Tendo em vista o objeto dessa pesquisa, que é o fazer do psicólogo na educação, bem como a orientação de análise escolhida, que é a fenomenológica, meu propósito caminhou no sentido de ter acesso à experiência profissional vivida pelos psicólogos – sujeitos pesquisados – que trabalhavam na Clínica Claparède.
No entanto, logo nos primeiros contatos com a documentação histórica da instituição, fiz a opção por não realizar entrevistas com esses sujeitos. Simultaneamente a essa decisão, a escolha por aproximar-me da experiência dos psicólogos da Clínica através de laudos psicológicos por eles elaborados, foi rapidamente se configurando e
tornou-se impositiva. Foi como se aqueles laudos tivessem me escolhido para serem utilizados como instrumentos que fossem dar voz ao trabalho dos psicólogos, e não o contrário. Explicitarei logo abaixo os dois motivos que se apresentaram imperativos e direcionaram minha escolha para os laudos psicológicos naquele momento.
Laudos psicológicos: expressões do vivido?
Em psicologia, quase a totalidade dos estudos realizados com orientação fenomenológica têm comumente se utilizado do relato verbal, na grande maioria das vezes corporificado numa entrevista.
Vi essa afirmativa confirmada quando, em minhas pesquisas bibliográficas, deparei-me com a escassez – ou praticamente inexistência – de trabalhos onde se privilegiava a análise fenomenológica de depoimentos escritos51. Esse fato, num primeiro momento, levou-me equivocadamente a uma estranheza seguida de um questionamento: laudos psicológicos se prestariam a se constituir em fontes para uma análise do tipo fenomenológico? Passado esse momento inicial, minha resposta a essa questão foi seguramente afirmativa. Como aponta Amatuzzi (1996, 2001a), o vivido pode se manifestar e se objetivar das mais diversas formas possíveis, seja através de uma obra de arte, de um desenho, de documentos, etc, e “depoimento é o nome que se convencionou dar para essas manifestações” (Amatuzzi, 2001a: 60). Esse autor acrescenta ainda que, em princípio, qualquer manifestação humana pode se constituir num depoimento, o que é o mesmo que dizer que o vivido pode ser acessado a partir de qualquer manifestação humana. Isso não é o mais importante. O que importa, sim, é a luz que o pesquisador pode direcionar para esse depoimento para que sua leitura seja possível:
A luz sob a qual se lê o depoimento é, então, uma luz que permite atravessar a materialidade empírica do próprio depoimento, chegar ao vivido que ele expressa, e depois, abstraindo-se do contexto concreto deste sujeito, buscar os significados gerais em relação à existência humana problematizada pelo pesquisador (Amatuzzi, 2001a: 60).
51
O trabalho de Macêdo (1999) intitulado Análise fenomenológica de depoimentos escritos –
apresentando e discutindo uma possibilidade teve como objetivo compreender do ponto de vista da
fenomenologia a relação terapêutica e, nele, os dados foram colhidos através de depoimentos escritos dos clientes sobre o tema em questão. Esse mesmo trabalho confirma essa minha afirmativa, ao discutir a inexistência desse tipo de investigação, tanto no Brasil quanto no exterior. Essa posição também é confirmada pelo trabalho de Forghieri (1993), onde, após leitura do mesmo, chega-se à conclusão de que, de forma ampla, o material utilizado pelas pesquisas fenomenológicas em psicologia tem sido, preferencialmente, o relato do sujeito (verbal ou escrito) sobre sua vivência de determinado tema.
Sem dúvida, sendo a análise fenomenológica uma leitura do vivido a partir de alguma expressão dele, reafirmo que os laudos psicológicos, tomados aqui como “expressões do vivido dos profissionais que os escreveram” (Amatuzzi, 2007), se constituem em fontes ricas e inesgotáveis para a compreensão de diversos temas que inquietam aqui e ali os pesquisadores em psicologia. Para isso, basta, então, atentar para essa luz que possibilitará a leitura desses documentos.
Laudos psicológicos: alvos de críticas
Conferindo a literatura especializada sobre a atuação do psicólogo na educação, tema que já mereceu destaque no Capítulo 3 dessa investigação, pude perceber que, na maioria dessas obras, a crítica estava centrada no psicodiagnóstico e, conseqüentemente, nos laudos psicológicos52.
Apresentarei agora alguns exemplos que servem para ilustrar essa minha afirmação. Começo com um recente trabalho de Souza Patto (2000), já citado anteriormente. No trecho dessa obra onde faz uma crítica à psicometria (pp. 65-84), a autora aponta os psicólogos que fazem uso dessa prática como profissionais a serviço da exclusão escolar e social de alunos pobres, observando que
(...) laudos sem um mínimo de bom senso e de senso de ridículo produzem estigmas e justificam a exclusão escolar de quase todos os examinados, reduzidos a coisas portadoras de defeito de funcionamento em algum componente da máquina psíquica (Souza Patto, 2000: 67).
Outro exemplo de crítica ao psicodiagnóstico é o de Souza (2005), num artigo onde trabalha com a análise de prontuários de crianças e adolescentes que apresentaram algum tipo de dificuldade no decorrer do processo de escolarização. Ao observar que a
52
Existe uma distinção entre laudo psicológico e prontuário psicológico, dois registros produzidos pelo psicólogo na sua prática profissional. Em 01/12/2001, o Conselho Federal de Psicologia publicou a Resolução CFP Nº. 30/2001, que instituiu o Manual de Elaboração de Documentos, produzidos pelo psicólogo. Essa resolução conceitua laudo psicológico como “o relato sucinto, sistemático, descritivo, interpretativo de um exame (ou diversos) que descreve ou interpreta dados. O Laudo Psicológico é também chamado de Relatório Psicológico e quando sua solicitação decorre de instâncias judiciais tem sido nominado de laudo pericial”. Como finalidade, a mesma resolução aponta que o laudo tem “o objetivo de apresentar diagnóstico e/ou prognóstico, visando fornecer orientações, subsidiar decisões ou encaminhamentos, a partir de uma avaliação psicológica” (grifo meu). Já o prontuário psicológico, similarmente a um prontuário médico, constitui um registro geral de todos os atendimentos realizados pelo psicólogo a um determinado cliente e, nesse registro, incluem-se entrevistas, testes, observações, acompanhamentos, encaminhamentos e outras ações realizadas no decorrer do atendimento (Souza, 2005).
avaliação psicológica é o principal instrumento nesse processo, conclui pela necessidade de se repensar as práticas psicológicas quando se trata de lidar com esse tipo de clientela. Essa autora afirma que a principal conseqüência de um psicodiagnóstico mal elaborado reside no fato de “(...) se manter uma Psicologia a serviço da exclusão social dessas crianças” (Souza, 2005: 101). Reconhecendo ainda a grande força do laudo psicológico no contexto educacional, ela enfatiza que
as conseqüências da utilização desse instrumento na escola são as mais diversas, mas em geral, todas elas contrárias ao fortalecimento do aprendizado e reforçadoras da estigmatização que as crianças vêm sofrendo na escola (Souza, 2005: 97).
Machado & Souza (2004) também concordam que “(...) os encaminhamentos de crianças para atendimentos psicológicos e/ou médicos selam destinos, trajetórias escolares” (2004: 40), e apontam que, nesse percurso, o psicodiagnóstico encontra-se, mais uma vez, como um dos principais instrumentos – senão o único – de estigmatização e exclusão.
A literatura que trata desse tema e de assuntos correlatos é extensa (Souza Patto, 1984, 1991, 2000; Libâneo, 1984; Goulart, 1985; Moreira, 1992; Wechsler, 1996; Zanella, 1998; Guzzo, 1999; Neves & outros, 2002, etc.) e penso ser desnecessário apresentá-la em detalhes.
Assim sendo, foi também por esse motivo – por se constituírem no alvo preferencial da crítica especializada – que optei por privilegiar os laudos psicológicos como instrumentos de coleta de dados nesse estudo. No meu entendimento, ao se comportarem como o espelho de uma atuação tão criticada pela literatura especializada, mostrar uma prática diferenciada de psicólogos baseada justamente nesse espelho, é o mesmo que mostrar uma outra possibilidade de leitura de uma mesma realidade.
Outro aspecto que merece ser ressaltado é o de que existe uma discussão atual no campo da historiografia da educação que diz respeito ao alargamento da concepção de fontes. Hoje se sabe que as fontes são muito importantes num trabalho científico, pois é a partir do manuseio criterioso e crítico das mesmas que se pode recolher dados preciosos ao trabalho. Muitos autores, como por exemplo Xavier (2001) e Faria Filho (2003), apontam que, na pesquisa de temas e questões educacionais, o que vem acontecendo é uma incorporação de fontes que nunca foram cogitadas antes como passíveis de favorecer uma apreensão mais apurada da realidade educativa. Como exemplos, pode-se citar a fotografia, a iconografia, as plantas arquitetônicas, os diários
íntimos, as correspondências, os registros judiciais e outros, que têm se colocado como possibilidades marcadamente originais no percurso metodológico.
Também na produção científica recente em psicologia é possível se localizar essa tendência, com os laudos psicológicos encontrando-se perfeitamente inseridos nessa perspectiva de riqueza de fontes incomuns e havendo um crescente interesse no estudo dos mesmos e de prontuários psicológicos. É o que demonstram trabalhos como os de Cardoso (2004), Facchinetti (2004) e Souza (2005).
Diante do exposto, propus-me a utilizar como instrumentos de coleta de dados os laudos psicológicos elaborados por psicólogos da Clínica Claparède, instituição que já foi apresentada no capítulo anterior. Os dados coletados nesses documentos, repito, serão analisados conforme a perspectiva fenomenológica de pesquisa em psicologia e, daqui para a frente, passo a apresentar como se deu, na prática, a utilização desse material de pesquisa.