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Maria Odila Leite da Silva Dias (1995) em “Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX”, faz um relato aprofundado do processo de urbanização da cidade de São Paulo e o mercado de trabalho para as mulheres na época. Conforme verificou a autora, a cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do século XIX, contava com um número elevado de mulheres livres, que concorriam com escravos de ganho e escravos domésticos no mercado de trabalho urbano.

A urbanização verificada na época, segundo Dias (1995, p. 15) não possibilitou, de imediato, a ascensão social de uma burguesia europeizada, dado ao estado de pobreza da Província, verificada nas primeiras décadas do século XIX.

Uma tensão constante entre trabalhadores livres e senhores de escravos permeou o cotidiano da cidade de São Paulo nesse período. Na década de 1840, a economia gerada pela produção de açúcar e o grande crescimento econômico gerado pelo café, este ainda se alargando pela região do Vale do Paraíba, permitiu que um novo processo urbanístico fosse implantado na Capital.

Nas décadas seguintes, além da expansão cafeeira pelo oeste paulista, a população da Província cresceu vertiginosamente, bem como as atividades comerciais e industriais. A partir da década de 1870, um grande contingente de imigrantes europeus, sobretudo de italianos, chegou à Província de São Paulo para trabalhar nas fazendas de café, cuja viagem foi financiada por fazendeiros de café. Juntamente com este contingente de pessoas, a economia cafeeira também estimulou a vinda de inúmeros investidores e aventureiros, que vão potencializar e diversificar a economia paulista.

Com uma economia urbana mais diversificada, várias profissões passaram a ser necessárias para dar conta das atividades produtivas industriais e comerciais que vão se consolidando na época na Província.

Em 1878, Joaquim Floriano de Godoy publicou um interessante trabalho, denominado “A Província de São Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”10, do

qual contou com uma tentativa de organizar o mercado de trabalho conforme o contexto burguês.

       

10 Este trabalho é uma continuidade do levantamento estatístico da Província de São Paulo que teve início

Quadro 5: Profissões Liberais Seculares Religiosos Regulares Juízes Advogados Notários e Escrivões Procuradores Juristas Officiaes de Justiça Médicos Cirurgiões Pharmaceuticos Parteiros

Professores e homens de Letras Empregados Públicos

Artistas

Fonte: Joaquim Floriano de Godoy. A Província de São Paulo, 1878.

Como podemos verificar, as profissões liberais aqui apontadas estavam ligadas ao setor eclesiástico, judiciários, de saúde, de instrução, administrativo e até artístico.

Assim, as profissões ligadas à Igreja, que na época desempenha papel administrativo em conjunto com o Império, estavam no rol das profissões liberais, ou seja, os padres seculares e os regulares. Chamavam-se de seculares os padres, párocos, bispos, etc., ou seja, aqueles que desempenhavam papel mais direto com o povo. Já os regulares eram monges, abades e todos aqueles que levam vida reclusa, nos mosteiros, conventos, seminários, etc..

Também se consideravam liberais os profissionais ligados ao setor jurídico, como advogados e funcionários de cartórios. No setor da saúde, médicos, cirurgiões e parteiros. Nesta lista também estavam os funcionários públicos.

Por fim, os artistas, profissionais que também poderiam atuar juntamente com o setor de edificações, seja de prédios públicos e igrejas, também eram considerados profissionais liberais.

As profissões manuais e mecânicas foram assim classificadas:

Quadro 6: Profissões manuais ou mecânicas Canteiros, calceteiros, mineiros e cavouqueiros

Em metais Em madeiras Em tecido De edificações Em couros e pelles Em tinturaria De Vestuários De chapéus Operário s De Calçadas Costureiras

Fonte: Joaquim Floriano de Godoy. A Província de São Paulo, 1878.

Das profissões manuais e mecânicas, apenas a de costureira não compreendia as profissões chamadas “operárias”, mas faziam parte do rol das profissões braçais. Todos aqueles que desempenham funções nas áreas de mineralogia, metais, madeiras, tecidos, construções, couros e peles, tinturaria, roupas, chapéus e calçados eram considerados como operários.

Para diferenciar as atividades profissionais desempenhadas na terra, havia também as profissões agrícolas, assim classificadas:

Quadro 7: Profissões agrícolas Lavradores Profissões Agrícolas

Criadores

Fonte: Joaquim Floriano de Godoy. A Província de São Paulo, 1878.

Atividade de maior concentração de trabalhadores na época, apenas duas categorias compunham essa área: lavradores e criadores.

Nesta categoria, o curioso é que muito dos trabalhadores eram escravos. Poderia um escravo, considerado mercadoria, exercer uma profissão?

Quadro 8: Profissões industriaes e commerciais Manufactureiros e fabricantes Profissões Industriaes e Commerciais

Commerciantes, guarda-livros e caixeiros

Fonte: Joaquim Floriano de Godoy. A Província de São Paulo, 1878.

As profissões exercidas pelos proprietários de negócios e os que trabalhavam no controle financeiro ou vendas se restringiam a apenas duas profissões: as “industriaes” e as “commerciaes”.

Os guarda-livros são o que chamamos hoje de contadores, responsáveis pelo controle e produção de balanços gerais da produção, tanto em relação a compras, vendas e lucros.

Os caixeiros são os vendedores, responsáveis por abastecer os mercados consumidores, fazendo o papel de intermediador entre o produtor e o comprador.

Todas essas profissões aqui apresentadas, representam uma tentativa de classificação das profissões na Província de São Paulo, não podendo, portanto, serem consideradas numa mesma perspectiva para todo o Brasil.