A Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM) transformou-se em Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) por meio da Lei nº 11.155, de 29 de julho de 2005, publicada no Diário Oficial da União no dia 01 de agosto de 2005. É uma universidade de tradição na área de agronomia, tendo o primeiro Curso de Pós- Graduação stricto sensu na área de Ciências Agrárias, em Fitotecnia, em nível de Mestrado, desde junho de 1988, bem como possui curso de Doutorado também em Fitotecnia desde junho de 2003.
O entrevistado 15 é formado em agronomia pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró (1973) e tem mestrado em Fitotecnia (Produção Vegetal) pela Universidade Federal de Viçosa (1981). Atualmente é professor aposentado da UFERSA e Presidente no nordeste da Associação Brasileira de Biodinâmica (ABD). Atuou em Mulunguzinho algumas vezes, ministrando cursos de formação em hortaliças orgânicas, juntamente com discentes da UFERSA, tendo, inclusive, aprovado um projeto com financiamento do Banco do Nordeste para desempenhar este projeto. Também ajudou a elaborar o estatuto do grupo Decididas a Vencer. Observando a dificuldade de comercialização dos produtos produzidos pelo grupo, foi ao Ceará observar práticas de comercialização solidária (Rede Bodega), juntamente com discentes da UFERSA, com vistas a observar a viabilidade de trazê-las para a região.
Em virtude do furto das bombas de água do grupo de mulheres de Mulunguzinho, houve a construção de cisternas de 50 mil litros para armazenamento de água para o plantio em alguns lotes do assentamento, o que enfraqueceu o trabalho coletivo na região. Para tentar não enfraquecer o vínculo do grupo de mulheres locais, uma parcela das envolvidas buscou o CF8 para a criação de estratégias de fortalecimento coletivo.
Segundo o entrevistado 15, após o Centro Feminista começar a atuar na comunidade, houve o engajamento em atividades políticas que tiravam muito as mulheres do campo, o que teve reflexos na produtividade do grupo. A participação política das mulheres produtoras em movimentos sociais, assim, foi um ponto de tensão entre as expectativas dos agrônomos que apresentaram as mulheres aos sistemas agroecológicos, uma vez que eles tinham em mente a formação de redes de consumidores cada vez maiores, chegando a relatar, inclusive, que dialogaram com empresas dos Estados Unidos interessadas em comprar mel, mas tais transações foram
inviabilizadas porque os grupos produtivos que fariam parte deste negócio venderam o mel para a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), pois à época pagavam cinquenta centavos a mais do que o mercado americano. Os agrônomos entenderam que esta conduta dos produtores fragilizou a entrada nos mercados externos, e passaram a investir os seus esforços na formação e fortalecimento das feiras locais.
Identifica-se, mais uma vez, uma tensão em torno das pretensões que os grupos produtivos do oeste potiguar deveriam assumir: a produção orgânica teria como finalidade crescer progressivamente com vistas a alcançar mercados internacionais ou o objetivo era a consolidação dos grupos, a autonomia e segurança alimentar dos produtores, gerando trabalho e renda para a população rural em contextos de adversidade?
Da convivência com as mulheres da REDE, da participação em encontros no CF8 e a partir dos relatos das mulheres, observa-se que a participação das mulheres em espaços de discussão política é muito importante não somente para a reafirmação da identidade de cada uma, mas também para a continuidade da participação de muitas nos grupos de produção coletiva, que sofrem ciclos de muita/pouca integração das mulheres. As marisqueiras do distrito de Pernambuquinho, em Tibau, Mossoró (RN), por exemplo, relatam que ir pescar marisco em grupo é importante para elas, porque uma dá força à outra, além de que os maridos quando sabem que elas vão em grupo ficam mais tranquilos (embora este excesso de cuidado possa ser, em verdade, uma forma de controle).
Outro episódio interessante diz respeito a uma equipe técnica que veio prestar assessoria a um grupo produtivo da região e um dos técnicos foi substituído pela entidade executora por provocação das mulheres, em virtude de comportamento sexistas e desrespeitosos.
Assim sendo, o envolvimento das mulheres em alguns espaços de participação política, além de ser o exercício de uma liberdade que gera desenvolvimento (pessoal, profissional, comunitário), as envolve em discussões que giram em torno de questões que lhes são caras, tais como sobre o uso racional dos recursos naturais, o resgate das sementes crioulas, a violência doméstica, o planejamento familiar, dentre outros. Este contexto provocou o CF8 a incluir no seu quadro de empregados uma profissional na área de agronomia, uma vez que a partir do envolvimento desta profissional nas atividades do centro, haveria mais coerência com as decisões políticas desta entidade,
fazendo com que o público-alvo passasse a ser atendido de forma mais congruente com
os interesses do CF8. Por outro lado, houve um distanciamento dos agrônomos que participavam da
formação dos grupos produtivos em sistemas agroecológicos, os quais passaram a se dedicar na criação de feiras orgânicas locais. Segundo R.B, essa iniciativa tem repercussões positivas na dinâmica das economias locais dos municípios, e não impede que aqueles produtores que quiserem trabalhar com outros parceiros realizem este diálogo. Por isso, foi um dos fundadores da Feira da Agricultura Orgânica de Mossoró, existente há cerca de dez anos, uma proposta fomentada pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (SEBRAE). Essa feira rcorre todos os sábados, das 5 às 9 horas da manhã, na praça do museu, no centro da cidade. Os frequentadores da feira elogiam muito a qualidade dos produtos e a organização, mas afirmam que seria melhor se a feira pudesse ser em um horário um pouco mais tarde, entretanto isso dificultaria a logística dos produtores/as.
Quando o SEBRAE procurou o entrevistado 15 para a organização da feira, ele encaminhou os técnicos para a Rede Xique Xique, uma vez que tal entidade já estava há mais tempo neste processo. Contudo, a Rede não demonstrou interesse, pois alega que a comercialização que estimulava deveria ser coletiva, via Rede, não individualmente em feiras. Desse modo, o entrevistado 15, vendo, segundo ele, que os produtores/as tinham vontade, mas não tinham técnica, reuniu alguns produtores/as, muitos também fornecedores da Rede, e começou a orientá-las quanto ao código de condutas técnicas, e a partir daí a feira começou a funcionar.
O SEBRAE forneceu vários instrumentos de irrigação para hortaliças e frutíferas e passou 2 anos fazendo assistência técnica à Associação dos Produtores/as da Feira Agroecológica de Mossoró (APROFAM). O Banco do Brasil e a Petrobrás também participaram do financiamento para o custeio da implantação do Sistema de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), nacionalizando o sistema mandalla de produção, de origem africana45.
45 Segundo o idealizador do Sistema Integrado de Produção Mandalla ou Projeto Mandalla, o
administrador Willy Pessoa, ele desenvolveu esta proposta há cerca de trinta anos e não tem nenhum vínculo com a esfera política, nem é partidário de nenhuma ideologia econômica, social ou política em particular. O projeto é voltado para os indivíduos e a coletividade dentro de uma perspectiva altruísta, benevolente e comunitária: “A nossa missão como uma organização da sociedade pública sem fins lucrativos é justamente ajudar aos governos – seja que governo for, seja que partido for -, e principalmente ao partido que nos interessa, esse partido chamado Brasil. A partir daí, começar a criar uma semente de que nós somos responsáveis por nós mesmos e pelos outros.”. (Disponível em: <
Mandala, palavra de origem sânscrita que significa círculo, universalmente representa a harmonia e a integração. O sistema mandalla de produção estabelece estrutura circular de plantio, e propõe a diversidade da atividade agrícola. São, em média, nove círculos interdependentes, além do lago no meio, que serve para o cultivo de peixes (MARIUZZO, 2007).
Além de produzir alimentos voltados à subsistência das famílias, esse sistema auxilia na geração de renda aos moradores de áreas rurais de pequeno porte e estimula a produtividade em grupo entre os agricultores. Funciona da seguinte maneira (PENSAMENTO VERDE, 2014):
• No centro do sistema agrícola mandalla é construído um reservatório de água com formato circular, com capacidade média de 30 mil litros. Ele serve para irrigar a plantação e também é destinado para a criação de peixes e aves, cujo esterco serve de adubo e a água é distribuída com a ajuda de uma bomba elétrica.
• Em seguida, vêm os três primeiros anéis, os chamados Círculos de Melhoria da Qualidade de Vida Ambiental. Eles são destinados para o cultivo de hortaliças e plantas medicinais.
• Os círculos seguintes, chamados de Círculos da Produtividade Econômica, são reservados para o plantio de milho, feijão, abóbora e frutíferas, por exemplo.
• O Círculo do Equilíbrio Ambiental, o último da mandalla agrícola, serve para construir cercas vivas e quebra-ventos. Assim, ajudará a melhorar a produtividade e também servirá de alimento para os animais.
Figura 18 Sistema Mandalla.
Fonte:https://www.epochtimes.com.br/sistema-mandalla-projeto-auto-sustentavel-promissor-para- brasil/#.WBk4iy0rKM8.
https://www.epochtimes.com.br/sistema-mandalla-projeto-auto-sustentavel-promissor-para- brasil/#.VwnszvkrKM8>. Acesso em 10 abr 2016).
Nesse sistema de produção, o controle de pragas do plantio é realizado com o auxílio de galinhas, soltas no meio do canteiro, que consomem os insetos existentes. O custo médio de implantação do sistema de mandalla agrícola é de aproximadamente R$ 4 mil e pode ser construído em espaços reduzidos. Entretanto, antes de iniciar o processo, é importante avaliar as condições do solo para identificar quais são as necessidades de correção e quais plantas e hortaliças são melhores para cultivar na área (PENSAMENTO VERDE, 2014).
Acerca da atuação da Rede, o Professor R.B. afirma que legalmente os alimentos comercializados por ela não podem ser considerados orgânicos, pois a legislação vigente exige que haja certificação, o que não ocorre com os produtos comercializados via Rede. Reconhece, porém, que a Rede é pioneira, pois as mulheres têm uma capacidade para o trabalho muito grande e romperam várias barreiras, inclusive de gênero. Enfatiza, porém, o entrevistado 15: “sou um grande defensor das da comercialização livre, em feiras. Elas promovem a ocupação de praças e espaços públicos, contribuem para uma maior dinamização da economia local e não exigem burocracias para o seu funcionamento.”.