Nesta etapa, a partir de informações repassadas pela gerência do Espro em Belo Horizonte (MG), calculou-se amostra com base em um universo de 1.114 jovens trabalhadores participantes do Programa de Formação Profissional e do Programa Jovem Aprendiz, considerando-se 95% de confiabilidade e 5% de margem de erro, o que resultou em uma amostra (mínima) de 285 respondentes. O retorno obtido foi de 547 questionários, sendo 543 destes utilizados por estarem devidamente preenchidos, significando um retorno acima do limite mínimo da amostra Trata-se de uma amostra não-probalística, isto é, os critérios de escolha da unidade do Espro e dos jovens abordados foram pautados na acessibilidade mediante o consentimento da gerência da unidade do Espro em Belo Horizonte (MG) no que tange ao acesso aos jovens e a sua disponibilidade em participarem do estudo. As coletas foram feitas pessoalmente, dentro das instalações da instituição. Antes de cada aplicação, foi esclarecido aos jovens que não se tratava de um instrumento de avaliação do Espro, mas de uma pesquisa mais ampla conduzida na Universidade Federal de Minas Gerais e que suas respostas seriam tratadas de maneira sigilosa.
Para a coleta dos dados, foram utilizados os questionários sobre comprometimento organizacional desenvolvidos por Siqueira em 1995 e 2000, disponibilizados por Bastos et al. (2008). Estes são versões nacionais para as três bases do comprometimento, tal como conceitualizados por Meyer e Allen (1991). São eles: escala de comprometimento organizacional afetivo (ECOA), escala de comprometimento organizacional normativo (ECON) e escala de comprometimento organizacional calculativo (ECOC), conforme Anexo A. Os questionários são compostos por afirmativas em escala Likert, de cinco pontos.
A escala de comprometimento organizacional afetivo (ECOA) é uma medida que permite avaliar a intensidade com que um empregado nutre sentimentos positivos e negativos em relação à organização em que está inserido. Ela permite, portanto, aferir o compromisso de base afetiva (BASTOS et al., 2008). A validação do ECOA foi realizada com base em um estudo com 192 profissionais de diversas categorias ocupacionais. A precisão da escala (alfa de Cronbach) foi de 0,95.
A escala ECOC baseia-se nas crenças de um empregado acerca de perdas ou custos associados ao término das relações de trabalho com uma organização. Tais crenças constituem o comprometimento de base calculativa ou instrumental (BASTOS et al., 2008). A ECOC foi respondida por 192 profissionais e apresentou índice geral de 0,70. Trata-se, no entanto, de uma medida multidimensional, pois esta é integrada por quatro componentes: perdas sociais no trabalho (PST), perdas de investimentos feitos na organização (PIFO), perda de retribuições organizacionais (PRO) e perdas profissionais (PP). Na análise dos dados, são avaliadas as particularidadess de cada um dos quatro componentes da ECOC, considerando-se o valor obtido e o conteúdo semântico de cada um deles. A descrição de cada um dos componentes encontra-se no Quadro 1.
Quadro 1 - Definição dos quatro componentes da ECOC
Denominação Definição
Perdas sociais no trabalho (PST)
Crenças de que perderia a estabilidade no emprego, o prestígio do cargo, o contrato de amizade com os colegas de trabalho e a liberdade de realizar o trabalho.
Perdas de investimentos feitos na organização (PIFO)
Crenças de que perderia os esforços feitos para chegar onde está na empresa, tempo dedicado e investimentos feitos na empresa.
Perdas de retribuições
organizacionais (PRO) Crença de que perderia um salário bom e benefícios oferecidos pela empresa.
Perdas profissionais (PP)
Crenças de que prejudicaria a carreira, demoraria a ser respeitado em outra empresa, perderia o prestígio de ser empregado daquela empresa, demoraria a se acostumar com novo trabalho e jogaria fora o esforço empreendido para a aprendizagem das tarefas atuais.
Fonte: Adaptado de BASTOS et al., 2008.
A escala ECON foi testada em 208 trabalhadores e obteve em sua análise de precisão o índice de 0,86 de alfa de Cronbach. Esta escala está relacionada à concepção psicológica de comprometimento organizacional normativo, a qual pressupõe que o trabalhador sente-se compelido a ter obrigações e deveres por questões morais para com a organização, devendo se comportar de forma a demonstrá-los. Para a interpretação dos resultados em cada uma das escalas, Siqueira (1995) define que deve-se considerar que quanto maior o valor do escore médio, mais forte o comprometimento com a organização dentro daquela dimensão (TAB. 4).
Tabela 04 - Interpretação dos resultados
Interpretação Escala
ECOA ECON ECOC
Elevado, forte
(acima de 3,5) Sente-se comprometido afetivamente efetivamente com a organização.
O trabalhador acredita ter obrigações e deveres morais para com a organização.
Acredita que terá perdas caso deixe a organização.
Médio, mediano
(entre 3,5 e 2,5) Indecisão quanto ao seu vínculo afetivo. Incerteza quanto a seu compromisso normativo para com a empresa
Incerteza sobre a possibilidade de ter perdas caso deixe a organização.
Baixo, frágil
(abaixo de 2,5) Frágil compromisso afetivo com a organização. Não acredita que deve manter obrigações e deveres morais para com a organização.
Não acredita que terá perda caso deixe a organização.
A análise dos questionários foi realizada por meio de métodos estatísticos, com a utilização do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS statistics 22) e do Microsoft Excel. Foram adotados métodos descritivos (medidas de posição e dispersão, assim como percentuais de respondentes por nível de avaliação das dimensões) e analítico-comparativos (testes de comparação, testes de correlação) não paramétricos, pois constatou-se, por meio de teste de normalidade (Kolmogorov-Smirnov), que as dimensões do comprometimento apuradas seguem uma distribuição que foge à normalidade (para p < 0,05), fato bastante comum em amostras cuja ferramenta de coleta utiliza a escala do tipo likert. Além dos questionários referentes às dimensões do comprometimento, foram coletados dados demográficos e profissionais para fins de caracterização da amostra e análise sobre a significância estatística de diferenças e tendências.