No trabalho de canto coral temos diversas formas de comunicação que partem dos coralistas. Eles dialogam com o regente tanto verbalmente quanto através de suas reações e atitudes no decorrer do ensaio, além de se comunicarem entre si, sempre se mantendo em
62 Vigotski chama de reflexos condicionados todas aquelas reações que são adquiridas pela ação cultural do
indivíduo, como as reações emocionais e também aquelas racionais. Reflexos incondicionados são aqueles que são fruto de uma ação biológica ou instintiva.
constante cooperação, o que envolve vários momentos de comunicação direta ou indireta.63 Em alguns grupos a interação entre as partes é mais discreta e disciplinada, sendo a expressão corporal/facial uma das principais formas de interação entre o grupo e o professor; em outros os cantores são mais diretos e incisivos, tendo maior liberdade para agir sobre o ensaio.
As ações comunicativas dos coralistas nem sempre aparecem através da indagação direta. Na maioria das vezes são reações mais discretas, como olhares, massagear constantemente o pescoço e outras ainda mais diversas. Nem sempre o vídeo capta essas reações, mas o pesquisador como observador e também o regente são capazes de verificá-las. Podemos dizer então que a expressão corporal é um elemento fundamental para a avaliação do professor.
A linguagem corporal nos dá muitas informações que não são e não podem ser colocadas em palavras. Aqueles envolvidos na prática do ensino saberão ler as atitudes do estudante frequentemente por meios além da palavra falada. (DURRANT, 2003, p.6).
Um exemplo de comunicação mais discreta ocorreu entre o ensaio do Coro Musiarte e do Conjunto Musical Feminino: uma das cantoras, que também atua como auxiliar do regente – organizando as partituras e atuando como uma das porta-vozes do grupo –, foi conversar em particular com o maestro fora do local do ensaio para expor um problema com relação a uniformes que o coro estava enfrentando. Embora a reação do coralista para com o regente não tenha mudado aquela situação de imediato, criou parâmetros para quando enfrentar outra situação como aquela. (Notas Extras, Anexo, p.137).
Já no ensaio do coro SERLIMP, uma das ações nos coralistas que motivou o regente e autor deste trabalho a pedir para as contraltos priorizarem o timbre em detrimento do volume nos agudos é o fato de que não só a afinação estava difícil, mas a coralista que ficava o tempo todo massageando o pescoço indicava claramente que algo não estava bem naquele momento, mostrando ao regente sua dificuldade (Vídeo SERLIMP 6’30” – 6’44”).
63 Estamos chamando de comunicação direta aquela em que o indivíduo abre um diálogo verbal propriamente
dito; a comunicação indireta é aquela feita através da expressão corporal e de ações que não são dirigidas a alguém em específico.
No Coral Musiarte, a dificuldade dos cantores, principalmente demonstrada pela expressão de dúvida64, que não pôde ser gravada no vídeo, e pela própria produção sonora, motivou o regente a colocar um dos coralistas para cantar ao lado do piano, posteriormente trazendo uma outra parte do naipe masculino para acompanhá-lo [Coral Musiarte (3)]. Quando o regente do Conjunto Feminino Musiarte pergunta sobre diversas músicas e qual delas ele acrescentaria ao repertório, foi possível notar várias expressões faciais e corporais que indicavam o gosto das cantoras com relação às músicas, culminando com uma expressão de contentamento, que partiu das crianças, ao ouvirem a possibilidade da música “Azulão” ser acrescida ao programa (Notas extras, Anexo, p. 137).
A linguagem e a expressão corporal como forma de comunicação são um movimento que o ser humano cultiva desde a mais tenra idade. Na pesquisa de Vigotski já se observa presente na ação da criança o ato de se voltar para o adulto ou educador com gestos e expressões. Na dificuldade da ação, o indivíduo se volta ou para o outro ou para a mediação do signo e da linguagem para poder concretizar a tarefa que até então excede suas capacidades naturais. A comunicação para VIGOTSKI surge da necessidade de agir psicologicamente sobre o outro para poder agir sobre o meio e sobre o próprio comportamento. Quando consideramos a zona de desenvolvimento proximal como padrão para explicar a interação entre pessoas, vemos que aquilo que não é um processo internalizado é processado primeiramente no conjunto, para depois aparecer internamente como desenvolvimento.
No Conjunto Feminino Musiarte e no Coral Musiarte encontramos o repertório já desenvolvido e memorizado e cantores com certa fluência na execução da peça. Dessa forma, os olhares e expressões são menos evidentes e em menor número; ou seja, as pessoas já podem se concentrar na execução em si, considerando que já adquiriram as habilidades necessárias para tal. Já no coral da Semitom, acontece o oposto, pois o grupo acaba de iniciar seus trabalhos. No áudio é possível notar muita conversa entre os cantores e os regentes, que faz parte do processo de assimilação do grupo. Não apenas dúvidas e respostas, mas também opiniões e apontamentos por parte dos coralistas, o que é utilizado muitas vezes pelos professores para explicar partes da música ou para elucidar alguns significados nas canções.
64 A expressão de dúvida a qual estamos nos referindo, é quando os homens passam a se olhar com muita
frequência como se buscassem entre si uma solução para um problema que eles mesmos identificaram no decorrer da execução da música
É notável que, quando os coralistas começam a se olhar com bastante frequência, significa que uma dúvida surgiu entre eles. No ensaio do Conjunto Feminino Musiarte no dia 13/11/201065 esta reação foi bastante clara quando houve um problema com a entrada da música “Laudamus Te” de Wolfgang Amadeus Mozart: a diferença entre a entrada do regente e a do coro gerou um estranhamento, fazendo com que os coralistas buscassem seus companheiros e também o regente para encontrar o padrão correto, ocasionando um questionamento verbal por parte dos coralistas sobre esta entrada em particular. O ato de buscar o outro é uma forma de conseguir, com o companheiro, resolver um problema que quando sozinho gera dificuldade. Os cantores, ao buscarem uns aos outros, estabelecem outro tipo de comunicação, que é a entre os cantores.
O Vídeo Coral Musiarte (5), aos 17', logo após os cantores terem indagado o regente sobre a última página da música, eles anotam as instruções do regente, porém sempre um ajudando o outro nas anotações. Já no ensaio gravado do Conjunto Feminino não há indagações ao regente com tanta frequência e nas músicas gravadas essa cooperatividade não é tão visível, justamente porque acontece não de forma a abordarem diretamente o maestro mas durante o canto quando uma serve de referência para a outra.
A comunicação é o principal elemento de interação que realmente transforma o grupo em um fenômeno sociocultural. A cooperação entre os cantores só é possível porque através da comunicação estabelece-se um “link” entre os coralistas, o que possibilita a construção da sonoridade do grupo. Porém, na ação comunicativa, quando o exagero tende a desviar as atenções do ensaio e da música como um todo, retardando o ritmo da produção musical, há uma influência direta na motivação dos coralistas, pois o estudo da obra acaba se prolongando e gerando cansaço. Portanto, da mesma forma que a comunicação é fundamental, pode se tornar um grande obstáculo se não for bem administrada.
65 Este ensaio não está catalogado, é um ensaio do qual o autor participou como regente substituto, e assim como