• No results found

Gluing of loose flakes

In document Rock Art (sider 101-107)

5. CONSERVATION

5.2 Direct conservation

5.2.5 Gluing of loose flakes

A minha alma só quer isso, a alma humana precisa (eu vou usar um termo ruim, mas não sei o que dizer agora) prestar vassalagem. O nosso descanso é esse, é ter alguém maior que nós. Dá muito descanso quando você encontra aquilo que você pode adorar. Por isso uma poesia que é decifrável é uma má poesia. Eu nem sei se a gente pode falar de poesia que é má, eu não sei se isso também é um paradoxo, uma contradição. Deus é Mistério, um mistério que se for entendido acaba. Eu não posso entender Deus. No momento em que eu O entender eu serei maior que Ele, não é não? Tudo o que eu entendo eu posso dominar, não é verdade? Então com a arte não acontece isso, não tem jeito. (Adélia Prado)

Segundo a poetisa mineira, a poesia é como o mistério divino, ou seja, não é possível utilizar os métodos racionais a fim de desvendá-la ou entendê-la, seria equivalente a dominar, submeter e a arte ou Deus não se dobram à razão, não podemos dominar Deus, assim como não podemos dominar a poesia, ou como diz Quintana, “A poesia não se entrega a quem a define” (QUINTANA, 2005, p.375). Assim, esse percurso realizado pela poesia quintaniana foi conduzido com a intenção de seguir as pistas deixadas pelo próprio poeta, sem a pretensão de domá-la, defini-la, ou estabelecer limites rígidos. Estabeleceu-se uma conversa com a obra de Quintana, trazendo para esse bate- papo outros poetas, assim como críticos e teóricos da literatura em busca de uma leitura que não desrespeitasse ou desautorizasse o poeta ou o texto literário.

Durante a trajetória, pela poesia quintaniana percebeu-se uma harmonia entre suas diversas obras, uma vez que alguns dos poemas publicados no início de sua carreira são encontrados em outros livros, décadas mais tarde, em alguns casos, sem nenhuma alteração; já em outros, o poeta acrescenta ou suprime versos; e ainda há vezes em que ele muda-lhes a feição, o que antes fora escrito em versos, em outra ocasião, será reescrito sob o formato do poema em prosa ou o inverso. Isso demonstra, assim, uma unidade entre suas publicações e também uma autoconsciência de seu próprio fazer poético.

Pudemos notar, ainda, ao lermos sua fortuna crítica, que houve uma demora no que diz respeito ao reconhecimento de sua poesia, em parte por ser um poeta lírico, mas também por recusar limitar sua poesia aos movimentos estéticos em voga à época da publicação de seus livros. Trata-se do caso de A rua dos cataventos, livro de sonetos, entregue ao público quando a ordem do dia era o rompimento com a tradição clássica.

Além disso, entre alguns leitores da poesia de Quintana há uma certa tendência a atribuir alguns clichês à sua obra, como, por exemplo de identificar seus versos como “fáceis” ou “simples”, talvez por compreenderem erroneamente certos aspectos dessa poesia como a leveza, o humor e uma linguagem poética que surpreende ao tratar temas tão sérios como a morte, o amor não correspondido ou a passagem do tempo de forma tão particular.

A investigação da fortuna crítica, possibilitou a percepção de que uma parcela desses textos abordam a infância – temática por meio da qual nos aproximamos dos quintanares neste trabalho – a partir do viés da recordação, da não aceitação da passagem do tempo, do caráter memorialístico. Por outro lado, os estudos que discutem acerca do caráter metapoético da poesia de Quintana não estabeleciam essa relação entre o fazer poético e a infância, possibilidade de leitura que nos propusemos realizar aqui neste trabalho.

Buscamos, dessa forma, a partir do corpus selecionado realizar uma leitura em que a infância e as especificidades da criança são percebidas pelo poeta muito mais como uma postura diante da vida do que enquanto uma fase cronológica e que o poeta vivencia essas características pertencentes ao ser criança, como se fosse uma espécie de ensinamento para a construção de sua poética, permitindo, assim, por meio da literatura, que o menino e o poeta convivam, uma vez que isso não se faz possível na vida cotidiana, habitando o mesmo espaço imaginário da poesia. Essa convivência entre as idades é percebida de diversas formas, desde a sua primeira obra; no entanto é em seus livros de poema em prosa que se dá de forma muito mais enfática e perceptível.

Ao contrário da visão adultocêntrica que compreende a criança como um ser incompleto em cuja essência, predomina a falta, a ausência, a negação, Quintana apresenta-a como um ser capaz de complementar o trabalho do poeta e assim, transformar os acontecimentos cotidianos em experiências ricas de inventividade e criação. Por isso, o brincar e o faz de conta da criança aproxima-se do fingimento poético presente no trabalho do poeta.

Dessa forma, criança e poeta apresentam em comum a transgressão. Se o poeta transgride por meio da linguagem literária ao revitalizar as palavras que encontram- se desgastados pelo utilitarismo cotidiano, a criança é transgressora, porque em sua brincadeira do faz de conta (re)inventa o mundo que a rodeia, oferecendo-lhe novas perspectivas, como Lili no poema “Mentiras”, personagem que pode ser considerada a infância, sempre presente na poética de Quintana.

Entende-se, dessa forma, a infância como uma temática que se apresenta de forma recorrente na poesia de Quintana e a abordagem realizada nesta pesquisa se constitui como um dos tantos caminhos possíveis que o(a) pesquisador(a) de Literatura pode trilhar a fim de perscrutar essa obra poética.

In document Rock Art (sider 101-107)