São várias as dúvidas em relação aos rumos que toma da sociedade atual e o papel desempenhado pela educação diante das profundas transformações ocorridas ao longo das últimas décadas. Mesmo aqueles nascidos em um período onde a tecnologia já ocupava um papel de destaque, consideram que se torna cada dia mais difícil lidar com os paradoxos e promessas que inundam o cotidiano das pessoas e que, de um modo geral, acabam repercutindo de forma negativa nos diferentes momentos da dinâmica escolar.
Segundo Lipovetsky (2007), vivemos um período de hipermodernização do conforto, um momento em que a experiência da velocidade e da compreensão externa do espaço-tempo inunda nossas vidas. A informatização, o hiperespaço, as redes virtuais impõem-nos uma experiência de aceleração do tempo, condensando ao máximo um número crescente de setores da vida social. O conforto proporcionado pelo avanço tecnológico não se limita a um ganho
de “qualidade” em nossas vidas, está também a nos obsequiar com uma quantidade
significativa de repetições e reproduções típicas do universo tecnomercantil. Neste sentido, o autor nos adverte que o ideal de qualidade tão difundido em nosso cotidiano, está longe de afastar-se da cultura do “mais”. Ao contrário, unir estes dois princípios é antes de tudo uma característica inerente ao período de hipermodernização do conforto que vivemos.
É preciso recusar tanto as leituras pós-modernistas quanto as de ficção científica ou apocalípticas do conforto contemporâneo. Pois este é a uma só vez high-tech e cultural, virtual e sensível, abstrato e tátil, funcional e emocional, dromocrático (Virilio) e estético. A ruptura com a primeira modernidade está longe de ser total, porções inteiras do nosso mundo não fazem mais que levar ao extremo a dinâmica
prometéica. O que testemunhamos não é tanto a emergência de uma cultura “pós- moderna” quanto uma hipermodernização do conforto, dominado pelas escaladas do
tempo e da velocidade, real excrescência do mercado e da oferta. Ironia da época: quanto mais são celebrados os valores sensíveis, mais somos testemunhas de um excesso de técnicas digitais, de velocidade e de instantaneidade. (Lipovetsky, 2007, p. 229).
Em um primeiro momento podemos constatar nas falas dos estagiários que o avanço tecnológico abre um leque de possibilidades à sociedade, demonstrando diferentes maneiras
de interação e mudanças possíveis, no sentido de se efetivarem situações de aprendizado e conhecimento equitativas e democráticas. Está, portanto, relacionado à necessidade de mudanças sociais, com a democratização do conhecimento e com o desenvolvimento do ser humano e das suas possibilidades de entendimento e crescimento conjunto.
Posteriormente, constatamos que a mesma tecnologia que tende a libertar e emancipar o sujeito e a sociedade é vista como limitadora dessas possibilidades, causando dúvidas nos autores, em relação ao significado efetivo do seu avanço nos diferentes momentos e espaços aonde chega. Basicamente, a tecnologia apresenta-se de forma paradoxal uma vez que ao mesmo tempo em que constrói espaços de entendimento e comunhão entre os sujeitos, difunde o individualismo e a impessoalidade nas relações, estimulando uma busca incessante pela satisfação pessoal e, em outros casos, alimentando ilusões e preconceitos em relação às diferenças. Tais dicotomias podem ser observadas nos excertos selecionados.
Estamos vivendo uma época de muitas mudanças e diferentes transformações que vem acompanhando a sociedade e uma delas diz respeito às novas tecnologias e a aceleração da informação, na qual a sociedade pode inventar, compartilhar, analisar e colocar em prática todo o seu conhecimento. (RELATÓRIO 145, p. 13). Não adianta tentarmos enfiar espírito crítico “goela abaixo” dos alunos, se a televisão vende inatingíveis sonhos de consumo ou se as religiões usam os ideais cristãos para pregar o ódio e a intolerância. (RELATÓRIO 38, p. 15).
A incapacidade de alcançarmos em sua plenitude o projeto de expansão da educação associado à qualidade do ensino, criou uma série de defasagens entre os projetos do Estado, as necessidades e desejos da sociedade, e o que a escola tem a oferecer. Como podemos observar nos relatos dos acadêmicos, cada vez mais se difunde a ideia de uma educação voltada para a instrumentalização, ainda que mínima, mas que seja capaz de colocar os indivíduos no mercado de trabalho. Diante do quadro de instabilidades e incertezas a que estamos submetidos na contemporaneidade, esse discurso passa a ser socialmente aceito, ainda que esvaziando de sentido os ideais formativos e emancipatórios do cidadão na sua plenitude e integralidade.
Assim, torna-se comum no discurso dos estagiários a representação da sociedade como excessivamente individualista. Movida pelos desejos pessoais que se sobrepõe a construção de projetos comuns, não consegue fazer com que as mudanças necessárias a construção de uma sociedade mais justa e solidária sejam efetivadas. Somos constantemente solapados pela desarticulação e fragmentação promovidas e disseminadas nas mídias que inundam nosso cotidiano com mensagens e informações a respeito do ganho individual necessário a nossa realização como pessoa. Levados a crer em tais premissas, desconsideramos que de fato
necessitamos de um crescimento coletivo, capaz de nos levar as conquistas sociais necessárias à constituição de um ambiente socialmente saudável, onde valores e oportunidades sejam consumados como um bem comum.
Vivemos em um tipo de sociedade que apresenta uma importante especificidade em relação a todas as outras que já existiram até recentemente. Nossa sociedade realiza – ou pretende realizar – uma educação de massas, voltada para a técnica e para o mercado de trabalho. Na sociedade da incerteza que vivemos, a educação começa a ser vendida como um mecanismo para cada um tentar fugir do destino da imensa maioria, obtendo um ganho individual. (RELATÓRIO 140, p. 17). A sociedade que busca o lucro acima de tudo, que enfatiza excessivamente a técnica e perde a capacidade de se comunicar – de estabelecer valores comuns, acordos, pactos, diálogos, fins compartilhados e legítimos – é uma sociedade que se destrói. (RELATÓRIO 73, p. 10) .
É sabido que a partir da educação que se pode mudar toda uma sociedade, mas como pensar na mudança entre cidadãos, se o que se observa é o individualismo, egoísmo e busca somente do que lhe faz bem e feliz? (RELATÓRIO 88, p. 20).
Para Lipovetsky (2007), vivemos um momento de comunitarismos emergentes, que, no âmago de suas instabilidades, convivem com atitudes e aspirações individualistas dos mais variados tipos e sentidos. O autor nos adverte que, por detrás do “nós” comunitário, o que se observa é a efemeridade das identidades de grupo, cada vez mais abaladas pelo primado dos gostos e escolhas pessoais, ou seja, o indivíduo no comando de si próprio.
Ao contrário de que pensam alguns, a metáfora dionisíaca não serve como possibilidade ilustrativa da atualidade, uma vez que a comunhão celebrada nos cultos dionisíacos da antiguidade estão diretamente relacionados à possibilidade de extrapolar barreiras individuais através de um frenesi de sensações coletivas, ao passo que hoje, o que se observa, é a proliferação dos prazeres privados ainda que praticados em grupo. Nem o otium, tempo de construção de si, nem as bacanais, onde o despojamento através da festa coletiva punha abaixo os costumes de então.
Hoje, a privatização e individualização dos prazeres, mesclam-se a uma “ambiência” dionisíaca, onde o hiperindivíduo recorre à multidão e ao coletivo a fim de ver consumadas as suas satisfações privadas. Contra uma leitura dionisíaca da sociedade atual, argumenta ser necessário que se entenda o neotribalismo como, nada mais do que, uma etapa suplementar do processo de individualização a que estamos submetidos, e:
O fato de haver comunidades, atitudes de grupo, sensibilidades comuns – eis uma observação sociológica bem pouco sujeita a discussão. Fazer dela uma máquina de guerra contra a interpretação individualista do social contemporâneo é uma questão bem diferente, cujo caráter mais do frágil não é muito difícil de demonstrar. Pois como não sublinhar o fato novo de que, daí em diante, a inclusão comunitária é escolhida, reivindicada, exibida ostensivamente como uma maneira de ser um eu,
como um vetor de identidade pessoal? Não mais a sujeição tradicional a um englobamento aceito e vivido como uma evidência, mas, ao contrário, um processo de auto-identificação, a afirmação de uma liberdade subjetiva que se apropria de uma realidade coletiva. Assim, a referência comunitária tornou-se uma “tecnologia” do eu. O que se manifesta é menos uma realidade supra-singular do que uma estratégia pessoal, uma instrumentalização do grupo com fins de valorização e de afirmação de si. De resto, do que dependem os fenômenos de poliinclusão e o caráter instável, móvel, do neotribalismo a não ser, precisamente, da lógica do indivíduo dissociado, desligado, legislador de sua própria vida? Não é a evasão de si nas emoções e fusões coletivas que predomina, mas o Homo individualis dispondo de si próprio até em sua autodefinição social. (Lipovetsky, 2007, p. 215).