Como relatamos, essa metodologia foi desenvolvida por Bomfim para facilitar a apreensão dos afetos em relação ao ambiente, tendo em vista a dificuldades de fazê-lo apenas pelo discurso dos sujeitos. Assim, esse método será de fundamental importância para a apreensão dos afetos de dois grupos de moradores da comunidade em relação a Prainha do Canto Verde, aqueles que participam das atividades comunitárias, e aqueles que não participam das atividades comunitárias, algo imprescindível para se atingir os objetivos deste estudo.
101 5.4.3.1 – Composição do IGMA
O instrumento gerador dos mapas afetivos completo foi constituído pelos seguintes itens:
1 – Desenho
Foi solicitado que o sujeito fizesse um desenho que representasse sua forma de ver, sua forma de representar ou sua forma de sentir a Prainha do Canto Verde. O desenho em si não será analisado, porém em aplicações anteriores já foi percebido que este item é de suma importância para um aquecimento para as respostas, servindo como um mobilizador para emergirem os sentimentos do sujeito em relação ao lugar.
2 – Significado do desenho
Nesse item é solicitado que o respondente explique brevemente que significado o desenho tem para ele. O que o sujeito relata sobre o desenho é o que será analisado pelo pesquisador, não cabe aqui, nem em nenhum outro momento da análise qualquer tipo de análise ou interpretação do desenho em si, mas sim das respostas escritas sobre ele.
3 - Sentimentos
Nesse momento é solicitado que a pessoa descreva os sentimentos que o desenho lhe despertou. Percebemos que novamente o respondente é levado a se conectar com seu desenho, que serve como ponte para que os sentimentos e emoções pelo lugar possam emergir.
4- Síntese dos sentimentos
Aqui é solicitado que o participante escreva seis palavras que resumam seus sentimentos em relação ao seu desenho. O respondente pode repetir o que já escreveu desde que cada uma das palavras corresponda a ordem solicitada 1 a 6. O conteúdo pode variar de sentimentos, qualidades, substantivos, ou outras expressões. O objetivo de se construir essa síntese é aumentar a clareza dos sentimentos, tanto para o pesquisado quanto para o processo de análise do pesquisador.
102 5 – O que pensa da Prainha do Canto Verde
Solicitamos que o sujeito respondesse o que pensa da Prainha do Canto Verde. Percebemos que este item não se remete ao mais ao desenho e sim a localidade em si. Ele dá espaço para que o sujeito discorra livremente sobre suas opiniões e impressões sobre o lugar.
6 – Comparação
Aqui questionamos que se o sujeito tivesse que fazer uma comparação entre a Prainha do Canto Verde e algo, com o que compararia. Esse item “permite a elaboração de metáforas e caracteriza-se por ser uma nova síntese de compreensão do sentido da comunicação complexa do afeto [...] o sujeito é convidado a elaborar imagens da cidade através de sua capacidade de fazer analogia” (BOMFIM, 2010, p. 146)
7 – Categorias da Escala Likert
Essa etapa é constituída por afirmativas que serão respondidas pelo sujeitos a partir de uma escala de 0 a 5 (discordo totalmente, discordo, nem concordo nem discordo, concordo, concordo totalmente). Inicialmente essas afirmativas foram construídas a partir das cinco imagens (agradabilidade, pertencimento, contraste, insegurança e destruição) geradas a partir dos mapas.
Nas pesquisas utilizando os mapas afetivos em cada pesquisa se construíam as afirmativas a partir de pré-testes, porém, recentemente foi realizado por Bomfim et al (2014) o trabalho de validação da escala de estima de lugar que poderá ser utilizada em todos os estudos utilizando esse instrumento. Em nossa pesquisa já utilizamos esta escala validada, que passou a ser a parte complementar, quantitativa, do IGMA.
No processo de validação da escala as afirmativas relativas a categoria de contraste foram excluídas por sua ambiguidade de ser, dependendo do caso, tanto revelador de estima potencializadora, como de estima despotencializadora de ação. O objetivo era se chegar a quatro fatores: Pertencimento, agradabilidade, destruição e insegurança. Porém, após a aplicação dos critérios psicométricos (BOMFIM et al, 2014), se chegou a apenas dois fatores: O de estima potencializadora de ação (junção das imagens de pertencimento com
103 agradabilidade) e Estima despotencializadora de ação (junção das imagens de destruição e insegurança)
Dessa forma a escala conta com dois fatores, ao todo com 41 afirmativas sendo 17 dela pertencem ao fator indicador de estima potencializadora e 24 ao fator de estima despotencializadora de ação.
8 – Dados pessoais
Por último serão questionadas as características sócio-demográficas do sujeito: Escolaridade, sexo, quanto tempo mora no local, origem, idade e se o sujeito participa de ações comunitárias na localidade.
5.4.3.2 Análise dos IGMAs
Os mapas afetivos utilizam a partir de uma abordagem qualitativa uma análise de conteúdo categorial. Em sua análise, as informações colhidas nos oito itens de sua composição, que apresentamos, foram arranjadas pelo pesquisador em uma tabela, que possui sete categorias: Identificação, estrutura, significado, qualidade, sentimento, metáfora e sentido.
As categorias de análise “identificação”, “significado”, “qualidade”, “sentimento” e “metáfora” são formadas a partir das informações contidas de forma literal no próprio mapa afetivo, ou seja, são organizações do conteúdo reproduzindo de forma fiel o discurso dos respondentes.
A categoria, nomeada de “sentido” possui interpretações dadas pelo pesquisador. Essa categoria consiste em uma interpretação sintética da metáfora do respondente baseada nas informações contidas nas demais informações constitutivas do mapa. O pesquisador irá decifrar o sentido da metáfora a partir dos demais conteúdos trazidos pelo sujeito: sentimentos, qualidades, significados, etc. Essa investigação de sentido a partir das palavras do próprio sujeito foi baseada nos métodos de análise realizados por Vygostky.
Já a categoria “estrutura” classifica os mapas em “cognitivos” ou “metafóricos”, essa classificação não é feita da análise dos desenhos, mas sim do
104 que os respondentes escrevem quando é solicitado que relatem o significado do desenho, se o respondente disser que o desenho representa algo concreto, por exemplo uma casa, uma ponte, uma estrada, ele é classificado como “cognitivo”, caso diga que representa algo subjetivo, como “a união”, “a força”, “o perigo”, é classificado como “metafórico”.
Vale ressaltar que um mesmo desenho pode ser tanto metafórica como cognitiva, já que o que se analisa não é o desenho e sim o que o sujeito relata dele.. Um sujeito que desenha uma casa por exemplo, pode afirmar tanto que o desenho “representa a sua casa”, se configurando como uma estrutura cognitiva, ou que o desenho “representa que sua comunidade é como sua casa”, que passa a ser uma estrutura metafórica.
Além disto, também iremos classificar o mapa de acordo de acordo com as cinco categorias16 de imagens geradas, que trazem relação com os afetos, que
são: Pertencimento, Agradabilidade, Contraste, Insegurança, Destruição.
Segue abaixo o modelo de análise contendo todas as categorias analisadas no quadro:
Quadro 1: Síntese do processo de categorização do Mapas Afetivos
Identificação Estrutura Cognitivo ou Metafórico Escolaridade: Idade: Sexo: Quanto tempo mora local: Origem: Entidade Associativa:
Significado Explicação do respondente sobre a significação do desenho.
Qualidade Atributos do desenho e da Prainha do Canto Verde, apontados pelo respondente.
Sentimento Expressão afetiva do respondente ao desenho e a Prainha do Canto Verde
Metáfora Comparação da Prainha do Canto Verde com algo pelo respondente, que tem como função a elaboração de metáforas.
Sentido Interpretação dada pelo investigador à articulação de sentidos entre as metáforas da cidade e as outras dimensões atribuídas pelo respondente (qualidade e sentimentos)
Fonte: BOMFIM (2010)
105 CAPÍTULO 06 – ANÁLISE DOS DADOS