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Chapter 1 Introduction

1.1 The Grand Challenge

A razão humana opera de forma análoga a uma razão divina – a razão humana deve seguir, mesmo com suas limitações, um intelecto arquetípico49 que funciona com perfeição.

Kant já havia falado das ideias como um “ponto de vista” do qual se pode e deve observar:

onde se vê a natureza como uma unidade sistemática, ordenável, teleológica, etc. A ideia

teológica representa tanto “a perfeição suprema e absolutamente necessária de um ser

primeiro” quanto “a maior unidade sistemática (...) e mesmo o fundamento da possibilidade

do máximo uso da razão humana” (KrV, A694/B722, p. 565). Essa unidade implica uma

relação da própria com a natureza da razão humana, a ideia de um Deus organizador das

coisas e fiador da ordem é para nossa razão, “legisladora”; legisla como se estivesse em

consonância com uma razão legisladora suprema correspondente (um intellectus archetypus)

49 Da mesma maneira que não causa surpresa que a doutrina do método (Cf. nota 29) venha após o Apêndice,

igualmente não surpreende que também após o mesmo seja apresentada uma “arquitetônica da razão pura”

“e da qual possa ser derivada toda a unidade sistemática da natureza como do objeto da nossa razão” (KrV, A695/B723, p. 565), ou ainda “como se os próprios objetos proviessem desse protótipo de toda a razão” (KrV, A673/B701, p. 552, grifo nosso).

Esse intelecto arquetípico serve como norte para o funcionamento adequado da razão humana; não que ele seja realizável, mas serve de guia ou de “ponto de vista” para a tarefa. Todo esse esforço é válido e necessário pois contradição alguma pode pairar sobre o funcionamento da razão, nem mesmo os limites próprios do nosso conhecimento podem ser invocados como elemento atenuante para as eventuais respostas às questões que legitimamente defrontam a razão e que precisam necessariamente ser oferecidas50.

Kant então sumariza essas questões e as responde. Há algo distinto do mundo, fora do

mundo, que seja “o fundamento da ordem do mundo e do seu encadeamento segundo leis universais” (KrV, A696/B724, p. 566)? A resposta é “sem dúvida”. Na esteira e em resumo

daquilo que fora afirmado até aqui, Kant assevera sem titubeio que apenas com o recurso da admissão de uma inteligência arquiteta e criadora é possível balizar a ordem e a legiformidade do mundo. Conforme afirma o filósofo, o mundo é um somatório de fenômenos e ou esses fenômenos são meras aparições sem qualquer fundamento evidente garantido (e, portanto, formando um caos desconexo disteleológico e ininteligível) ou elas possuem “um fundamento transcendental, isto é, um fundamento simplesmente pensável pelo entendimento puro”. Para a pergunta se esse fundamento tem realidade objetiva demonstrável, perfeita, necessária, etc.,

não há resposta possível porque a pergunta não goza de “significação alguma”, isso porque as

categorias devem ser aplicadas a objetos e não há qualquer objeto para a ideia da inteligência responsável pela ordem do universo. Acerca da pergunta se podemos pensar esse ser em analogia com objetos da experiência, a resposta de Kant também é positiva. Desde que, destacando não pela primeira vez a fórmula adequada para isso: concebido a nós na ideia e

não na realidade, isto é “unicamente na medida em que é um substrato, para nós

desconhecido, da unidade sistemática, da ordem e da finalidade da constituição do mundo, da qual a razão deve fazer princípio regulador para a sua investigação da natureza” (KrV, A697/B725, p. 566, grifos nossos). Caso não se pense nesse ser como efetivamente algo que existe fora do espaço e do tempo, mas como princípio regulador, esquema da unidade sistemática da natureza que agiria como “uma inteligência suprema que seja causa do mundo segundo desígnios de sabedoria” (KrV, A697/B725, p. 567), não há problema algum na sua concepção, mesmo que incorrendo “certos antropomorfismos” como considera-lo “arquiteto”,

“inteligência criativa”, “sábio”, etc.

É possível afirmar também que esse autor do mundo é “único, sábio e onipotente”? Não apenas é, como afirma o próprio, Kant, como se deve fazer isso – mais uma vez mostrando que o que está em disputa no Apêndice não são questões meramente exegéticas, mas sim tópicos importantes para o desígnio final da Crítica da Razão Pura. Para o propósito

de estudo da natureza, “em relação à ordem sistemática e final da fábrica do mundo” (KrV,

A698/B726, p. 567), esse ser é imprescindível, ainda que o pensemos por analogia exclusivamente e chamando-o de “inteligência”, isto é, se servindo de um conceito empírico para classificar esse princípio da razão ao qual nenhum conceito pode ser efetivamente

aplicado, isso porque “dotamo-lo precisamente daquelas qualidades que, conforme as

condições da nossa razão, podem conter o fundamento de uma tal unidade sistemática” (KrV, A698/B726, p. 567). Dota-se este fundamento das qualidades de um intelecto racional como o nosso, contudo se tratando de um intelecto arquetípico, como se portasse todas as características de um intelecto racional, só que em condições perfeitas, sem esse

“antropomorfismo mais sutil” (KrV, A700/B728, p. 568) nada se poderia pensar sobre esse

Mais uma vez, com o propósito de melhor orientar a investigação da natureza, “a lei

reguladora da unidade sistemática quer que estudemos a natureza como se por toda parte, até ao infinito, se encontrasse uma unidade sistemática e finalista na maior variedade possível” (KrV, A 700/B728, p. 569, grifo do autor); tal orientação é oriunda da própria legislação da razão, o que reforça o fato de que muitos dos tradicionais problemas da filosofia se davam graças a um uso ilegal51 da razão. Kant assevera que o campo próprio da razão é a natureza e prefere a linguagem contida dos filósofos que preferiram falar em termos de “providência da

natureza” em vez de “sabedoria divina” (KrV, A701/B729, p. 569), reforçando o caráter

contido das afirmações do filósofo de Königsberg sobre o tema.