A cantoria foi seu grito de liberdade em todos os sentidos. Liberdade de deslocamento, de expressão e financeira. Realização plena como assegura o poeta:
A cantoria hoje pra mim ela significa a minha vida, é porque o que eu tenho devo a ela. A cantoria significa a minha alegria porque é um trabalho que eu gosto de fazer. (...) A cantoria significa o caminho das minhas amizades (...) E a cantoria pra mim, abaixo de Deus, é tudo. Significa tudo na minha vida.
Louro agarrou seu dom, seu ofício, seu trabalho, sua profissão, sua vida e seguiu adiante. Andou por veredas, sentiu sol, chuva, fome, poeira, mas também, a beleza poética de um sertão que se abre em verde com as primeiras chuvas, que faz brotar com rapidez a grama, a semente plantada. Sertão que foi ganhando estradas, cidades, meios de transporte e de comunicação. E a cantoria, escolha de vida, alcançou do mesmo modo outros quinhões. Além das latadas, dos terreiros rodeados de bancos de carnaúbas ela subiu aos palcos dos teatros, dos festivais, dos clubes, ganhou outros holofotes, mas nenhum deles maior que o sol, que ainda hoje aquece e faz brilhar as cordas da viola. Ao relembrar os primeiros anos dedicados somente a cantoria afirma que
Foram muito bons até porque eu mesmo com... com... sem ter muita liberdade, mais dos meus dezessete anos aos vinte eu já fui tendo um pouquinho de liberdade do meu pai, já fui aprofundando um pouco e consegui ainda algum conhecimento e quando eu parti como profissional aos vinte anos aí eu tive aquela... aquele direito de procurar regiões, de procurar colegas mais famosos e dentro de dois anos eu já... já tive respaldo, já... comecei a pisar em terra firme. Não... não concreto
como hoje, mas já tinha pra onde ir e comecei a cantar em rádio, que era outra novidade. Chegava num canto ninguém perguntava quem era eu, com quem eu cantei. Perguntava: Você já cantou em rádio? A pergunta era essa naquela época. Hoje não. (...) A pergunta hoje é essa. Ninguém pergunta mais se você cantou em rádio e sim, às vezes, em televisão.
Ao narrar seus passos o poeta vai acrescentando mais um detalhe à história da cantoria. Acentua também a relação cantador-rádio, que marcou profundamente diversas gerações, tanto de ouvintes quanto de cantadores. Situação recorrente em vários depoimentos. E aos poucos vai-nos deixando entrever as mudanças e os novos valores que se vão agregando à essa arte e à forma de relacionar-se com ela. A televisão, de uma maneira muito sutil está cada dia mais presente, como antes esteve o rádio, no percurso dos cantadores, dando-lhes maior visibilidade. No entanto, Louro mostra-se bastante consciente em relação à sedução que este veículo pode exercer sobre qualquer ser humano, e faz questão de lembrar a si mesmo de que isto é um trabalho, o importante é manter sempre a qualidade do contato e do respeito junto ao público.
Ao falar sobre o momento quando um cantador sente se está ou não preparado pra assumir a longa caminhada é bem cauteloso:
Existe um adágio que o grande é grande em tudo, o pequeno é pequeno em tudo. O cantador inteligente, ele como Jonas Bezerra, aquele rapaz já partiu cantando bem, ele já tá sabendo que dá pra coisa, que vai na coisa, que sobe na coisa, que cresce na coisa. Mas também (tem) aqueles cantadores que vai, que vem com ingenuidade cantando e seguindo, achando que já é, e não é ainda, sabe? Nem é o que pensa e nem está onde está. (...) É quando comecei cantar com doze anos, dos doze até os vinte eu lia muito, mas trabalhava muito na roça não tinha muita liberdade, e também, Simone, não cantava muito com os cantadores grandes, que isso ajuda muito a gente. Depois de vinte anos aí eu tive uma liberdade mais fácil, comecei cantar com cantadores maiores. Dialogar com cantadores e também com pessoas sem ser cantadores que o... o mundo também ensina, o mundo também instrui, o mundo também é uma amostragem.
O cantador passa a vida toda preparando-se, cada cantoria é uma estréia, mas como sugere Louro, aqueles que são grandes, que nasceram com o dom, vão-se desenvolvendo a cada passo dado, vão tendo consciência de sua capacidade e conseguem ascender com maior rapidez.
Relembra que buscou na leitura e nos conselhos de outros cantadores e pessoas mais experientes ir aprimorando o dom que sabia possuir, mas considera que muitos não conseguem perceber que ainda não se está pronto e que provavelmente jamais esteja.
Considero que a geração da qual faz parte Louro Branco costuma valorizar, em seus depoimentos, o aprendizado junto aos cantadores mais experientes de sua época. Há um reconhecimento agregador às gerações que os antecederam. Embora, encontremos registro de disputa entre gerações que se sucedem no “palco da cantoria”, o respeito, em geral, marca os discursos da geração com média de quarenta anos de cantoria. 17 Geração
que aparece na fala de muitos apologistas como a “divisora de águas” nas inúmeras conquistas que hoje os cantadores assumem possuir, entre elas a garantia prévia do cachê, a quantidade de horas para começar e terminar as cantorias, a realização dos festivais, etc.
Sua memória também registra grandes mudanças em relação à figura do cantador que nem sempre foi respeitado como profissional e artista:
E em termo, respeito pelo cantador hoje é maior. (...) E eu tive, eu jovem, vinte e poucos anos, tive de entrar numa cidade com a viola e o grito comer: ou... ou... chi... chi... (Faz os sons com a voz e com as mãos.) Isso teve demais. Numa cidade quando eu paro em frente um restaurante, uma parada de ônibus, chega gente. O seu nome? Há um respeito hoje. (...) Isso eu vi comigo e com outros. Entrar na cidade, escutar assobio, grito. Outra, faz remendar como a toada do cantador, uma toada feia, um som ridículo, tipo de baixa crítica, passou muito. Isso graças a Deus de vinte anos pra cá não tem mais. De vinte cinco anos pra cá não tem mais.
Era comum haver agressões verbais contra os cantadores, a viola, em geral, denunciava o artista ali representado e isto era motivo para zombarias e chacotas. Muitos cantadores relatam vaias, gritos e constrangimentos de que foram vítimas durante algumas décadas. Felizmente, a situação mudou bastante, hoje os cantadores exibem com orgulho suas violas e veem-se prestigiados e respeitados. Louro Branco sente e vive cotidianamente essas mudanças, pois considera que há um maior respeito tanto entre os colegas quanto entre o público.
17 Geração da qual fazem parte: Louro Branco, Geraldo Amâncio, Ivanildo Vila Nova, Sebastião da Silva, Moacir
Laurentino, Oliveira de Panelas, Diniz Vitorino e logo em seguida, Sebastião Dias, Zé Cardoso, Severino Feitosa, João Paraibano, Valdir Teles, Mocinha de Passira, etc.
Pode-se dizer que houve um amadurecimento, uma compreensão melhor em relação a essa forma de expressão. E, por outro lado, denota-se com mais clareza a conquista de um lugar social que se foi construindo ao longo das gerações de cantadores, que foi sendo gestado, inclusive, em um contexto maior, no qual está inserida a própria música brasileira e a aceitação dos diferentes ritmos que compõem o espectro musical brasileiro. Caminhos que foram duramente conquistados por inúmeros outros artistas e suas especificidades musicais. 18
É interessante observar na fala de Louro Branco sua percepção do quanto o cantador e sua arte vêm-se beneficiando das transformações estruturais pelas quais passa a sociedade brasileira em geral:
E a vida do cantador foi muito sofrida nos sertões, viajando. Eu cansei de chegar na bodega, (...) uma tarde com fome numa cidade pequena, numa cidade pequena, não achar comer. Almoçar bolacha com rapadura. Hoje, você chega hoje tem restaurante, tem tudo. Você pra ajeitar uma cantoria dez quilômetros ou quinze tinha que ir de animal. Não tinha uma linha, um telefone. Hoje tá tudo mais fácil. Mudou o meio de comunicação, o meio de transporte, alimento em todo canto. A cantoria passando pra os centros. Hoje ninguém sofre, tem conforto, muita coisa. (...) Tudo é melhor! Até digo que os cantadores pegaram a cantoria de bandeja nossa. Nós sofremos muito naquela época.
Louro Branco tem consciência de que sua geração e as antecedentes prepararam um caminho menos tortuoso para os jovens cantadores de hoje, que sobem em diferentes palcos sob holofotes que os fazem brilhar. Esses jovens não devem esquecer as estrelas que continuam brilhando em outros planos, em outras constelações e que foram construindo essa bela estrada que está sendo continuada por eles.
A cantoria vem-se recompondo a cada passo dado, ela é como o próprio migrante que fugindo da aridez do sertão, dele sente saudades, mas reconhece as benesses que a cidade e suas tecnologias podem oferecer-lhe e, inclusive, ao próprio sertão. As longas caminhadas a pé ou no lombo de um jumento, sob o sol escaldante da caatinga (espécie de savana nordestina) ficaram para trás, na poeira da estrada. E com elas a incerteza do trato de cantoria, as vaias, os gritos e o desrespeito que, embora continuem na lembrança,
18 Neste sentido, é interessante a leitura dos livros: VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. 6ª. ed. Rio de Janeiro:
Zahar Ed. Ed. UFRJ, 2007. VIEIRA, Sulamita. O Sertão em movimento: a dinâmica da produção cultural. São Paulo Annablume, 2000.
não afetam mais a grandeza do artista, abraçado por um público fiel e apaixonado. Tudo é
melhor!
Podemos aqui refletir acerca da dinâmica cultural que rege toda sociedade e faz com que diferentes expressões artísticas, como a cantoria de viola, por exemplo, seja em determinado momento rejeitada e discriminada e, em outro, incorporada e aceita como legítima representação da cultura tradicional brasileira. Tradicional no sentido que traduz uma historicidade no seu modo de se reinventar, mas conservando sempre na sua produção o modo peculiar de fazer o verso improvisado, de tocar as toadas e de seguir as regras poéticas que dão forma e identidade a esta arte.
Há nesse processo dinâmico uma incorporação simbólica da cantoria que passa a ter, em determinado momento, interesse para a cultura local, regional, nacional. Há um apropriar-se do que ela tem de significativo para representar a cultura brasileira, nordestina e que atenda para um projeto político-social-cultural que procura estabelecer os lugares sociais para cada arte, artista, segmento que compõem a sociedade.
Inseridos no caldeirão das mudanças os cantadores vão também, na medida do que lhe é possível, fazendo suas escolhas, destacando o que consideram importante para sua arte e, descartando o que muitas vezes impossibilita a continuidade de sua criação. E a despeito do que se estabelece no contexto maior da sociedade brasileira, os cantadores criam seus próprios mecanismos de adaptação e de criação. Isso reflete-se, por exemplo, quando Louro Branco pensa em qualidade para a cantoria:
Simone, uma coisa interessante existe um adágio que é melhor qualidade sem quantidade do que quantidade sem qualidade. A qualidade é aquilo que você faz com pureza, né? (...) Então, a qualidade está na personalidade, no próprio trabalho, no respeito às amizades e no trabalho sim, levando a cantoria com qualidade, respeito na cantoria. Atender ao povo é mais uma qualidade, ter atenção pelo público. Não explorar o público é mais uma qualidade e ter tolerância com o colega é mais uma qualidade porque por bom que o colega seja, nós todos somos falhos e tudo isso é boa qualidade. Tem que ter boa qualidade porque em cima dessas qualidades que você usa termina numa só qualidade: qualidade profissional.
Qualidade na cantoria, como insinua o poeta, não é cantar para uma multidão de ouvintes que não entendem a mensagem que se deseja passar através do improviso. Não é quantidade, muito menos desmoralizar o companheiro diante do público, como ocorria
há algumas décadas entre os cantadores. Aqui o respeito deve ser a tônica. Também não se trata apenas de vender CD e DVD. A qualidade buscada é uma integração entre os poetas, o público e a mensagem. É o respeito mútuo cultivado nas relações fundamentais que garantem a qualidade.
Ouvir esse grande poeta é aprender não somente sobre a história da cantoria, mas principalmente, a ter qualidade de gente. A cantoria e sua vida se imbricam de forma tal que é difícil saber quando se está falando de uma ou de outra. Sua narração é como uma “parábola” que ao falar da cantoria evoca tantos sentimentos necessários, e muitas vezes ausentes nas relações pessoais e profissionais: pureza, respeito, amizade, tolerância, cordialidade, paciência. Assim, Louro Branco nos fala da qualidade que busca para sua cantoria, para a arte que abraçou cujo objetivo primordial é oferecê-la ao outro, o público. Razão pela qual prima pela qualidade profissional.