3. Material and Methods
3.3 Sediment Cores
3.3.7 Grain Size Analysis
Além da associação a Wittgenstein e Mills, o pensamento de Garfinkel é freqüentemente visto como uma reação à teoria da ação social, de Talcott Parsons (1937). Contudo, é novamente Rawls (2002: 2) que argumenta que “[a] posição [de Garfinkel] já havia sido concebida, pelo menos em linhas gerais, antes da sua ida para Harvard para trabalhar com Parsons.” De todo modo, podemos ler Garfinkel como pertinentemente contraposto à teoria parsoniana da motivação da ação, que havia dominado a cena de Harvard nas duas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.
A teoria da ação social de Parsons (1937) lançou mão de uma metafísica voluntarista, segundo a qual os sujeitos ordinários depreendem preciosos esforços subjetivos para alcançar seus objetivos, normativamente valorizados e freqüentemente de ordem não-material. Os atores sociais dispõem de um vasto leque de finalidades das ações sociais que funcionam como um mecanismo para escapar do ‘problema da ordem hobbesiano’. Interessado em dar conta desse processo, Parsons enfrentou a questão da motivação. Em outras palavras, considerando o ‘caos no estado da nature- za’, Parsons indagou: como os esforços ativos dos atores sociais se conciliam entre si para manter as relações sociais, sem recorrer à força e ao engano?
A solução de Parsons, de inspiração durkheimiana, repousou sobre a idéia de que os valores morais interiorizados na socialização podem exercer uma forte influ- ência, tanto sobre as finalidades da ação, quanto sobre os meios pelos quais essas finalidades são perseguidas. Para Parsons, embora esses valores sejam institucionalizados sob a forma de um sistema de valor fundamental, a coesão social emerge no partilhamento de objetivos e expectativas, sob a forma de modelos de atividade coordenada.
Como Garfinkel avaliou, Parsons baseou o seu realismo analítico em um quadro epistemológico neokantiano, segundo o qual adquirimos um saber válido do mundo exterior, aplicando os cânones lógico-empíricos da investigação científica, atra- vés de um processo de aproximação sucessiva. Essa teoria implica que uma ação social bem sucedida apóia-se sobre um saber correto. Diante da persistência de sabe- res inapropriados e de ações não-racionais, em um mundo social no qual, por hipóte- se, os atores seriam melhor sucedidos se adotassem um ponto de vista mais científi- co, a teoria voluntarista propõe uma explicação das ações não-racionais em termos de disposições normativas.
Nessa conceptualização neokantiana do saber, a racionalidade científica é considerada como o padrão fundamental em função do qual o saber e os julgamentos dos atores devem ser avaliados. Assim, é possível ignorar o que seriam as caracterís- ticas intrínsecas dos julgamentos não-racionais dos atores, para tentar explicar de
modo causal o fato de que, apesar de suas deficiências, os atores não param de atuar em termos de ações não-racionais. Com efeito, Parsons parte do critério de que a racionalidade do ator é avaliada em termos de uma compatibilidade com o saber cien- tífico: se a ação do ator é compatível com esse saber, ela será julgada intrinsecamente racional; se a explicação dada pelo ator concorda com uma explicação científica, ela deverá ser vista como cientificamente apropriada.
Diante do fato de que as explicações dos atores geralmente não coincidem com explicações científicas, Parsons propõe, então, uma explicação científica das ações sociais em termos de motivação pelas normas e valores interiorizados. Cria-se, assim, um abismo entre as ações racionais dotadas de suas razões próprias, compatíveis com o saber científico, e as ações não-racionais. Nessas ações, o raciocínio dos ato- res é desconsiderado em favor de explicações do comportamento baseadas em cau- salidades normativas. Parsons explica a causa desse abismo, argumentando que os valores morais não podem constituir uma profilaxia eficaz contra o caos hobbesiano e que os membros de uma ordem social não são capazes de se orientarem instrumen- talmente pelos elementos normativos que eles interiorizaram.
O efeito cumulativo das estipulações de Parsons marginalizam a compe- tência dos atores sociais, transformando-os, no dizer de Garfinkel (1967a: 68), em “brutos destituídos de julgamento”, cuja compreensão e raciocínio diante de situações sociais escapam a uma abordagem analítica da ação social.
O trabalho de Garfinkel – não-positivista, mas, assim como o de Parsons, inspirado em Durkheim – instaura uma outra concepção para a competência dos ato- res. Voltado para as características contextuais da compreensão ordinária, Garfinkel reorientou aspectos fundamentais da teoria sociológica, avaliando o modo complexo e circunstanciado como os contextos dos eventos fornecem os recursos necessários à sua interpretação. Com isso ele focou o seu olhar nos procedimentos inteligentes atra- vés dos quais, conscientemente ou não, os atores sociais reconhecem, produzem e reproduzem ações e estruturas sociais.
No dizer de Garfinkel, aquilo que os participantes das ações sociais fazem para produzir e gerenciar a organização de seus afazeres cotidianos coincide com os procedimentos que eles utilizam para tornar essa organização observável. Deste modo, se olharmos para os modos de funcionamento das atividades sociais, veremos como as pessoas atribuem legitimidade às realidades sociais observáveis e explicáveis nas quais elas estão implicadas.
Na Etnometodologia, a competência dos atores recebe um novo valor dian- te da exploração dos modos como os atores sociais analisam a situação nas quais se encontram e como partilham a compreensão intersubjetiva que constroem local e situadamente. A observação das circunstâncias dos atores sociais é vista então como uma chave para a compreensão da sua ação no mundo.
Sem reduzir toda inteligibilidade e todo saber válido aos cânones próprios da comunidade científica, Garfinkel observou que objetos de saber são formulados e reformulados de um modo que é inteligível para os participantes das ações sociais, podendo tornar-se disponível também para um analista desses procedimentos. Ao mesmo tempo em que concebe a ação social ordinária como investida de inteligibilidade e de saber, ele sinaliza as tarefas do seu programa de investigação como também a dimensão que a observação empírica tem ali.
Essa concepção da ação ordinária enquanto uma ação inteligente pode ser caracterizada como uma tomada de posição epistemológica, sociológica e política compatível com o modo como o mecanismo gerativo da Biologia do Conhecer atribui legitimidade aos diversos domínios das ações humanas e trata a validade de um domí- nio de ação em termos de uma conduta adequada, associada à atuação do(s) obervador(es) na constituição dos mundos de objetos consensuais, dependentes dos seres que conhecem e nele vivem.