Os policiais escolhidos deveriam dispor de experiência de trabalho no Programa CI2 pelo fato de ser importante o acesso a esse tipo de percepção. Na reunião com o comanda da Estación San Javier, perguntaram-me qual seria o quantitativo de entrevistas que pretendia fazer, em um universo total de pouco mais de duzentos policiais. Tive de definir um número de imediato, até porque já sabia não conseguir explicar que preferiria seguir fazendo as entrevistas até que o campo se esgotasse. Esse tipo de abordagem é de difícil compreensão e assimilação para profissionais altamente pragmáticos e com um perfil de planejamento introjetado em seu modus operandi. Propus 40 (quarenta) entrevistas, e, imediatamente, o comandante adotou como definido que seria um de cada quadrante, já que a Comuna 13 contabiliza quarenta de quadrantes. Esse total não foi estabelecido com base em cálculos de amostragem ou qualquer outra fórmula estatística. Simplesmente um número apontado no calor da reunião.
Em seguida, propus fazer duas entrevistas pela manhã, que contemplaria o turno que começa às 8h, bem como mais duas com os policiais do turno da tarde, que se inicia às 15h. Optei por não realizar entrevistas no turno da noite, pois os policiais trabalham por uma escala chamada ciclo. Um ciclo equivale a um plantão em três turnos, em dias consecutivos, com intervalo de oito horas entre eles. Portanto, eles acabam adquirindo experiência de todos os turnos do dia. Da mesma forma, perguntaram-me quais dias da semana eu faria as entrevistas. Respondi-lhes que seria de segunda a sexta-feira. No fim da reunião, o comandante ordenou a seu assistente que garantisse que somente policiais “bons” fossem entrevistados, tentando evitar que eu abordasse policiais que “falam bobagens”. Esse filtro poderia enviesar os resultados, o que provocou um sinal de alerta. Durante os dias subsequentes, consegui estabelecer uma relação de proximidade com o assistente do comandante, com ele conseguindo, assim, desfazer
Solicitei um espaço para constituir um grupo de discussão, o qual poderia se viabilizar em um momento subsequente a uma aula ou reunião, podendo, desse modo, aproveitar o deslocamento realizado para esse fim. O comandante, então, marcou as datas com dois grupos, horário e local. Por fim, evidenciei o meu interesse de entrevistar alguns policiais nos três Centros de Atención Imediata (CAI) existentes na comuna, como também o de entrevistar a alguns policiais gestores. De uma maneira própria, e com a contundência de costume, o comandante autorizou essas outras entrevistas somente na segunda semana de trabalho de campo. Para finalizar a reunião, disse a seu assistente: “Da nossa parte, nada pode falhar no cronograma”; “é necessário criar um tipo de documento de confirmação de presença dos policiais nos dias e horários marcados para as entrevistas, que deve ser devolvido a mim, para que eu tenha certeza que tudo saiu como planejado”.
Fiz as seguintes entrevistas com policiais: 38 (trinta e oito) com patrulleros – sendo quatro mulheres, três subintendentes, dois grupos de discussão com policiais de diversos graus hierárquicos do grupo de subordinados, além de duas com coordenadores pedagógicos da Escuela de Formación de Patrulleras uma com um policial do setor de direitos humanos e duas com o chefe de planificación. Abaixo apresento um quadro com informações dos policiais que constituem o público-alvo da pesquisa.
Quadro 7: Perfil de patrulleros e intendentes
Grau hierár quico Sex o Ida de Tempo de trabalho na PONAL Tempo de trabalho na cidade Grau de formação
P1 Patrullera F 24 2 anos 8 meses Ensino médio P2 Patrullero M 24 1 ano 1 ano Ensino médio
P3 Patrullera F 23 2 anos 1 ano e 3 meses Ensino médio P4 Patrullero M 30 6 anos 2 anos Ensino médio P5 Patrullero M 24 3 anos 3 anos Ensino médio P6 Patrullero M 31 9 anos 5 anos Ensino médio P7 Patrullero M 22 3 anos 1 ano e 3 meses Ensino médio P8 Patrullero M 22 1 ano e 6
meses
1 ano Superior incompleto P9 Patrullero M 25 3 anos 3 anos Ensino médio P10 Patrullero M 27 7 anos 7 anos Ensino médio P11 Patrullero M 27 1 ano e 6
meses
1 ano e 3 meses
P12 Patrullero M 23 1 ano e 4 meses
1 ano e 4 meses Ensino médio
P13 Patrullero M 21 1 anos 6 meses
6 meses Ensino médio
P14 Patrullero M 22 1 ano 1 ano Ensino médio P15 Patrullero M 21 2 anos 2 anos Ensino médio P16 Patrullero M 37 13 anos 13 anos Ensino médio P17 Patrullero M 20 1 ano e 3
meses
1 ano e 3 meses Ensino médio
P18 Patrullero M 22 3 anos 1 ano Ensino médio P19 Patrullero M 22 1 ano e 5
meses
1 ano e 5 meses Ensino médio
P20 Patrullero M 24 3 anos 3 anos Ensino médio P21 Patrullero M 25 3 anos 3 anos Ensino médio
P22 Patrullero M 26 1 ano 1 ano Ensino médio P23 Patrullero M 23 2 anos 1 ano e 6 meses Ensino médio P24 Patrullero M 24 1 ano e 3
meses
1 ano e 3 meses Ensino médio
P25 Patrullero M 23 1 ano e 3 meses
10 meses Ensino médio
P26 Patrullero M 25 4 anos e 5 meses
3 anos Ensino medio
P27 Patrullero M 25 3 anos 3 anos Ensino medio P28 Patrullero M 24 1 ano e 3
meses
1 ano Ensino médio
P29 Patrullero M 23 2 anos 2 anos Ensino médio P30 Patrullero M 35 10 anos 2 anos Ensino médio P31 Patrullera F 27 2 anos 2 anos Ensino médio P32 Patrullero M 22 1 ano e 6
meses
1 ano e 6 meses Ensino médio
P33 Patrullera F 25 2 anos e 6 meses
1 ano Ensino médio
P34 Patrullero M 31 9 anos 1 ano Ensino médio P35 Patrullero M 24 1 ano e 3
meses
1 ano Ensino médio
P36 Patrullero M 34 6 anos 2 anos Ensino médio P37 Patrullero M 31 9 anos e 2
meses
9 anos e 2 meses
Ensino médio
P38 Patrullero F 26 6 anos 1 ano e 6 meses Ensino médio P39 Intendente 1 M 39 20 anos 2 anos Ensino médio
P40 Intendente 2 M 43 23 anos 1 anos e 6 meses
Ensino médio
PP41 Intendente 3 M 331 14 anos 1 anos e oito meses
Superior completo
Fonte: PONAL
Além dos policiais, entrevistei a coordenadora do Programa CI2, dois moradores líderes e um professor da Universidade de Antioquia. Fiz outras entrevistas sem gravação com moradores, além de observar o trabalho policial nas ruas por onde circulava.
O ineditismo da pesquisa na polícia colombiana foi positivo porque provocou interesse por parte do comando nos resultados, principalmente pela Escuela de Posgrados. Com os patrulleros, o interesse foi também pela realidade brasileira, especificamente a carioca. Iam interessando-se ainda pelas perguntas na medida em que a entrevista avançava. No início, os entrevistados chegavam desconfiados, o que não deixa de ser um habitus40 desses profissionais, mas com o avanço da entrevista a desconfiança se diluía e eles se sentiam mais à vontade para falar.