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3.5. MODEL ASSESSMENT AND SELECTION
3.5.3 Goodness of Fit
Refletir sobre o papel dos educadores e educadoras do campo enquanto intelectuais comprometidos com a formação de uma nova visão de mundo é de suma importância neste momento, considerando o espaço que a Educação do Campo tem conquistado nas últimas décadas e as lutas dos sujeitos do campo em prol de um projeto político de nação para todos.
Esse intelectual comprometido com a transformação social, Gramsci o qualifica como “intelectual orgânico”, estendendo-o não só como aquele que se dedica às atividades literárias, filosóficas, mas a todos aqueles que, na luta contra-hegemônica, procuram construir uma nova concepção de mundo, uma nova consciência política e uma base sólida para a sociedade. Segundo Wachowicz (1991, p. 62), “para Gramsci, o conceito de intelectual está ligado ao de classe social e o intelectual é orgânico na medida em que representa uma classe social.”
Assim, a educação para Gramsci tem uma dimensão política muito ampla, pelo papel significativo que podem ter a organização escolar e a criação de uma nova cultura na reestruturação democrática da sociedade. No entanto, compete à escola, consciente do seu caráter dialético e de suas relações com o Estado, assumir sua dimensão política em prol da emancipação da classe trabalhadora.
Aos intelectuais orgânicos cabe a missão de levar as massas a filosofia da práxis, não de dentro para fora, mas articulando-a com a reflexão que é possível, através do chamando núcleo do bom senso, a partir da prática cotidiana das massas e de sua experiência na luta política (MOCHCOVITCH, 1988, p.17-18).
A constituição de uma concepção de mundo contra-hegemônica passa, necessariamente, por uma grande transformação histórica no plano da superestrutura, a qual Gramsci apregoa como a "criação de um novo senso comum" e a elevação da cultura das massas. Essa transformação histórica se dá na medida em que as massas reconhecem sua própria concepção de mundo, rompem a base da hegemonia dominante e constroem a nova hegemonia. No caso particular da Educação do Campo, ela precisará romper com “o modelo de desenvolvimento atual que a gente tem, tanto na escola, como na comunidade,” afirma Araticum (estudante da LEdoC) em seu depoimento.
Contudo, a criação de um novo projeto hegemônico de sociedade necessita de um grande esforço criador, considerando que não existem modelos prontos. Para Gadotti (1998, p. 140-141), “o proletariado e o trabalhador em geral não chegam espontaneamente à consciência de classe, à consciência política, à teoria revolucionaria. Por isso há necessidade de uma educação e, sobretudo de educação política”, educação política entendida como aquela que não esconde as contradições existentes na sociedade. Uma educação assentada na dialética marxista que concebe as coisas e os fenômenos em movimento, relacionadas umas com as outras, na luta dos seus contrários. Para Kosik (2002, p.20), “a dialética é o pensamento crítico que se propõe a compreender a “coisa em si” e sistematicamente se pergunta como é possível chegar à compreensão da realidade.” Nesse contexto, a concepção dialética nos serve como uma arma na luta da elaboração do pensamento crítico e autocrítico e no questionamento da realidade atual.
Para Pistrak (2008, p.25), a “teoria marxista deve ser adotada como uma nova arma capaz de garantir a transformação da escola, e é preciso adotá-la sem modificações na prática de todo o trabalho escolar” De tal modo, entende-se a necessidade dos intelectuais orgânicos de estar instrumentalizados teoricamente, de modo que eles possam ser capazes de criar seus próprios métodos de trabalho, uma vez que não é possível aplicar o mesmo método em todas as condições escolares e na vida. Então, é preciso que criem seus próprios métodos de trabalho embasados numa teoria social.
Como intelectual orgânico, neste trabalho, entende-se o sujeito vinculado “às forças populares emergentes que entram em cena pela necessidade histórica da superação de uma hegemonia por outra, quando representam não apenas um aliado(...), mas também uma força organicamente ligada ao proletariado em luta pela contra- hegemonia” (JESUS, 1989, p.61). Esse autor ainda acrescenta que Gramsci trata o intelectual sob dois aspectos, o sociológico e o histórico. No primeiro, o intelectual é decidido a partir da sua função na estrutura social, ou de acordo a sua atuação na classe a que está vinculado. E, no aspecto histórico, é considerada a sua atuação no processo histórico na perspectiva da continuidade de classe.
Essa questão pode ser ilustrada com a fala de Pistrak (estudante da LEdoC), que revela em sua entrevista que um ponto forte do curso da LEdoC é formar liderança, porque, além da formação para ser educador, tem também essa formação, e acrescenta:
A partir do momento que você consegue olhar com outros olhos a realidade você consegue perceber coisas que a maioria dos assentados não percebe e que de certa forma estão erradas e a gente consegue falar, a gente consegue defender o povo nessas questões, então você está se formando para ser liderança. (Pistrak)
Segundo Gramsci (2010, p.18), “todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade função de intelectuais”. O depoimento de Pistrak dialoga com o conceito de intelectual orgânico em Gramsci, quando expressa uma preocupação em defender o povo da dominação hegemônica dentro da sua comunidade. A preocupação de Gramsci não era apenas criticar a sociedade burguesa do seu tempo, mas lutar para construir uma nova ordem social. E isso implicava ação do intelectual, sujeito imprescindível tanto à hegemonia da classe dominante como à contra-hegemonia proletária. Desse modo, um intelectual orgânico é aquele ou aquela que reflete de forma consciente as ideias do grupo social ao qual está vinculado. Portanto, este necessita estar associado intensamente aos interesses do grupo ao qual está vinculado.
Nesse contexto é que se insere a formação dos educadores e educadoras do campo na LEdoC, no intuito de criar caminhos, possibilidades, para que possam contribuir no processo de organização cultural e mobilização das comunidades de inserção e, ao mesmo tempo, ter as condições necessárias para difundir sua ideologia, adquirindo a “consciência unitária”, passando da condição de dirigidos para dirigentes. Pois, como afirma Jesus (1989, p.66), “no momento em que uma classe cria seu intelectual orgânico, este recebe a incumbência de suscitar a tomada de consciência nos membros desta classe” para que tenham capacidade de formulação de alternativas teóricas, políticas e práticas dentro das suas comunidades na perspectiva de uma elaboração de modos de vida contra-hegemônicos.
Vale ressaltar que uma das intencionalidades da LEdoC é que os seus educandos(as), ao voltar para suas comunidades, possam trabalhar junto a elas e criar mecanismos de organização, de forma que elas adquiram um caráter orgânico político. Nesse processo, a classe trabalhadora das comunidades irá tomando “consciência de si” e tornando sólida a base da contra-hegemonia, desenvolvendo uma consciência de classe e criando uma nova cultura como pressuposto ideológico para a nova sociedade.