Adriana Carla Bridi
Interrupção é a quebra no desempenho de uma atividade humana, ini- ciada por uma fonte interna (o próprio indivíduo) ou externa (pessoas ou objetos inanimados), dentro de um contexto ou de uma localização. Essa quebra resulta na suspensão da tarefa anterior, iniciando o desem- penho de uma nova tarefa não programada, com o pressuposto de que a tarefa anterior será retomada. Interrupções também são chamadas distração, break-in-task e ruptura.
Experimentos controlados em laboratório sobre cognição fornecem evidências de que interrupções nos processos mentais podem estar relacionadas a erros. As interrupções são comuns no ambiente de traba- lho, particularmente envolvendo enfermeiros. Lapsos de memória, má interpretação de ordens e dados, ou desempenho incorreto de tarefas podem ocorrer quando enfermeiros são interrompidos. A maioria dos estudos realizados relacionados às interrupções e erros se concentra no trabalho dos enfermeiros e nas interrupções durante a administração de medicamentos.
O Institute of Medicine (IOM) incluiu a redução de interrupções como estra- tégia para melhorar a segurança do paciente e qualidade do cuidado. O
Joint Commission considera as interrupções fator contribuinte de eventos
sentinela e erros. Uma revisão de literatura de 14 estudos que avaliaram a frequência de interrupção do trabalho das enfermeiras durante admi- nistração de medicamentos apresentou uma taxa de 6,7 interrupções de trabalho por hora, em um determinado tempo de observação. A maio- ria das interrupções (36,5%) foi provocada por membros da equipe de enfermagem por meio de interações face a face de curta duração. Nessa revisão, as fontes técnicas de interrupções de trabalho, como alarmes provenientes de equipamentos e falhas de funcionamento, variaram entre 4,5% e 13%, e a menor proporção de interrupções resultou de falhas no sistema de trabalho, tais como falta de medicamentos. Em um estudo observacional em salas de cirurgia, a média total de interrupções alcançou o número de 60,8 interrupções por cirurgia, tendo como fatores envolvidos: entradas e saídas da sala de cirurgia (2.577 vezes); alarmes dos equipamentos (2.334 vezes); conversação paralela (1.821 vezes); e toques de telefone ou pager (1.456 vezes).
Os ambientes dos serviços de saúde são agitados. Profissionais de saúde possuem limitações de tempo e realizam muitas tarefas complexas que requerem atenção. Interrupções, por ligações telefônicas, solicitações de outros profissionais, falhas de equipamentos, alarmes, pedidos de pacientes e familiares interrompem os profissionais durante todo o dia distraindo sua atenção, aumentando a complexidade do seu trabalho e, muitas vezes, podem dificultar para que os profissionais de saúde concluam com êxito suas tarefas.
No Quadro 1, apresentamos as principais estratégias para reduzir inter- rupções que, desnecessariamente, aumentam a complexidade do traba- lho do enfermeiro.
Quadro 1 – Estratégias de redução das interrupções
Adotar “as zonas de silêncio” – semelhantes às zonas de “não interrupção”. São áreas em que o silêncio é recomendado para não interferir na atenção do profissional.
Adotar medidas de incentivo a cirurgiões que tenham como rotina a checagem da cirurgia segura junto com a equipe.
Adotar sistemas de verificação de erros.
Criar zonas de “não interrupção" – áreas em que as interrupções não são permitidas, como exemplo, espaço marcado em vermelho limitando o chão em torno do local de preparo e dispensa/dispensação de medicação (veja ilustração na página seguinte).
Distinguir entre o que é vital e valioso: priorizar tarefas.
Dizer "Não" – deixar de assumir trabalho adicional a fim de evitar muitas prioridades concorrentes.
Don’t “own the world” (Não tente abraçar o mundo) – enfermeiras devem reconhecer que não
têm de fazer e ser tudo para serem competentes, não é necessário assumir trabalho de outros. Instituir a "Hora da medicação" – evitar também interrupções durante a administração de medicação, além do momento do preparo.
Promover uma cultura de segurança justa e não punitiva, em que todos são responsáveis. Realizar programas de capacitação interdisciplinar em segurança do paciente.
Utilizar colete "Não perturbe" – emprego de pistas visuais para reduzir as interrupções, como o uso pelas enfermeiras de coletes rotulados "Não perturbe" para os momentos que envolvem a medicação.
Referências
Anthony K, Wiencek C, Bauer C, Daly B, Anthony MK. No interruptions please: impact of a no interruption zone on medication safety in intensive care units. Criti Care Nurse. 2010 [citado 2013 Ago 1];30(3):21-29. Disponível em: http://ccn.aacnjournals.org/content/30/3/21.full.pdf+html.
Biron AD, Loiselle CG, Lavoie-Tremblay M. Work interruptions and their contribution to medication administration errors: an evidence review. Worldviews Evid Based Nurs. 2009 [citado 2013 Ago 4]:60(2):70– 86. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1741-6787.2009.00151.x/pdf.
Brixey JJ, Robinson DJ, Johnson CW, Johnson TR, Turley JP, Zhang J. A concept analysis of the phenomenon of interruption. Adv Nurs Sci. 2007 Jan [citado 2013 Ago 1];30(1): E26–E42. Disponível em: http://journals.lww.com/advancesinnursingscience/pages/articleviewer.aspx?year=20 07&issue=01000&article=00012&type=abstract.
Brixey JJ, Robinson DJ, Tang Z, Johnson TR, Zhang J, Turley JP. Interruptions in workflow for RNs in a Level One Trauma Center. AMIA 2005 Symposium Proceedings, 2005 [citado 2013 Ago 1]. p. 86-90. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1560877/pdf/amia2005_0086.pdf.
Einstein GO, McDaniel MA, Williford CL, Pagan JL, Dismukes RK. Forgetting of intentions in demanding situations is rapid. J Exp Psychol Appl. 2003 [citado 2013 Ago 4];9(3):147–62. Disponível em: http://psycnet.apa.org/journals/xap/9/3/.
Grundgeiger T, Sanderson P. Interruptions in healthcare: theoretical view. Int J Med Inf. 2009 May [citado 2013 Jul 31];78(5):293-307. Disponível em: http://www.ijmijournal.com/article/S1386-
Hanson D. Reducing interruptions. Patient Saf Qual Healthc. 2010 Mar/Apr [citado 2012 Nov 13];7(2):27-28. Disponível em: http://viewer.zmags.com/publication/8441c6ae#/8441c6ae/26.
Hopkinson SG, Jennings BM. Interruptions during nurses’ work: a state-of-the-science review. Res Nurs Health. 2013 Fev [citado 2013 Jul 31];36(1): 38-53. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley. com/doi/10.1002/nur.21515/pdf.
Kosits LM, Jones K. Interruptions experienced by registered nurses working in the emergency department. JEN. 2011 Jan [citado 2011 Nov 12];37(1):3-8. Disponível em: http://download. journals.elsevierhealth.com/pdfs/journals/0099-1767/PIIS0099176709006333.pdf.
Liberto R. Quiet zones. Patient Saf Qual Healthc. 2010 Mar/Apr [citado 2012 Nov 13];7(2):28-30. Disponível em: http://viewer.zmags.com/publication/8441c6ae#/8441c6ae/26.
Page A, editor. Keeping patients safe: transforming the work environment of nurses. Interruptions. Washington, DC: Institute of Medicine, National Academies Press; 2004 [citado 2013 Ago 3]. p. 45. Disponível em: http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=-HGgPSzcWPQC&oi=fnd&pg =PA1&dq=Page,+A.+%28Ed.%29.+%28 2004%29.+Keeping+patients+safe.+Transforming+the+ work+environment+of+nurses.+Washington,+DC:+National+Academies+Press.&ots=MKo2LwJ0J 8&sig=S5lI43oZwhaZI5jCwCwYkOktOHc#v=onepage&q=Page%2C%20A.%20%28Ed.%29.%20 %282004%29.%20Keeping%20patients%20safe.%20Transforming%20the%20work%20 environment%20of%20nurses.%20Washington%2C%20DC%3A%20National%20 Academies%20Press.&f=false.
Pereira BMT, Pereira AMT, Correia CS, Mattos Jr AC, Fiorelli RKA, Fraga GF. Interrupções e distrações na sala de cirurgia do trauma: entendendo a ameaça do erro humano. Rev Col Bras Cir. 2011 Set/Out [citado 2013 Ago 7];38(5): 92-298. Disponível em: http://bases.bireme.br/cgibin/ wxislind.exe/iah/online/.
Potter P. Impact of interruptions on the cognitive work of nursing rooms. Patient Saf Qual Healthc 2010 Mar/Apr [citado 2012 Nov 13];7(2):24-30. Disponível em: http://viewer.zmags.com/publicatio n/8441c6ae#/8441c6ae/26.
Redding DA, Robinson S. Interruptions and geographic challenges to nurses’ cognitive workload. J Nurs Care Qual. 2009 [citado 2013 Ago 29];24(3):194-200. Disponível em: http://interruptions. net/literature/Redding-JNursCareQual 09.pdf.
Rivera AJ, Karsh BT. Interruptions and distractions in healthcare: review and reappraisal. Qual Saf Health Care. 2010 Aug [citado 2013 Jul 31];19(4): 304–12. Disponível em: http://www.ncbi.nlm. nih.gov/pmc/articles/PMC3007093/pdf/ nihms249161.pdf.
Papel e Acabamento Capa: Papel Cartão supremo 250g/m2 Ctp Digital: Gráfica Walprint
Impressão e acabamento: Gráfica Walprint Rio de Janeiro, agosto de 2016.