4. Data Analysis
4.2 Results and Discussion
4.2.2 Green Information and Markets; Research Sub-Question 2
As Professoras
As professoras selecionadas são experientes com um tempo de serviço médio em torno de 20 anos. São, neste estudo, denominadas de Ceci, Iara, Iracema e Juçara. Fez-se a opção por esses nomes por apresentarem estreita relação com a história da região amazônica, marcada pela forte influência da cultura indígena e pela luta vivenciada por uma das professoras em ver demarcada uma área indígena pertencente à comunidade na qual mora e onde está localizada a escola.
Ceci, Iara, Iracema e Juçara representam o ideário amazônico e brasileiro eternizado em lendas e romances. Cecília, verdadeiro nome de Ceci, é a filha de um fidalgo português que se apaixona pelo índio Peri que a salva de um acidente. A história desse romance é contada em O Guarani de José de Alencar. Iara é o ser mitológico mais popular da Amazônia. Ela é descrita como uma mulher muito bonita e de canto inebriante que enfeitiça os homens. Quem a vê, nunca mais a esquece. Iracema é uma índia da tribo Tabajara que se apaixona pelo português Martim Soares em outro romance escrito por José de Alencar. Juçara faz referência a uma palmeira da qual se extrai o açaí e o palmito, também chamada “açaí-do-sul” e abundante na região amazônica.
As professoras, todas elas mulheres e mães, são referências nas comunidades às quais pertencem, fazem parte das associações de moradores e são
líderes nas igrejas locais. Todas declaram ser cristãs, sendo três católicas e uma evangélica. No quadro a seguir apresentam-se mais informações sobre elas.
Quadro 01
Caracterização das professoras de classes multisseriadas
Nome Escolaridade Inicial Tempo de Serviço
em 2005
Séries que Leciona
Juçara 7ª série 18 anos 2ª, 3ª e 4ª
Iracema 7ª série 25 anos 1ª, 2ª, 3ª e 4ª *
Ceci 8ª série 23 anos 1ª, 2ª e 3ª
Iara 5ª série 31 anos 1ª, 2ª, 3ª e 4ª
* Divididas em dois turnos, a saber: 2ª e 3ª no período da manhã e 1ª e 4ª no período da tarde.
As escolas pesquisadas
No que se refere à estrutura física se confirmou uma velha sensação de que as escolas do campo são precárias. Nas escolas onde se realizou esta pesquisa, embora o espaço físico tenha melhorado tendo em vista os investimentos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério – FUNDEF, a estrutura existente está longe de representar o modelo ideal e de atender às necessidades da comunidade escolar.
A seguir descrevem-se os espaços físicos das escolas que, embora não sejam muito distintos, guardam suas peculiaridades. Por esse motivo faz-se a descrição individualizada de cada um. Seguindo o exemplo do que se fez com as professoras, utilizam-se aqui termos indígenas para denominar as escolas.
A Escola Oca
É construída em alvenaria com cobertura de telhas de barro e tem boas condições físicas. Possui 1 sala de aula, 1 cozinha, 1 sala de secretaria e 2 sanitários.
A sala de aula possui apenas as carteiras dos alunos, uma mesa e uma cadeira em madeira para uso da professora Iracema e um quadro de cimento de cor verde na parede. Na porta ela coloca uma lixeira na qual os alunos depositam pedaços de papel e a serragem dos lápis. A escola não possui energia elétrica. As carteiras são dispostas em semi-círculos, mesmo nos dias de prova. Nas paredes estão cartazes do dia das mães e no teto há alguns enfeites de balões juninos. No final da sala, depositados em cima de algumas carteiras, vários livros didáticos e dicionários aos quais os alunos têm acesso sempre que necessitam. Do lado da mesa da professora também existem alguns livros dispostos nas mesmas condições além de lápis e borrachas e do material de “secretaria” como grampeador e algumas folhas de papel em branco.
Na sala de secretaria há algumas carteiras, um quadro verde portátil que fica apoiado sobre duas carteiras, um mimeógrafo a álcool e uma pequena mesa. Esse espaço é usado para guardar materiais da escola como livros e tambores e como sala para as aulas de reforço. Na cozinha existe uma mesa com 6 cadeiras, um fogão tipo industrial a gás e uma pia. Não existe rede de abastecimento de água e a merendeira, que também é servente, precisa caminhar cerca de 400m até o igarapé para pegar água e lavar a louça. Na cozinha existe ainda uma despensa que serve para guardar a merenda escolar distribuída pela secretaria de educação. Os sanitários, 1 masculino e 1 feminino, são muito precários, ficam do lado de fora da escola e não são construídos com fossa sanitária.
Esta escola possui 36 alunos regularmente matriculados em dois turnos e assim distribuídos: 1ª série com 10 alunos, 2ª série com 7 alunos, 3ª série com 7
alunos e 4ª série com 12 alunos. Existem ainda 3 alunos que estão “encostados17” na 1ª série. São ao todo 39. No quadro a seguir apresenta-se a organização das aulas elaborada pela professora.
Quadro 02
Programação de Disciplinas da Escola Oca
Dia da semana 1º período* 2º período**
Segunda – feira Português Matemática
Terça – feira Português Matemática
Quarta – feira Matemática Geografia
Quinta – feira Português Matemática
Sexta – feira História Ensino Religioso e
Educação Física
* Antes do intervalo para recreio ** Depois do intervalo para recreio
A Escola Aldeia18
É construída em alvenaria com cobertura de telhas de barro e também tem boas condições físicas, pois foi reformada na administração passada com recursos do FUNDEF. Possui 1 sala de aula, 1 cozinha com despensa, 1 sala de secretaria e 2 banheiros.
A sala de aula é equipada com as carteiras dos alunos, uma mesa e uma cadeira em madeira para uso da professora e um quadro de cimento de cor verde na parede. No fundo da sala fica um bebedouro de água para uso coletivo. A justificativa do bebedouro na sala é para evitar que os alunos saiam para beber água, o que garante um maior controle, pois a escola não possui muro ou cerca que
17 As professoras de escolas do campo costumam receber alunos não matriculados em suas salas de aula. É uma espécie de pré-escolar e ao fazer isso criam demanda para o ano seguinte, já que podem contar com esses alunos na matrícula do próximo ano, garantindo dessa forma a oferta de uma nova turma. Também pensam em facilitar seu próprio trabalho no futuro, pois o aluno ingressará com algum conhecimento escolar, especialmente o que se refere à alfabetização.
18 Povoado de índios. Nome de um bairro da cidade de Santarém onde antigamente habitavam os índios Tapajó.
limite a saída dos alunos. Quando a servente ou outra pessoa que está na escola precisa de água, entra na sala, naturalmente, e pega o líquido. A escola possui energia elétrica, mas não é equipada com geladeira ou outros equipamentos elétricos além do bebedouro. As carteiras são dispostas em fileiras. Nas paredes estão cartazes de ciências e alguns com o alfabeto usado pela professora da tarde que trabalha com a 1ª série.
A sala de secretaria é usada pela professora Juçara com certa freqüência e é nela que estão guardados os diferentes materiais da escola como livros, mimeógrafo, um rádio pequeno que funciona à pilha e alguns tambores usados no desfile de 7 de Setembro.
A cozinha possui azulejos brancos nas paredes e lajota branca no piso e é equipada com fogão tipo industrial que funciona a gás, tem uma mesa com cadeiras e uma pia. A escola possui água encanada proveniente do microssistema que abastece a comunidade. Os banheiros também possuem azulejos nas paredes e lajota no piso, pia e vaso sanitário. O uso dos banheiros foi determinado pela professora ficando assim dividido: um é de uso coletivo dos alunos, meninos e meninas e o outro é de uso dos funcionários da escola. O banheiro usado pelos alunos tem um vazamento na caixa de descarga e na pia e a porta está com a fechadura danificada. O banheiro usado pelos funcionários da escola (professoras e servente) está em boas condições de conservação e limpeza.
A sala de aula da professora Juçara possui 20 alunos sendo 9 de 3ª série e 7 de 4ª série, estes matriculados para estudarem com ela. Existem ainda 4 alunos de 2ª série que deveriam estudar no período da tarde com a outra professora. Como essa professora tem que alfabetizar os alunos de 1ª série, Juçara “pegou” esses alunos no período da manhã e trabalha com eles.
A distribuição das disciplinas durante o período letivo foi organizada pela professora e está exposta no quadro a seguir:
Quadro 03
Programação de Disciplinas da Escola Aldeia
Dia da semana 1º período* 2º período**
Segunda – feira Português Matemática
Terça – feira Matemática Ciências
Quarta – feira Português História e Geografia Quinta – feira Matemática Ciências, História e
Geografia.
Sexta – feira Português Ensino Religioso e
Educação Física
* Antes do intervalo para recreio ** Depois do intervalo para recreio
A Escola Borari19
É construída em alvenaria com cobertura de telhas de barro e tem boas condições físicas. Possui 1 sala de aula, 1 cozinha, 1 sala de secretaria e 2 banheiros.
A sala de aula possui um armário onde a professora Iara guarda os livros, uma mesa e uma cadeira em madeira, um quadro de cimento de cor verde na parede. Na porta da sala a professora pede para a servente colocar uma carteira com uma garrafa tipo Pet com água e copos para uso dos alunos durante as aulas (assim não precisam sair para beber água). Possui ainda um ventilador de teto no meio da sala e 4 lâmpadas fluorescentes. As carteiras estão dispostas em 5 fileiras. Nas paredes estão cartazes do corpo humano e de bichos e plantas do Brasil (retirados de revistas ou enviados pelo MEC) e um outro cartaz construído na escola que fala sobre a importância da leitura.
Na sala de secretaria existem algumas carteiras e um quadro portátil. Essa sala é usada para atendimento de dois alunos portadores de necessidades
19 Índios que habitavam a região de Alter-do-Chão, balneário do município de Santarém, na época da colonização portuguesa.
educativas especiais. O atendimento é feito por uma professora itinerante que vai à escola duas vezes por semana. Durante esse período os alunos saem da sala regular e são acompanhados individualmente pela professora de “educação especial”. Esse acompanhamento funciona como aula de reforço já que não possui nenhum recurso especificamente elaborado para as necessidades dos alunos. Um foi diagnosticado como deficiente mental e o outro tem dificuldades de audição e de fala.
A cozinha possui piso em lajota branca e azulejos, também brancos nas paredes. Tem uma mesa com cadeiras, pia com água encanada e uma geladeira usada que fora comprada com recursos da escola, amealhados a partir de coletas, doações e pequenas vendas. A geladeira serve para congelar chopinhos20 de frutas que são vendidos nos intervalos a dez centavos de real cada um. Os banheiros também possuem lajotas no piso e azulejos nas paredes, pia e vaso sanitário e são assim distribuídos: 1 masculino e 1 feminino. Estão em bom estado de conservação.
A sala de aula da professora Iara possui 13 alunos na 1ª série, 4 alunos na 2ª série, 5 alunos na 3ª série e 8 alunos na 4ª série, somando 30 alunos regularmente matriculados. Ela tem ainda mais 4 alunos que estão “encostados” na 1ª série. São ao todo 34 alunos.
A seguir apresenta-se o quadro de distribuição das aulas elaborado pela professora Iara.
Quadro 04
Programação de Disciplinas da Escola Borari
Dia da semana Disciplina
Segunda – feira Português Terça – feira Ciências Quarta – feira Matemática
Quinta – feira História e Geografia
Sexta – feira Ensino Religioso e Educação Física
20
A Escola Tapajó21
Esta escola é construída em alvenaria com cobertura de telhas de amianto e possui 1 sala de aula, 1 sala de secretaria e 2 sanitários. Foi construída a partir da iniciativa do proprietário de uma fazenda que doou22 à Prefeitura de Santarém, no final da década de 1980, um terreno que deveria abrigar a construção. Em conversa informal com o doador da área soube-se que a edificação da escola teve motivações políticas já que o mandato do prefeito estava terminando e ele precisava apresentar alguma obra àquela comunidade.
A construção é muito precária e necessita de uma reforma urgente até para garantir a saúde da professora e dos alunos. Está localizada às margens de uma rodovia estadual que possui grande fluxo de veículos, inclusive caminhões madeireiros, não possui água encanada e nem muros que limitem a saída dos alunos e o seu conseqüente acesso à rodovia. O trânsito de veículos na estrada sem asfalto expõe os usuários do espaço da escola a doenças pulmonares, entre outras, já que a poeira é intensa, o calor é forte e o barulho constante. A escola possui rede de energia elétrica que é cedida por um morador vizinho quando há necessidade. Fica localizada ao lado de uma pequena capela da igreja católica.
A sala de aula possui carteiras dispostas conforme as necessidades da professora Ceci, três quadros de giz sendo 2 portáteis, cada um apoiado sobre duas carteiras e um outro afixado em uma das paredes. Existe uma mesa e uma cadeira de uso da professora e um armário para guardar livros e outros materiais. No fundo da sala há outra mesa onde fica uma garrafa do tipo Pet com água gelada para uso dos alunos e da professora. O copo é de uso coletivo e a água é cedida por uma família que mora perto da escola. Na entrada da sala existe um tapete e no pé da
21 Grupo indígena, atualmente considerado extinto, que habitava próximo ao Rio Tapajós, na época da colonização portuguesa.
22
Embora tivesse motivação política, tal prática foi e continua sendo amplamente aceita e foi até estimulada legalmente conforme exposto a seguir no Art. 32 da Lei 4.024/61: Os proprietários rurais que não puderem manter escolas primárias para as crianças residentes em suas glebas deverão facilitar-lhes a freqüência às escolas mais próximas, ou propiciar a instalação e funcionamento de escolas públicas em suas propriedades.
porta um tijolo enrolado em papel de presente que evita que a porta bata com o vento.
A sala de secretaria tem na entrada alguns vasos com plantas. Essa sala é usada como cozinha e não apresenta as mínimas condições para isso. Não possui pia, água encanada, despensa ou armários e os mantimentos destinados à merenda escolar ficam guardados em um grande saco plástico, expostos à poeira e ataque de animais nocivos à saúde humana. A merenda é preparada pelas mães dos alunos em sistema de rodízio. Quando a mãe escalada falta, as crianças ficam sem merenda e por isso são liberadas mais cedo. Os sanitários também são precários e não possuem fossa asséptica.
Para tentar resolver a questão do abastecimento de água na escola, a professora mandou perfurar um poço semi-artesiano que não resolveu o problema já que a água é imprópria para o consumo, pois é barrenta e exala mau cheiro. Essa água é usada para lavar a escola e limpar as carteiras.
A questão da limpeza da escola merece uma atenção especial uma vez que a professora Ceci é a única funcionária do local e também acumula essa função. Costuma chegar cerca de meia hora mais cedo à escola para providenciar a limpeza da sala e para isso conta com a ajuda das alunas e dos alunos. Durante o período em que se realizou este trabalho a pesquisadora também ajudou na limpeza e pôde sentir o quanto é cansativo. As carteiras ficam muito empoeiradas devido à proximidade da escola com a estrada e quando se passa o pano úmido, ao invés de limpar, forma-se uma crosta de lama inimaginável para um ambiente que deveria ser de aprendizagem salutar.
A Escola Tapajó possui 17 alunos distribuídos em três turmas: 7 de 1ª série, 4 de 2ª série e 6 de 3ª série. A seguir apresenta-se a organização das disciplinas durante a semana, elaborada pela professora Ceci.
Quadro 05
Programação de Disciplinas da Escola Tapajó
Dia da semana 1º período* 2º período**
Segunda – feira Ciências Português
Terça – feira História e Geografia Matemática
Quarta – feira Português Ciências
Quinta – feira Ensino Religioso Matemática
Sexta – feira Revisão Educação Física
* Antes do intervalo para recreio ** Depois do intervalo para recreio
As comunidades
As comunidades onde se localizam as escolas e residem as professoras participantes deste estudo não serão identificadas neste texto para preservar a identidade das informantes. Serão apresentadas informações gerais que caracterizam as comunidades rurais no Estado do Pará.
As comunidades estão localizadas na região do Planalto a cerca de 40 quilômetros da sede do município. A distribuição espacial não difere da de outras comunidades rurais e tem como referência a igreja católica, ao redor da qual estão o barracão comunitário, local onde se realizam os festejos e todas as reuniões importantes, a escola e o campo de futebol.
As comunidades possuem algumas tabernas que comercializam gêneros alimentícios básicos como óleo, arroz, feijão, sal, açúcar, porém a atividade característica da região é a extrativista e a agricultura de subsistência. Os comunitários fazem a colheita de açaí e pupunha, além da pesca e plantam pequenos roçados de feijão, mandioca e milho. A mandioca é beneficiada nas casas de farinha e é presença importante na mesa do caboclo amazônico. Esses produtos servem para o consumo de suas famílias e o excedente é comercializado na cidade.
Parte da população trabalha em fazendas da região como peão, doméstica ou capataz. A escolaridade em geral é baixa e muitos jovens mudam-se para a cidade em busca de melhores condições de vida.
A escola é tida como ponto de referência da comunidade, é entendida como local de um saber sistematizado e importante para a vida em sociedade.
Capítulo 2 – A ESCOLA DO CAMPO NO CONTEXTO DAS POLÍTICAS