Por definição, o conhecimento tradicional constitui-se em um sistema completo (e complexo) de conhecimentos, próprios de comunidades que mantêm aspectos tradicionais em sua cultura e, resistentes às mudanças preservam modos singulares de vida e tentam mantê-los vivos, mesmo sob a forte influência da sociedade envolvente. Vale dizer, que o conhecimento desenvolvido por esses povos está fortemente atrelado às condições de seus contextos, incluindo aspectos
19 De acordo com Booth e Skelton (2011, p.118) “uma visão de mundo é o
framework perceptual fundamental através do qual os eventos da vida são compreendidos.”
sociais, econômicos, místicos, etc. German-Castelli (2004, p.03) salienta que “o conhecimento tradicional se caracteriza por responder à cosmovisão de sua cultura, e, portanto, o tipo de conhecimento tradicional detido por cada povo indígena ou comunidade local, difere um do outro. Também os modos de compartilhar e ensinar responde à cosmovisão de sua cultura ou organização social.” Segundo German- Castelli e Wilkinson (2002, p.93-94), de acordo com Rahamn (2000), a literatura vale-se de vários termos intercambiáveis para designar o conceito de Conhecimento Tradicional, entre os quais:
Conhecimento Ecológico Tradicional (CET) ou Traditional Ecological Knowledge (TEK);
Conhecimento Ecológico e Sistemas de Manejo Tradicionais (CETSM) ou Traditional Ecological Knowledge and Management Systems (TEKMS);
Conhecimento Local (CL) ou Local Knowledge (LK); Conhecimento Indígena (CI) ou Indigenous Knowledge (IK); Conhecimento Comunitário ou Community Knowledge; Conhecimento dos Habitantes Rurais ou Rural Peoples’
Knowledge;
Conhecimento dos Produtores (CP) ou Farmers’ Knowledge (FK).
Ellen e Harris (1996) indicam o uso dos seguintes termos:
Indigenous Technical Knowledge (ITK); Ethnoecology;
Folk Knowledge;
Traditional Environmental (ou Ecological) Knowledge (TEK); People´s Science, Native/Aboriginal/Tribal Knowledge.
O conhecimento tradicional transita entre o local, por sua gênese, e o global, por sua dimensão, significado e importância (CASTRO, 1998; ALBAGLI, 2005). Ellen e Harris (1996) entendem que essas experiências ao longo dos séculos, aconteceram por meio de engajamento prático e diário e Sáez (2001) afirma que o empirismo dos conhecimentos tradicionais se desenvolve no cerne de uma teoria e de um método.
Segundo Sillitoe (1999), apesar das tendências globais, o conhecimento com fortes raízes tradicionais pode ser encontrado em pessoas de diferentes regiões que têm histórias e tradições culturais únicas e que continuam a condicionar suas visões do ambiente e suas vidas de maneira significativa. Há consenso entre os estudos de Kargbo (2006); Stevens (2008), Mulyoutami et al. (2009); Lodhi e Mikulecky (2011); Cannarella e Piccioni (2011); Dawoe et al. (2012) e Mohai (2012), do conhecimento tradicional como valor enraizado na tradição. De acordo com UNESCO (2002, p. 13), o foco do conhecimento tradicional é a sua longa história de prática.
O conhecimento indígena é tambem referido como conhecimento tradicional ou local e se refere a sistemas de conhecimento e habilidades, desenvolvidos de modo colaborativo e fora do método de ensino formal. Está embutido na cultura e é exclusivo para um determinado local ou sociedade. Também para Sukula (2006) sua originalidade é transmitida e envolve a criatividade, inovação e habilidades. Busingye e Keim (2009) citam que o conhecimento tradicional constitui um conhecimento transmitido verbalmente e elaborado através das gerações por meio da experiência prática de tentativa e erro. Para Stehr e Ufer (2009, p.07) o conhecimento tradicional “é tão antigo quanto a espécie humana”, ou seja, o Homo sapiens coexistiu com o conhecimento em suas diferentes dimensões. German-Castelli e Wilkinson (2002) ressaltam a característica empírica do conhecimento tradicional e sua manutenção, pois mesmo que estes estejam sendo influenciados por outras práticas e caracterizados por certos pontos de similitude e justaposição, segundo os autores, mantêm sua especificidade.
Por sua parte, Moreira (2007) diz que o conhecimento tradicional é um aparato cogniscitivo de conhecimentos, com atividade intelectual consciente no desenvolvimento de práticas, crenças e transmitidos através das gerações nas relações dos seres vivos (incluindo os humanos) entre si e com seu meio ambiente. É a forma mais antiga de produção de teorias, experiências, regras e conceitos, ou seja, é a mais ancestral forma de produzir ciência. Contudo, “as sucessivas agressões ao ambiente natural em que vivem têm conduzido, também, à perda de sua diversidade sociocultural.” (p.36). A Figura 03 mostra as características epistemológicas do conhecimento tradicional.
Figura 03 - Características epistemológicas do conhecimento tradicional
Fonte: Elaboração da autora. Baseado em Rezende e Ribeiro (2009, p.58).
Contribuindo com a riqueza conceitual do conhecimento tradicional, de acordo com Zanirato e Ribeiro (2007, p.52), “trata-se de um conhecimento coletivo, cujo ‘inventor’ não pode ser auferido já que resulta de anos de convívio social transmitido como herança cultural.” O processo de aprendizagem na socialização dos saberes e a informalidade do compartilhamento de experiências entre indivíduos decorrem da observação, da imitação e da prática conjunta (SANTOS; SOUSA, 2010). Pei et al. (2009, p.2017-18) salientam o importante papel que esse “conhecimento desempenha no desenvolvimento sustentável do mundo de hoje.” Yhuhuan et al. (2011) abordam a importância da tradição e da preservação por meio das práticas de ensino nas sociedades tradicionais.
Como atributos do conhecimento tradicional estão: (1) a dinâmica e a organização das sociedades nas quais é gerado, experimentado, modificado e transmitido; (2) a sua geração em um determinado grupo ou local; (3) a sua relação com o natural e sobrenatural; (4) a oralidade como forma de transmissão; (5) o engajamento prático; (6) a confiança nele depositada pela sociedade que o produziu; (7) a exigência intelectual para saber e fazer; (8) as peculiaridades do processo de produção desse tipo de conhecimento, isto é, os modos como ocorrem a sua aquisição, ensinamento e transmissão (PERRELLI, 2008, p.386).
Ele (o conhecimento tradicional) está
impregnado nas habilidades, ferramentas e objetos que essas populações utilizam para a
sobrevivência no dia a dia. Suas casas, alimentos e remédios, além das ferramentas e artefatos religiosos e culturais, são obtidos diretamente da floresta, que constitui a fonte de seus recursos, indicando a existência de uma relação estreita com as populações e a natureza ao redor e apresentando múltiplas possibilidades concretas do uso sustentável da diversidade biológica. (ABREU; NUNES, 2012, p. 20) (grifo nosso).
O conhecimento local, segundo Zhihong (2003), geralmente encontra forte defesa para sua preservação, está vinculado aos artefatos históricos, mas desenvolve-se e evolui para atender às mudanças de condições e situações. Em geral, situam Anunchiracheeva et al. (2003, p.1050), o conhecimento local tem influenciado o processo de desenvolvimento ao nível da comunidade, demonstrando a capacidade da população local e sua organização. Silva (2014, p.88) expõe: “como fruto de um permanente processo de interação do cidadão leigo com o seu ambiente, o CL é aprimorado frente às sucessivas alterações deste, quer sejam biofísicas, sociais ou culturais.”
Failing et al. (2007, p.49) cita que embora existam várias interpretações, três características do conhecimento local são amplamente notadas: (a) tipicamente baseado na experiência, confiando mais (mas não exclusivamente) na observação pessoal do que em dados quantitativos e experimentação controlada; (b) tende a ser expresso de maneira holística (muitas vezes refletindo propriedades eco-sistêmicas) e menos reducionista do que a ciência ocidental e; (c) normalmente é ancorado firmemente na experiência do lugar, e, como tal, tende a lidar com coisas particulares, em vez de categorias de coisas e, tempo e contexto específicos de observações e conclusões ao invés de regras fixas ou generalizáveis. Para o autor (em relação ao outros termos já relatados), o conhecimento local é mais inclusivo e descritivo.
O “conhecimento local é cada vez mais visto como uma fonte de informação fundamental para a gestão ambiental e restauração de habitat na Austrália”, cita Tibby et al. (2008). Também para Tran et al. (2008), o conhecimento local “é um poderoso recurso de populações rurais (...) e reflete a sabedoria da comunidade, tendo em vista que a comunidade tem melhorado sua auto-estima quando usam o conhecimento que possuem e ainda melhor se o seu conhecimento é aceito por outros.” De
acordo com Hirunsalee e Kanegae (2010, p.481), o conhecimento local é uma habilidade individual e conforme Hill et al. (2012) por suas características dinâmicas, responde às mudanças de circunstâncias. Pretty (2011) indica que o aspecto mais importante do conhecimento local é que ele deriva de interações freqüentes com a terra (fisicamente ou psicologicamente) dando origem a práticas sustentáveis de gestão. Neste sentido, é possível indicar que a questão do ‘local’ parece estar mais ao campo de aplicação do conhecimento do que, propriamente, de produção.
Segundo Scholz et al. (2004), o conhecimento local, também chamado em alguns campos de estudo de “conhecimento ecológico local” (CEL), refere-se a um corpo de conhecimento detido por um grupo específico de pessoas sobre os seus ecossistemas locais. Para Yli- Pelkonen e Kohl (2005, p.4), conhecimento ecológico local “refere-se à ecologia como uma ciência natural que inclui o conhecimento de uma pessoa e um conhecimento local mais específico”. O conceito também mistura conhecimento científico erudito e conhecimento baseado nas próprias observações de um residente e experiências de natureza circundante. Como tal, por suas definições, “o conhecimento ecológico local é geralmente um híbrido e, portanto, não estritamente local ou tradicional (...) é uma forma de ciência”, afirma Usher (2000, p.192).
O conhecimento ecológico tradicional, entendido como um conjunto de conhecimentos e crenças que foram desenvolvidos, testados, selecionados e acumulados por gerações, tem atraído atenção de diferentes campos de pesquisa apenas recentemente, embora tenha sido parte integrante de meios de subsistência dos povos indígenas por milênios (BERKES et al., 2000; ARUNOTAI, 2006; WHITERNAN, 2012). Segundo Zukowski et al. (2011), pode ser adquirido através de uma mistura de observações e experiência prática e adaptado ao longo do tempo, transmitido através das gerações.
A sigla TEK – Traditional Ecological também é citada pela IUNC e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). TEK é mais usado para descrever os aspectos relacionados à preservação do ambiente. Quando se refere à gestão desses saberes, a denominação utilizada preferencialmente é TEKMS – Traditional Ecological Knowledge Management and Systems (ROUÉ, 2000).
No jargão recente da antropologia ambiental, a sigla “TEK” (Traditional Ecological Knowledge) tem sido usada para denotar tais conhecimentos e práticas tradicionais de baixo impacto ambiental nem sempre racionalizados na forma de um know-
how ecológico, mas imersos em campos semânticos que se estendem para além das práticas econômicas propriamente ditas, como a religião e a cosmologia. (LIMA; POZZOBON, 2005, p.49).
Ellen e Harris (1996) destacam ainda que o termo “indígena” é conflitivo e moralmente carregado; “nativo” e “aborígene” possuem conotações similares; “tribal” é restritivo; “folk” e “tradicional” são termos menos carregados moralmente, “mas ‘folk’ pode ter outras conotações (...) o termo ‘tradicional’ parece ter mais credibilidade e está entre as maneiras mais comuns de se referir a um tipo particular de conhecimento” (p.89).
De acordo com Perrelli (2008, p.384), de modo geral na literatura brasileira “conhecimento tradicional” ou “saber tradicional” são as expressões mais usadas. Podem ser encontradas, também, as expressões “conhecimento autóctone” e “etnociência” (e suas variantes específicas etnozoologia, etnobotânica, etnoecologia, etnomatemática, etc) (...) quando se faz referência especificamente às sociedades indígenas, observa-se a utilização dos termos “ciência indígena” ou “cultura indígena”.
Para Mugabe (1998) o conhecimento indígena é criado e utilizado por uma população que reconhecem a si mesmos como indígenas, cujas características se baseiam numa combinação cultural própria. Em essência, as populações indígenas possuem comportamento voltado para a criação, conservação e transformação de seu habitat, percebem a biodiversidade como um processo ecológico local que lhes assegura a alimentação, saúde, e desta forma criam alternativas inovadoras de preservação e proteção de seus recursos naturais. No contexto, ainda de acordo com Mugabe (1998) o conhecimento indígena é um subconjunto do conhecimento tradicional, com a única diferença de que os proprietários são populações indígenas em lugar de comunidades “não indígenas” que incorporam estilos de vida tradicionais. A distinção não implica que o conhecimento indígena e o conhecimento tradicional são
em si diferentes, mas aponta para o fato que os proprietários do conhecimento indígena têm reivindicações políticas mais amplas que os proprietários do conhecimento tradicional. A Figura 04 expõe a compreensão do autor citado.
Figura 04 - Sistema de Conhecimentos Tradicionais
Fonte: Mugabe, 1998.
Nas comunidades indígenas, segundo Perrelli (2008), a “distribuição do conhecimento tradicional entre os membros da comunidade é segmentada e assimétrica. Isto é, aquilo que é dado a conhecer aos membros da coletividade não é igualmente distribuída, variando segundo critérios como gênero, idade, função social, laços de parentesco e preferências individuais.” Tal questão é explicitada por um índio da etnia Kaiowá/Guarani:
(...) três coisas são importantes: a língua (o oral), a confiança e o respeito. O conhecimento tradicional (...) sempre foi oral e prático. Na escrita, ele se perde. Nosso conhecimento produz muita coisa de valor: remédio, família, ensina nós a ouvir. Meu pai falava muito em respeito. Eu confiava nele. Assim é a nossa pedagogia.
Conhecimento Tradicional
Começa aí. É oralmente, passado pela família. A metodologia é essa: oral (...). Nenhum conhecimento é assim passado por acaso. (...) Como eles avaliavam que deu certo? Se eu aprendi? Fazendo roça, pescando, na festa, no canto, nas nossas práticas, no modo de falar, no modo de vestir, no modo de ser. (PERRELLI, 2008, p.385-86).
Registra-se que a Convenção de Diversidade Biológica - CDB (1992) reconhece especificamente o papel vital do conhecimento tradicional, como “inovações e práticas tradicionais na conservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável, assim como a necessidade de garantir sua proteção seja via Direitos de Propriedade Intelectual (DPI) ou outros mecanismos.”
2.1.2 - Aspectos multi/interdisciplinares do conhecimento