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3. Sample and Data Description

3.1 Green bond issuing companies and control groups

O Filho Pródigo, segunda peça de Lúcio112, apresenta-nos o modelo de um pai amoroso e misericordioso. O drama em três atos foi inspirado na narrativa bíblica do evangelho do médico sírio de Antioquia, Lucas (cap. 15, v. 11-32), que conta a história de amor e compaixão levada por um pai a um de seus dois filhos, o mais moço, que se desvia em

112 Lúcio Cardoso já havia escrito, em 1937, uma peça chamada O escravo, para o grupo Os Comediantes, que a levou à cena, no Teatro Ginástico, em 10 de dezembro 1943, com direção de Adacto Filho (CARELLI, 1988, p.89).

pecado e abandona o lar contrariando os planos paternos de que nenhum dos filhos se afastasse das terras da família.

O mais novo, no afã de conhecer outros lugares, reivindica ao pai parte da herança que lhe cabia, e vai viver em terras distantes a sua própria vida; tempos depois, tendo dissipado a sua herança, vivendo de forma devassa e sem condições de se prover, arrepende- se e retorna para casa, sendo recebido com júbilo e perdão pelo pai e com despeito pelo irmão mais velho. Narra a passagem bíblica:

O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: Voltou teu irmão. E teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o reencontrou são e salvo. Encolerizou-se, ele não queria mais entrar, mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele então respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou teus bens com as meretrizes, logo lhe mandaste matar um novilho gordo!

Explicou o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Convinha, porém, fazermos festa, pois este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado! 113

A narrativa transmite uma imagem de pai indulgente, baseado no amor incondicional com todos os filhos independente dos erros que cometam. Para Gaarder; Hellern; Notaker (2004, p. 156) “poucas passagens na Bíblia ilustram tão bem a compaixão de Deus pelo homem e seu amor repleto de perdão como a parábola do “Filho pródigo”.

O enredo da peça homônima de Lúcio Cardoso desenvolve-se numa casa rústica, com teto de grossas traves de madeira, numa desconhecida região de vales em tempo indeterminado; narra os conflitos existenciais de uma família de negros camponeses que jamais viram pessoas de outra cor e de peregrinos misteriosos que passam pela estrada em frente da casa da família, despertando a curiosidade de todos.

113 BÍBLIA SAGRADA. Revisada por Frei João José Pedreira de Castro. 38ª edição. São Paulo: Edições Clareatianas, 2002. p. 1369.

Assur é o filho pródigo, apelidado pelo pai de o fiel. Como na história bíblica, o rapaz questiona com violência a interdição do pai: – “Mas como, de que modo poderemos ver apenas os limites destas terras?” (NASCIMENTO, 1961, p. 34). O jovem, insatisfeito consigo mesmo e com a vida que leva, ambiciona abandonar as terras da família, desafiando a moral e a tradição patriarcal. Ele tem seu desejo instigado, e acaba partindo, depois de encantar-se com a aparição de uma peregrina que visita a casa da família.

Manassés, o mais velho, negro retinto apelidado de o forte. Ele é obediente à autoridade e aos desígnios paternos, trabalhador e dedicado às terras da família e ao sustento da casa, é casado com Aíla, uma bela jovem, infeliz com sua cor e com o local onde vive. Ela irá semear a discórdia no seio da família, pois se apaixona pelo cunhado, desejando partir com ele.

Porém não são apenas Assur e Aíla que estão impregnados do desejo de ir-se embora e conhecer novos horizontes. Os dois outros irmãos, Moab, o caçula, um exímio tocador de flautas, e a jovem Selene são tentados pela visita de um peregrino que lhes oferece novas oportunidades em terras distantes.

Assur é o primeiro a tomar coragem e a resolver partir. Passado algum tempo, ele volta para casa, mas diferentemente da parábola bíblica, na qual o filho pródigo retorna faminto e pobre, o jovem negro reaparece rico e bem-vestido acompanhado por três escravos. Cada um deles traz uma cesta na cabeça, cheia de presentes aos familiares. O pai, contente, promove uma festa de recepção. Todos comemoram felizes, menos Manassés que demonstra ciúmes e raiva pelo tratamento dispensado ao irmão.

Selene e Moab, entusiasmados com o êxito da viagem do irmão, também resolvem partir com o peregrino em uma liteira branca com franjas de prata para um “palácio onde há uma janela sobre o mar” (NASCIMENTO, 1961, p.64). Assur adverte-os sobre os perigos do estrangeiro, mas mesmo assim eles partem.

Desta feita, ficam nas terras apenas o pai, Manassés, Assur e Aíla que, tentada pelas riquezas conquistadas por Assur, instiga-o a assassinar Manassés e a fugirem juntos. Como Assur não tem coragem de matar o irmão, ela mesma embebeda o marido e assassina-o com um punhal. O pai, ao descobrir o crime, expulsa o filho de casa e como castigo obriga-o a levar consigo a cunhada. Os dois partem. No dia seguinte, Assur resignado volta para casa e obtém o perdão do pai, e Aíla segue com um rico comerciante que encontrou pela estrada.

O crítico Roberto Brandão (1966, p. 47) escreveu em 7 de dezembro de 1947, no Diário Carioca, um artigo, “O Filho Pródigo”, a maior peça de 1947, classificando-a como um “drama poético”, pois o enredo inspirado na parábola bíblica apresenta “especial substância poética”. Argumenta o cronista:

A grandeza, a eternidade do tema (faço um parêntesis para dizer que a mim não repugna, como a outros, a deformação artística que introduziu no tema, antes agrada-me como uma variação renovadora) – a dita grandeza, a dita eternidade do tema, exigia ao lado do seu tom, de seu acento quase bíblico, uma linguagem de correspondente grandeza, com tons e ressonância de eternidade.

Fusco (1966, p. 51), contrapõe-se a Roberto Brandão e não vê na peça maiores qualidades:

Tive a oportunidade de ler o Filho Pródigo. Seus lugares comuns, suas imagens inadequadas me estarreceram. Entre outras aquilo da sensação de calor que o “estrume no peito” comunica me parece de um mau gosto detestável...Onde há poesia? No calor, no objeto, na ação, no contundente contraste entre tais elementos? Bem sei que lugares comuns declamados comovem sempre: mas essa demagogia lírica póde ser tudo, menos teatro.

Fusco (Ibidem, p. 49) analisa a questão racial introduzida na peça e critica a linguagem poética pretendida por Lúcio:

A noção de côr epidérmica (matriz da tragédia), de que toda a família do Pai é possuída, num crescendo por contágio, é falsa. Poderiam, então, no seu isolamento do mundo imaginar homens verdes, amarelos, vermelhos. O amor, que não conhece fronteiras, no caso da mulher de Manassés, Aíla, não tem mais do que um travesseiro a transpor, mas o autor lhe empresta tamanha carga trágica que o tema, os intérpretes e contempladores não a suportam. As palavras com que a trama se forma são insuficientes. Podem ser belas, podem ser poéticas (no sentido comum da expressão), podem ser,

até profundas. E talvez, o sejam, quando lidas. Declamadas não nos comunicam coisa alguma.

A nosso ver, de acordo com o debate em torno das qualidades e do caráter poético de O filho pródigo, os cronistas evidenciam a tentativa de Lúcio Cardoso de levar um texto com valor pedagógico, visto que o autor buscou num exemplo bíblico a inspiração para compor um drama em que o negro pudesse fugir dos limites da representação de negros sambistas, macumbeiros ou favelados, impostos pela literatura dramática brasileira até então, interpretando outros conflitos humanos. Segundo Carelli (1988, p. 94), “Lúcio não temeu transgredir as convenções e as normas do “bom gosto”. Não hesitou em recorrer a meios estéticos violentos, chocantes, a fim de passar sua visão apaixonada da condição humana”.

Sobre a função educadora do sermão na literatura, Lauand (1988, pp. 8-9) afirma:

na época de Agostinho, Crisóstomo, Bernardo, Tomás de Aquino e outros grandes mestres antigos e medievais “os assuntos doutrinais e teológicos continham um significado único. Não eram vistos como uma coisa acessória do cotidiano, mas como algo vívido e vivido, de profundo alcance existencial”. Por meio desse vínculo é possível compreender o impacto educacional que a homilética de então provocava. O último camponês analfabeto e o trabalhador mais rústico podiam estar destituídos de tudo. Tinham, porém, uma riqueza inalienável: a de encontrar na Igreja (e na igreja) a abertura da alma para a grandiosidade, tanto arquitetônica e plástica como a da inteligência da palavra.

Lemos O filho pródigo como “uma peça parabólica que pode ser lida como espécie de narrativa oculta, cuja alma deve ser descoberta pelo ouvinte” (Pavis, 2005, p. 276). Lúcio Cardoso para expressar a vida do negro brasileiro e aproveitá-lo dramaticamente, introduziu na história bíblica o problema racial. Seus personagens, assim como na parábola, buscam um lugar no mundo para viver sem sofrimento e infelicidade, desejam romper com a restrição da liberdade, mas uma liberdade de poder ser negro numa sociedade apoiada na mundividência histórico-cultural branca e eurocêntrica.