Na televisão traumática, a tele-realidade pretende comunicar toda a experiência para lá do limite que as palavras impõem; cada plano ou cada pergunta são tentativas de capturar a realidade emocional dos convidados.
O que é fundamental é que a visibilidade das expressões faciais permita chegar ao espaço mental do indivíduo, vislumbrar-lhe a alma, que seja uma via privilegiada de acesso à sua psicologia. Frases inacabadas, silêncios repentinos, lágrimas a aflorar, constituem aqui os sinais desse processo de rememoração traumática que, em última análise, visa diminuir a ansiedade. Falar mas sobretudo mostrar para se curar é, talvez, a divisa de uma televisão traumática. Assim, mais do que uma recuperação gratuita do drama, a tele-realidade coloca-se como uma televisão que ambiciona redimir esses traumas, resolver as contradições, ajudar o indivíduo a lidar com elas na sua vida quotidiana.
Ela contém, deste modo, uma dimensão terapêutica colocando-se sempre do lado da vítima. A terapia é feita não apenas porque oferece um divã público para o indivíduo desabafar, mas também porque este tipo de programas de realidade promovem a auto-ajuda, a auto-estima e a demonstração de solidariedade. Como explica Ehrenberg, “a convocação de um outro que vos olha é um recurso
para sair do enclausuramento privado, ela dá uma consistência às realidades psíquicas, autentifica-as. O acesso a uma cena pública é um meio de desinibir porque assegura ao indivíduo que as suas dificuldades não têm nada de infame ou de medíocre” (Ehrenberg, 2005: 251).
Frequentemente, a terapia não se realiza somente entre o indivíduo, o apresentador/especialista e os espectadores; envolve igualmente a participação de familiares e amigos que desse modo dão o seu aval e incentivo públicos à recuperação emocional dos indivíduos/pacientes. Uma das emissões de Trisha, no Reino-Unido, tinha como título “With a Little Help of my Friends” (Dovey, 2000: 119). Com a dimensão terapêutica presente em certos talk-shows ou programas de realidade de auto-ajuda não estamos a atribuir uma verdadeira função clínica à tele-realidade. Estamos, antes, a salientar o modo como esta programação de realidade fornecem a oportunidade para discutir temas emocionalmente dolorosos que, em certos casos, lembram uma situação terapêutica pelos seus aspectos de desculpabilização, conforto e motivação1.
O lado terapêutico dos talk-shows reside, pois, no tipo de discurso aí desenvolvido: um discurso construído num ambiente público mas, não obstante, paradoxalmente intimo visando chegar a pequenas conclusões temporárias, as quais representam os “ganhos terapêuticos” do indivíduo.
O apresentador tem aqui um papel incontornável assumindo o papel de “terapeuta” pelo modo como concatena os tópicos, estabelece paralelos e contrastes, interpreta e sugere com o fim de colocar o indivíduo em contacto directo com as suas emoções. Em Kilroy, o apresentador interroga (“quais foram os problemas que as crianças causaram?”), desafiando emoções (“mas afinal de que se trata, porque é, Jackie, que está a reagir assim?”), lançando interpretações que ajudem o indivíduo/paciente a compreender-se melhor (“quer dizer que
1) Talvez a maior aproximação entre a dimensão terapêutica da tele-realidade e a psicoterapia seja ilustrada pela Rational emotive behavior therapy (REBT). Proposta por Albert Ellis, em 1959, a tele-realidade assemelha-se a esta terapia de comportamento cognitivo pela ênfase na crença de que as tragédias pessoais podem ser melhor ultrapassadas através da maneira como o indivíduo constrói as suas perspectivas do incidente por intermédio da linguagem, crenças e interpretações. Assim, segundo o modelo A-B-C, a adversidade (A) tem consequências menores (C) se as crenças (B) forem construtivas, positivas e flexíveis. Os talk-shows trabalham justamente com esta suposição procurando que a discussão pública televisiva contribua para uma perspectiva mais positiva da adversidade.
sentiu que ele estava a competir com as crianças?”), ou clarificando o discurso de maneira a torná-lo mais perceptível e coerente (“sentiu-me ciumenta”; “então, achou que ele estava a invadir o seu espaço”). No fim, Kilroy ainda põe o braço à volta dos ombros da sua convidada selando com familiaridade a sessão terapêutica televisiva por que passaram (Livingstone and Lunt, 1996: 64).
A abertura das fronteiras interiores levou a uma psicologização da tele- realidade cujo efeito passa, então, por esta transformar-se num espaço de conselho de vida, mas também num espaço que promove a recomposição dos recursos interpretativos dos indivíduos.
É mostrando aquilo que sente e desabafando publicamente na televisão, mas também ouvindo aquilo que a televisão lhe pode dizer acerca da sua própria vida, que as individualizações são construídas na tele-realidade. Porque a tele- realidade é uma televisão de companhia – ouvindo e aconselhando -, ela torna-se o reino da relação, do outro e do inter-pessoal.
Ao modelo da impessoalidade característica da vida contemporânea urbana (como Simmel escreveu e que segundo Sennett remonta ao Antigo Regime), e ao modelo da personalização (Sennett, 1992) onde as roupas exprimem a personalidade, a tele-realidade a exprime um modelo da inter-pessoalidade, onde a escopofilia está associada a uma validação da palavra que articula o pessoal e o colectivo, o secreto e o visível, aquilo que se sente em privado e o publicamente dizível. A palavra individual faz-se relacional, o privado torna-se público, a individualização é operada no processo publicitário enquanto procura o outro, o seu próximo.
A tele-realidade é, assim, um modelo televisivo marcado pela comunicação e por um sincretismo dos imaginários sociais: pretende restaurar o laço social através da escuta, do diálogo, da palavra que expõe. A ela subjaz o seguinte corolário: conjurado a um individualismo que o faz privar-se da sociedade, o indivíduo combate essa perda de identidade e do sentido através da sua exposição pública nas imagens televisivas utilizando a palavra como pivot e ponte de acesso aos outros indivíduos; ele sabe que a sua individualização depende de uma relação à definição plural dos indivíduos, ou seja, à sociedade. A amplitude com que a alma é mostrada na tele-realidade corresponde à extensão da capacidade do indivíduo entrar em contacto com o outro. Para que ele compreenda o seu
lugar na sociedade necessita de ser ajudado pela sociedade, e a tele-realidade constitui uma via de acesso ao processo publicitário. A individualização é tanto maior quanto maior o número de relações que estabeleça com os indivíduos.
Os programas de realidade oferecem uma espécie de resposta a individualizações cada vez mais trajectórias e instáveis, ao providenciar a multiplicação pública de ligações entre os indivíduos, e com isso, reforçar a individualização de cada um. Se cada um necessita de reivindicar a sua individualidade, conhecer-se, criar o seu estilo de vida, isso não desagua num individualismo egoísta mas num processo de individualização que encontra na publicidade mediatizada que a tele-realidade caracteriza as mediações relacionais.
A vontade escopofílica de aparecer na televisão deriva dessa inflacionamento da subjectividade que o acesso ao processo publicitário possibilita. E o grande atractivo de Big-Brother está nesse carácter sinóptico: a certeza que os indivíduos têm de ser vistos e reconhecidos pela larga maioria dos espectadores (e consequente, da sociedade) e a convicção de que essa exibição de si contribui para a sua individualização. Em cada tele-voto, somos confrontados com esse significado subliminar: que o problema da relação e da subjectivação se encontra em cada acção que os concorrentes fazem2.
A concepção de uma “sociedade de indivíduos” corresponde à ideia de que nós estamos cada vez menos em lugares definidos e mais em relação com outros indivíduos, num processo que compromete a nossa própria individualidade. Esta pauta-se por ser aquilo que põe em relação realidade interna e realidade externa. Quanto mais vivemos numa relação comunicativa, aberta e visível com os outros, mais nos tornamos indivíduos.
2) Por isso é que a questão “como serei visto lá me casa” percorre toda a participação dos indivíduos nos programas televisivos de realidade. Eles sabem que uma parte importante do seu projecto reflexivo depende do modo como a sociedade os reconhece. Em Big-Brother, o que está em jogo não é apenas o prémio final, é, antes de mais, a própria possibilidade de um processo de individualização positivo.