A teoria dos custos de transação permite avaliar e analisar redes e comparar com a teoria de sistemas. É importante salientar que essa teoria dos custos de transação refere-se também a uma forma atualizada de controle de custos como em qualquer sociedade. Para Coase (1937) o custo de transação refere-se a ‘custos de utilidades dos mercados’, considerando-se que a empresa visa suprimir o mecanismo de preços, uma vez que
Os custos elevados de transação evidenciam as “deficiências” da coordenação externa, de modo que a internalização das atividades no interior da empresa constitui uma resposta, visando assegurar uma maior eficiência alocativa. Nesse sentido, a organização nasce das “imperfeições do mercado. (MAZZALI e COSTA, 1997, p. 126)
Seguindo a intenção de vislumbrar outras facetas que elucidem ou apontem caminhos para a teoria organizacional, Williamson (1985) voltou seu olhar para a economia dos custos de transação e analisa a natureza da fricção entre as empresas econômicas no contexto do mercado, focalizando os contratos entre elas. Não esquecendo, conforme Perrow (1991), da existência de custos de transação no interior das empresas. Portanto, o diferencial apresentado pela teoria dos custos de transação está, segundo Perrow (1991, p.300), nas seguintes características:
a) microanalítica;
b) autoconsciência dos comportamentos assumidos; c) análise comparativa;
d) importância da especificidade;
e) a firma com estrutura de governance e não como função da produção; f) análise dos fatos ex ante e ex post dos contratos de forma interdependente.
Só a existência da “estrutura de governance” representa uma contribuição por demonstrar um caráter flexível ao tornar os processos adaptáveis. A teoria dos custos de transação traz um novo ímpeto ao contexto das organizações por ensejar o surgimento de arranjos organizacionais com abertura para a participação e colaboração, embora tais variáveis adquiram, ao ser apropriadas pelo capital, um tom de panacéia. Williamson (1996) chama a atenção para a questão do desenvolvimento de um consenso geral em torno das seguintes questões:
a) oportunismo como um conceito central no estudo dos custos de transação; b) oportunismo como algo especifico e importante para a atividade econômica
que envolve transações específicas de investimentos em pessoas e capital físico;
c) a importância do eficiente processamento da informação;
d) o exame dos custos de transação como uma tarefa institucional comparativa
Williamson (1975, 1985) estabeleceu os fundamentos para a teoria dos problemas contratuais e formas alternativas na gestão das transações, avançando sobre as perspectivas de empresa-mercado de Coase, que analisou comparativamente as alternativas de gestão, a partir da capacidade de lidar com “disfunções” típicas das relações contratuais decorrentes de cada tipo de transação. Nesse ponto de vista, inserem-se nos custos de transação todos os recursos disponíveis, sujeitos ou não à mensuração: habilidades individuais, divisão do trabalho, procedimentos decisoriais, conhecimento, , etc.
O aspecto da forma como as firmas se relacionam despertou em Coase (1937) a discussão dos custos de transação envolvidos nos mercados associados mediante negociação
de bens, serviços e contratos obrigatórios. Esse debate foi ampliado por Williamson (1985), ao tratar mais especificamente sobre a hierarquia dos mercados. Huggins (2000) resgatou em Coase (1937) que, se os custos de conduzir uma transação nos mercados são mais altos que o custo da mesma transação conduzida entre firmas, então, as firmas internalizarão a transação para reduzir os custos. Assim sendo, as firmas emergirão e crescerão precisamente quando elas são mais eficientes que o mercado, porém a organização dos mercados conduziu inevitavelmente ao contexto protegido das redes no qual as incertezas e instabilidades “podem” ser controladas.
Williamson trabalha com visão dicotômica acerca dos mercados e hierarquias (firmas) e ambos com decisões baseadas na minimização dos custos de transação e promoção da eficiência, pelo foco nos custos de projeto, monitoramento e condução econômica das transações entre firmas. Assim sendo, o bloco teórico de Williamson (1975, 1985) consiste de:
a) ‘racionalidade limitada’ – uma forma fraca de racionalidade com as quais os atores são percebidos como buscando tomar decisões mais racionais, mas com a habilidade para fazê-lo sob condições limites nas suas capacidades de receber, processar, estocar e recuperar informação;
b) ‘oportunismo’ – habilidade para agir desonesta ou sinuosamente;
c) ‘vantagens específicas’ – ou os investimentos específicos requeridos para relacionamentos peculiares.
Segundo Huggins (2000), os custos econômicos de transação presumem que, sob certas condições, altas vantagens específicas, as transações de mercado se tornam objeto de altos níveis de oportunismo e racionalidade limitada, fazendo-os mais custosos para o governo, e que é papel da firma regular esse custos.
Em trabalhos posteriores, Williamson (1985, 1991) reviu sua opinião sobre os custos de transação, revisando principalmente sua visão dicotômica para contemporizar a diversidade de arranjos contratuais entre os pólos do mercado e hierarquia, sobretudo no contexto interfirma, no qual os custos de transação são minimizados em função da interdependência, mas não necessariamente no mérito de fusões em larga escala. Nessa última abordagem, Williamson apresentou quatro formas alternativas de governance econômica:
a) mercados clássicos;
b) governance trilateral envolvendo uma terceira parte para mediação; c) governance bilateral no contexto da relação contratual;
d) hierarquia das organizações.
Huggins(2000) alerta que, apesar de as governances bilateral e trilateral representarem formas de redes, Williamson desconsidera as redes como um terceiro modo distinto de
governance, e define as redes interfirmas como um suporte intermediário ou híbrido para a organização das atividades econômicas em relação aos mercados e firmas (GRANDORI e SODA, 1995).
De outro modo, DiMaggio e Powell (1991) argumentam que a abordagem dos custos de transação e o novo institucionalismo econômico como um todo têm contribuído para adicionar um grau de realismo para padronizar a teoria econômica, ao assumir que a racionalidade dos indivíduos visa a maximizar seus comportamentos sobre o estável e consiste numa demanda preferencial por fatores conhecidos como limitações cognitivas, informações incompletas, dificuldades em monitorar e reforçar contratos.
Huggins (2000) critica a teoria dos custos de transação porque, apesar da abordagem institucional da ação econômica (a teoria dos custos de transação tem sido constantemente debatida e criticada por economistas, sociólogos e pelo novo-institucionalismo) aceita o
pressuposto neoclássico de que a forma institucional mais eficiente sobreviverá, assim como seus irrealísticos pressupostos sobre as diferenças entre mercados e hierarquias. Mesmo assim, a discussão sobre os custos de transação é reiteradamente retomada nos textos sobre redes, imputando à liderança mais um atributo ao seu exercício.
Uma vez baseada na teoria neoclássica, a teoria dos custos de transação supõe o alcance de condições estáveis de equilíbrio, bem como pressupõe que os mercados são formas de equilíbrio, porém a principal crítica aos neoclássicos reside justamente no fato de acreditarem que os atores econômicos são racionais, autônomos e que buscam seus próprios interesses, independentemente das relações sociais ou características.
Seguindo a lógica do debate sobre estrutura, Williamson (1996) afirma que o esquema da informação, nos custos de transação, demanda tamanho e tecnologia, bem como uma dada estrutura de governance, no sentido de fazer funcionar as relações dessa nova economia. Perante tais constatações, passa-se a analisar o fenômeno das redes organizacionais como uma estrutura diferenciada nas relações interorganizacionais, pois a perspectiva da instabilidade e conseqüente insegurança provoca a instalação de uma relação de busca do equilíbrio em torno da parceria, e então, como escreve Powell (1995) o desenvolvimento social e econômico revisa as proposições de mercado ou hierarquia dentro deles e caminha para o contexto de redes organizacionais.
Esse arcabouço conduz a uma reflexão sobre a liderança no contexto das redes, pondo em xeque o exercício da liderança, em função da preocupação com os impactos do ambiente externo sobre as organizações, sobretudo a “ditadura” do mercado.
Desse modo, buscamos nesse capítulo construir um texto completo sobre as redes organizacionais, fizemos uma revisão de forma a apresentar um cenário o mais abrangente possível, no sentido de contextualizar historicamente a evolução dos conceitos, características, formatos, tipologias e sobretudo as ideologias que perpassam as redes socia e econômica.
Assim temos um campo devidamente demarcado para desenvolver o nosso estudo sobre a liderança, sem o receio de emitir afirmações acerca desse objeto. Tratou-se então, de uma revisão complexa de um tema amplo e em construção, para trabalhar um outro tema também complexo: a liderança.