A peça também aborda, alegoricamente, muitas questões concernentes ao campo social. São marcas patentes na peça, ilustrando as intenções dos teatrólogos em envolver temas marginais na estrutura dramática, ou então protestando contra a hipocrisia humana.
Uma delas ocorre logo na primeira lauda do texto dramático, quando o personagem Frei, acompanhado pelos moradores, todos ainda fora de cena, recitam uma ladainha em latim, fazendo referência aos sacrifícios de Jesus Cristo – o cordeiro de Deus – pelos pecados do mundo, enquanto os moradores pedem piedade em latim: “Miserere nobis”. Mais a frente, o religioso lamentase, lembrando de que: Entrou nesta terra o pecado, foram os moradores dela esquecendose de Deus e deram entrada aos vícios e sucedeulhes o mesmo que aos que viveram no tempo de Noé, que os afogaram as águas do universal dilúvio, e como a Sodoma e Gomorra, que foram abrasadas com fogo dos céus. (p. 6) Esta declaração, apoiada em conhecimentos bíblicos, é realizada enquanto ao fundo, segundo a marcação de cena, “um banquete com vinhos, manjares de Holanda e Anna de Amsterdam sobre a mesa sem toalha, o banquete constituise uma orgia muda” (p. 6). É um primeiro sinal da abordagem do tema na peça, principalmente representada pela meretriz Anna de Amsterdam. A mesma, algumas linhas depois, confessa em público, que já dormiu com protestante e católico mas não percebeu ainda qual foi o melhor.
Adiante, a personagem apresentase cantando a música “Anna de Amsterdam”. Recorro a estudiosa Menezes que se apresenta para refletir sobre a contemporaneidade da canção. Em sua obra, “Figuras do Feminismo na canção de Chico Buarque”, ela dispõe esta música no capítulo intitulado: “ruptura com o discurso habitual sobre a mulher”. Analisando a letra de Anna de Amsterdam, esta em coautoria com Ruy Guerra, Menezes apoiada na obra “Eros e Civilização” de Marcuse, escreve que “a moralidade castradora interditou de tal maneira o uso do corpo como instrumento de prazer, que esse uso se manteve ‘como infeliz privilégio de prostitutas, degenerados e pervertidos”. 299 Assim, constato que a personagem da meretriz neerlandesa representa a
transgressão de valores, mas principalmente a fraqueza inerente ao ser humano, algo oportuno de ser tratado em pleno Regime de Exceção.
Seguindo este mesmo pensamento, merece atenção o fato de a aparição de Anna, ou seja, o mundano, em situações formalistas e sacros, como na presença do frei Manoel Calado e seus devotos, nos preparativos para a execução de Calabar, cantando a música “Anna de Amsterdam”, e por fim após o esquartejamento do sentenciado (Talvez um sinal de como no tempo dos teatrólogos, mas do que nunca, o pecado ou então o marginal estavam presentes em todos os ambientes). Nesta última, Anna encontrase com Bárbara. Depois de um breve diálogo, elas entoam o verso “Vamos ceder, enfim, à tentação, das nossas bocas cruas, e mergulhar no poço escuro de nós duas...”,(p. 47.) insinuando uma relação homofóbica entre ambas. No campo da sexualidade, nesta relação inserida na estrutura dramática pelos dramaturgos, percebo importante vinculação dos criadores com os reflexos do movimento feministas, que naquele tempo – estamos nos referindo aos primeiros anos da década de 1970 – as mulheres que outrora haviam lutado por direitos civis, buscavam revelar estratégias capazes de oferecer as mulheres uma liberação integral, que implicasse o corpo e o desejo. É o próprio Buarque que explica este momento:
Nos anos 70 a mulher deu um salto incrível em direção a sua própria liberdade. Quando a Nara me pediu uma canção em 66, era da mulher submissa, não é à toa. Mais tarde a mulher começou a sair e vieram os movimentos feministas etc. Mas eu acho que essas canções são mais conseqüência do meu trabalho pra teatro, onde por algum motivo as mulheres sempre foram muito fortes. Desde a Joana que a Bibi Ferreira fazia no Gota d´água, até as personagens de Calabar. Calabar é a história de Calabar contada, na verdade, pela sua mulher, sua 299 MENEZES, A. B. Figuras do feminino na canção de Chico Buarque. 2. ed. Cotia: Ateliê Editorial,
viúva, que é a grande personagem da peça. Na Ópera do malandro a Teresinha é a personagem que dá a volta na história. As mulheres são muito fortes nesse meu trabalho pra teatro. E eu compus para essas personagens femininas. Então era natural que as canções refletissem essa força da mulher, da mulher independente. 300
A longa citação vale como indicação da postura de Buarque sobre a questão feminista. A mesma de Guerra, basta recordar seu envolvimento em 1970 com a corajosa atriz Leila Diniz, que assim como Anna de Amsterdam, igualmente fora transgressora de tabus e conceitos através de suas atitudes. Corrobora para este pensamento a polêmica entrevista que ela deu ao periódico Pasquim: “Na minha caminha, dorme algumas noites, mais nada. Nada de estabilidade”. 301 Isto foi verdadeiramente, uma afronta a sociedade patriarcal e autoritária dos anos de 1970.
Como essas jovens sabiam mais o que não queriam do que o que queriam, o seu projeto existencial acabou rejeitando e pretendendo, mais do que afirmando. Com um discurso muitas vezes ambíguo e uma ação quase sempre contraditória, buscavam a felicidade como se buscava tudo naquele momento: pela mágica da revolução. As mutações desses tempos de ruptura deveriam passar pela destruição do que viera antes – fossem tabus, resistências, preconceitos, mas também os legados da emoção. Agiam como se à vontade correspondesse sempre o desejo. 302
Além destas questões também não se poderia olvidar o movimento de contracultura que surgiu nos EUA, na década de 1960, que contrariava a sociedade de consumo pregando o retorno às sociedades comunitárias, o pacifismo e a liberdade sexual. Estes elementos contemporâneos parecem estar muito bem representados na ousada cena de lesbianismo entre Bárbara e Anna de Amsterdam, construído por Buarque e Guerra, na conhecida canção “Bárbara”. ANNA (cantando) – Bárbara, Bárbara, Nunca é tarde, Nunca é demais. Onde estou, Onde estás? Meu amor Vou te buscar [...]
300 BUARQUE, C.. Rádio Eldorado. 27 set de 1989. (entrevista) Chico Buarque. Disponível em: <
www.chicobuarque.uol.com.br/texto/index.html>. Acesso em: 15 Jul. 2007.
301 VARGENS, 1999 apud GASPARI, E. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Cia. das Letras, 2002, p.
220.
BÁRBARA (cantando) – O meu destino é caminhar assim Desesperada e nua Sabendo que no fim da noite. Serei tua. [...] ANNA (cantando) – Deixa eu te proteger do mal Dos medos e da chuva] Acumulando de prazeres Teu leito de viúva. ANNA E BÁRBARA (cantando) – Bárbara Bárbara, Nunca é tarde, Nunca é demais Onde estou? Onde estás? Meu amor Vem me buscar ANNA (cantando) – Vamos ceder, enfim, à tentação Das nossas bocas cruas E mergulhar no poço escuro De nós duas BÁRBARA (cantando) – E vou viver agonizando Uma paixão vadia Maravilhosa e transbordante Feito uma hemorragia ANNA E BÁRBARA (cantando) – Bárbara, Bárbara, Nunca é tarde, Nunca é demais. Onde estou? Onde estás? Meu amor Vem me buscar. Bárbara... (p. 4647) Após a canção, Bárbara declara sua repulsa pela falsidade. Em seguida, Nassau e seu cortejo entram em cena. Anna canta o frevo “Não existe pecado ao Sul do Equador”, continuando a estética sensualista no texto dramático. Não existe pecado do lado de baixo do Equador Vamos fazer um pecado, sábado, debaixo do meu cobertor. Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor. Quando é lição de esculacho, olhaí, sai debaixo, que eu sou professor. Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar. Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá. Vê se me usa, me abusa, lambusa, Que a tua cafusa
Não pode esperar. Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Vamos fazer um pecado, safado, debaixo do meu cobertor. Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, um riacho de amor. Quando é missão de esculacho, olhai, sai debaixo, eu sou embaixador. (p. 50)
Ainda temse outro momento curioso dentro da relação passado/presente vinculado a temática da sexualidade, digno de nota. Aplicase ao trecho da peça que descreve o convite histórico do Conde João Maurício de Nassau ao religioso Frei Manoel do Salvador para residir em sua companhia. Contudo, o sacerdote, responde:
Que pessoa maravilhosa!O sangue real de onde procede o inclina ao bem. (para Nassau) Perdão. Mas o Príncipe sabe que eu sou um homem enfermo de corpo e algumas vezes me será necessário estar despido e outras gemer e chorar e não quero que me entrem por a porta, sem bater, seus criados e familiares e me vejam descomposto no traje, o que me seria mui penso. (p. 55.)
Na seqüência, depois da interjeição “Oh” exprimida por Nassau demonstrando admiração, o padre, lascivamente, completa: “Convém que eu viva fora de sua casa, onde todos notem meu modo de proceder e sejam todos fiscais de minha vida e costumes, porque ainda que eu ande a comer meninos...”. (p. 55) A conduta devassa ainda será referida algumas páginas depois, quando o personagem médico manifesta que descobriu a cura para a gonorréia: mastigar gomos de canadeaçúcar. Todos avidamente aderem ao novo elixir, com exceção do Frei, que segundo a rubrica, “discreta e maliciosamente recusa”. (p. 73.)
As críticas talvez fossem mais ajustadas para os dias atuais, quando brotam dos periódicos, casos de abusos sexuais, cometidos por clérigos. Ou então a pederastia, que contraditoriamente é condenada pela Igreja Católica Romana.
Assim, comprometido com a relação passado/presente, sempre associo este momento do texto dramático com a hipocrisia de alguns setores da sociedade na qual os criadores teatrais estavam inseridos, aqui, no caso, alguns membros da Igreja, representados simbolicamente pelo Frei. Alguns deles, dissimuladamente, empunharam suas bandeiras moralistas na “Marcha da família com Deus pela liberdade” 303 em 1964,
fechando os olhos para a injustiça social predominante, ou então pregando “amai o
303 Conforme Gaspari esclarece em sua obraA ditadura escancarada: “Na grande divisão ocorrida no país
em março de 1964, a maior parte da hierarquia da Igreja pendera para o levante. Deralhe a base popular da Marcha da Família”. (GASPARI, E. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das letras, 2002, p. 237).
próximo como a ti mesmo” nos templos, enquanto nos porões, as vítimas da Repressão Militar pediam por clemência.
Reitero: alguns membros da Igreja, pois é de conhecimento público a admiração de Chico Buarque pelo clérigo D. Helder Câmara, como atesta seu depoimento a um periódico nordestino, explicando que o considera por tratarse de um eclesiástico que vive no meio do povo: “ele não vive ostentando medalhões, pregando o que não faz, vive lutando por aquilo que acha certo”. 304
A resposta do compositor na ocasião em que estava “vivendo para Calabar” 305
indica as motivações para a construção do personagem Frei Manoel do Salvador, a antítese de Câmara, que, neste período, discursou em Paris: “Quero pedirlhes que digam ao mundo todo que no Brasil se tortura. Peçolhes porque amo profundamente a minha pátria e a tortura a desonra”. 306
Contudo, acredito que a crítica de Buarque e Guerra não se dirigia apenas a hipocrisia religiosa. Eles queriam abordar toda a falsa moralidade que acometia todo o Brasil de modo geral, e porque não, também difundida entre a própria guerrilha brasileira, “mesmo as organizações mais revolucionárias, aquelas que queriam mudar radicalmente a sociedade, surpreendiam pela rigidez calvinista do seu código moral” 307 ,
aqui representada pela desaprovação a relação amorosa entre os militantes Carlos Lamarca e Iara Iavelberg:
Mais tarde enfrentariam ainda outro problema: a moral da Organização: Quando se apaixonaram muita gente chiou. A repressão logo saberia e, além de ‘traidor’ do Exército, Lamarca passaria a ter ‘amantes’. Isso poderia não ser bom para a imagem de um dos principais nomes da esquerda brasileira. 308
Do que dizer então, dos membros do Partido Comunista, o Partidão: “as mudanças de comportamento não eram recebidas como sinais de avanço, mas de
304 BUARQUE, C. Jornal Balaio, 1972 (entrevista) Chico Buarque. Disponível em: <
www.chicobuarque.uol.com.br/texto/index.html>. Acesso em: 15 Jul. 2007
305 CHICO, falando de Calabar. Jornal da Tarde, São Paulo, 25 set. 1973.
306 CÂMARA, 1970 GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das letras, 2002,
p. 245. O pesquisador ainda revela que D. Hélder Câmara “desde os anos 50 confundiase com uma Igreja de alcance popular cujos contornos pioneiros demarcara. Erguera no Leblon um conjunto habitacional para favelados. Organizara a grãfinagem do Rio de Janeiro em torno da Feira da Providência, na qual as madames se punham a vender quitutes e as embaixadas a repassar bebidas importadas pela metade do preço [...] Patrocinou congressos de favelados, montou uma central de abastecimento de gêneros alimentícios e fundou um banco destinado a atender os pobres”.(Ibid., p. 245.)
307 VENTURA, Z. 1968: O ano que não terminou. 21. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 38. 308 JOSÉ, E.; MIRANDA, O. Lamarca, o capitão da guerrilha. 7. ed. São Paulo: Global, 1981, p. 58.
retrocesso. Eram sintomas de decadência da burguesia. A idéia de proletariado estava associada à idéia de pureza moral”. 309