A interdisciplinaridade não se apresenta no seio educativo como um conceito novo, é algo que já tem vindo a ser discutido, com cada vez mais relevância ao longo dos últimos anos. No entanto, ainda se apresenta como um conceito pouco definido e em parte, abstrato e que, por isso, apesar de já ser mais comum os docentes a realizarem, muitos ainda não compreendem bem a sua natureza, nem como aplicá-la no contexto da sua prática. Tentam, por isso, realizá-la de acordo com o vago conhecimento que apresentam sobre a temática, com o objetivo que tal se traduza numa aprendizagem mais transversal e significativa para os seus alunos (Pombo, 1994a).
Pombo (1994b) tenta demostrar a sua perspetiva sobre o entender que possui em relação à interdisciplinaridade, a partir de um olhar reflexivo sobre as várias definições já apresentadas por outros autores que, por sua vez, abordam também esta questão. Pombo (1994b) alude à interdisciplinaridade como “(…) qualquer forma de combinação entre duas ou mais disciplinas com vista à compreensão de um objecto a partir da confluência de pontos de vista diferentes e tendo como objectivo final a elaboração de uma síntese relativamente ao objecto comum” (p. 13).
A partir desta definição de interdisciplinaridade já é possível compreender a relevância que a mesma compreende quando falamos da planificação do trabalho do docente. A interdisciplinaridade é a estratégia a partir da qual o docente consegue relacionar as diferentes áreas de conteúdo, e promover nelas um olhar de interdependência entre todas as áreas do saber, permitindo que estabeleçam um paralelo com o real do seu quotidiano.
Esta necessidade da interdisciplinaridade surge por vários motivos. De acordo com Pombo (1994c), inicia-se por um sentimento de rutura da continuidade do currículo escolar em detrimento de uma “fragmentação e especialização do conhecimento científico” (p. 14). Foram surgindo cada vez mais disciplinas a serem inseridas no currículo escolar, que por sua vez, cada uma delas sentiu necessidade de declarar a sua autonomia, de acordo com a natureza da sua ciência e assim foram se estabelecendo como unidades independentes das restantes disciplinas (Pombo, 1994c). Isto levou a que o ensino fosse guiado de uma forma unitária, em que cada área curricular fosse trabalhada de forma isolada, concentrada no seu saber.
Por outro lado, numa visão complementar do conhecimento, em que todas as áreas do saber se cruzam e se complementam, a escola e os professores começaram a reconhecer, que para os alunos, um trabalho que relacionasse as várias áreas e que demonstrasse a importância da interdependência existente entre elas, daria mais significado e motivação às aprendizagens desenvolvidas pelas crianças. Também para o docente, a interdisciplinaridade se apresenta como imprescindível, pois como cita Pombo (1994c):
(...) nenhum professor (…) se limita ao ensino estrito dos conteúdos programáticos da sua disciplina, porque o próprio facto de ensinar o obriga a ter que recorrer a exemplos e referências várias mediante as quais, justamente, se vai operar a integração (p. 16).
Neste sentido, entende-se que a interdisciplinaridade seja alvo de preocupação e reflexão dos docentes enquanto uma prática intrínseca no processo de ensino- aprendizagem “(…) que promove o cruzamento dos saberes disciplinares, que suscita o estabelecimento de pontes e articulações entre domínios aparentemente afastados, a confluência de perspetivas diversificadas para o estudo de problemas concretos, a exploração heurística de transposições conceptuais e metodológicas (…)” (Pombo, 1994c, p. 16).
Outro motivo apontado por Pombo (1994c), como estando por detrás da emergência da interdisciplinaridade é o facto da escola já não ser vista como a única fonte de conhecimento e transmissão de novos saberes. Na sociedade em que hoje nos inserimos, uma sociedade de inovação e evoluções tecnológicas, onde o conhecimento se apresenta como uma constante inseparável do nosso quotidiano, uma realidade da qual as crianças se encontram enraizadas desde que começam a contactar com o meio envolvente, não é possível desassociá-la do contexto escolar.
Os docentes, conscientes desta realidade, aquando da sua ação pedagógica, sentem a necessidade de promover a interdisciplinaridade, para que as aprendizagens realizadas dentro da escola, não sejam completamente descontextualizadas e incompatíveis com o tipo de aprendizagem que se realiza fora da escola. Neste contexto, a interdisciplinaridade surge como uma estratégia imperativa, por ser detentora de uma maior e melhor flexibilidade da planificação e gestão dos conteúdos a serem trabalhados (Pombo, 1994c).
O último aspeto apresentado por Pombo (1994c) refere-se à complexidade do mundo da ciência e do conhecimento em que nos inserimos. Constata que muitas vezes a sociedade não acompanha, proporcionalmente, as evoluções tecnológicas e as novas descobertas científicas, que têm surgido cada vez com mais frequência e com um nível de complexidade mais elevado ao longo dos nossos dias. Como forma de refúgio, e muitas vezes escape deste mundo desconhecido, ou de difícil compreensão, a sociedade sente a necessidade de criar outras verdades onde se sinta segura e compreenda o desenrolar dos acontecimentos, a partir de justificações não válidas, não cientificas e generalizadas. Acaba assim por recorrer à criação de escapes, a estas inquietações explicativas do mundo da ciência e da tecnologia, embrenhando-se em mitos, ideologias e superstições para explicar os acontecimentos à sua volta.
Neste âmbito, Pombo (1994c) refere a urgência de repensar o ensino, em especial o ensino das ciências, pois é onde os docentes têm a oportunidade de promover a exploração deste mundo da ciência de forma ativa e significativa. Pretende-se que o docente, recorrendo à interdisciplinaridade, proporcione às crianças momentos de aprendizagem, através dos quais possam chegar às suas próprias conclusões e adquirir conceções a partir da ação, da descoberta e do questionamento por aquilo que a rodeia.
Todos estes critérios são referenciados, para que se compreenda a interdisciplinaridade como componente indissociável da prática docente, para que a gestão do ambiente educativo dentro da sala de aula seja feita de forma contínua,
interligada e se traduza em experiências de aprendizagem significativas e ativas para as crianças.
A interdisciplinaridade implica, portanto, alguma reorganização do processo de ensino/aprendizagem e supõe um trabalho continuado de cooperação dos professores envolvidos. Conforme os casos e os níveis de integração pretendidos, ela pode traduzir- se num leque muito alargado de possibilidades: transposição de conceitos, terminologias, tipos de discurso e argumentação, cooperação metodológica e instrumental, transferência de conteúdos, problemas, resultados, exemplos, aplicações, etc (Pombo, 1994b, p.13).
Paviani (2004) apresenta várias perspetivas em relação à interdisciplinaridade, pela sua multiplicidade de definições e diferentes aplicações realizadas pelos docentes, de acordo com o seu conhecimento sobre a matéria, nomeadamente que “(…) a interdisciplinaridade impõe-se cada vez mais como uma necessidade, como uma condição de possibilidade epistemológica e de política fundamental do conhecimento” (Paviani, 2004, p. 16). Acresce ainda que “(…) a interdisciplinaridade não é um fim que deva ser alcançado a qualquer preço, mas uma estratégia, um meio, uma mediação, uma razão instrumental, um permanente diálogo entre a unidade e a multiplicidade, entre as partes e o todo” (Paviani, p. 19).
De acordo com Pombo (2004), a interdisciplinaridade consiste no “(…) cruzamento entre domínios do conhecimento” (p. 105). Ainda de acordo com a mesma referência, a interdisciplinaridade acabou por surgir na escola de forma quase espontânea, pois esta começou a ser encarada como algo imperativo e emergente.
Sintetizando, Pombo (2004) afirma que a interdisciplinaridade tem surgido entre os professores como forma de combater esta individualização das áreas de conteúdo e a sua fragilidade a nível da constante atualização dos seus conhecimentos. Por este facto, os professores encaram esta prática no ensino, como o cruzamento das várias áreas de conteúdo, de modo a que os alunos possam relacioná-los e melhor compreendê-los, possibilitando aos docentes uma planificação mais abrangente e completa.