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O álbum é arquivo, um dos mais inquietantes da vida privada, e funciona com técnicas que lhe são próprias, idealizadas de modo espontâneo por seus usuários com o passar do tempo. Logo, o álbum é fotografia, pois esta o fundamenta; trata-se de uma imagem mecânica, moderna, entendida popularmente como reprodução, quando é apenas marca de um objeto real que lhe deu luz [...]. Por fim, o álbum conta histórias, mas não somente sobre fotos, pois a ele são acrescentados outros objetos: cartões, lembretes, recortes de jornal, relíquias e partes do corpo: umbigos de recém-nascidos, gotas de sangue, mechas de cabelo, unhas de mãos e marcas de pés. Em sentido literal, o álbum é um pedaço de nossos corpos.

Armando Silva

Ao fazer seus objetos coexistirem em um todo finito e organizado, Antonio Guerra construiu uma espécie de enciclopédia do mundo teatral. No tópico anterior, características enciclopédicas de diferentes tempos e lugares emergiram das análises que empreendemos no material do são-joanense. A partir das próximas páginas, pretendemos discutir até que ponto os objetos do teatrólogo podem ser lidos sob a ótica de um gênero textual também finito e organizado – os álbuns fotográficos familiares. Para realizar tal investigação, utilizaremos, especialmente, as pesquisas de Armando Silva, em Álbum de família: a imagem de nós mesmos (2008).

Os compêndios construídos por Guerra são produções híbridas que se metamorfoseiam e se escondem atrás de diversos modelos e gêneros textuais –

arquivo, biblioteca, museu, biografia, autobiografia, memória, enciclopédia e, a partir de agora, álbum fotográfico familiar. Através desses muitos formatos textuais, que interceptam e cruzam os objetos aqui investigados, gêneros novos e voláteis se delineiam. Essas várias “definições” e estruturas textuais vão se formando a partir de nossas análises e, ao mesmo tempo, se desmanchando em outros e outros formatos textuais. Nada é único, fixo, definitivo e perene.

Investigando, então, os pontos de contato e também os distanciamentos que podem ser estabelecidos entre o material do teatrólogo e os objetos que guardam, especialmente, imagens de uma família, verificamos, num primeiro momento, que as páginas pautadas41 dos álbuns do são-joanense não foram utilizadas para a escrita de textos, mas para a colagem de diferentes fragmentos textuais, incluindo muitas fotografias.42

Num segundo momento, o modo como todo o material recolhido foi fixado chama a nossa atenção e propõe uma leitura que lembra as leituras que são realizadas em muitos álbuns fotográficos – a mistura constante de textos verbais com textos não-verbais, sugerindo ao leitor um manuseio sincronizado com o interesse do olhar, que a maioria das vezes foca pequenos detalhes e não se atém a uma leitura detalhada e minuciosa.

E quais são os textos que permeiam e se imbricam nos álbuns de Guerra, propondo aos seus manipuladores uma leitura dinâmica, comparatista e transdisciplinar, capaz de dialogar com diversos signos e de cruzar saberes de diferentes áreas do conhecimento?

O teatrólogo recolheu em seus compósitos desde fotografias, recortes de jornais e cartazes de apresentações cênicos a telegramas, tickets do sindicato dos atores teatrais, selos de diversão e lembrancinhas – que informam sobre o nascimento de um bebê ou que agradecem a participação de membros da sociedade em um dos bailes do Clube Teatral Artur Azevedo.

O material escolhido é bastante heteróclito. E toda essa heterogeneidade remete-nos, novamente, aos álbuns fotográficos familiares, investigados por Armando Silva, e à epígrafe que abre esta discussão, pois, além da diversidade de

41 As páginas de dois dos treze álbuns confeccionados pelo amador são sem pauta.

42 De todos os compêndios de Guerra, o álbum de número 12 é o que mais traz textos fotográficos em sua composição. Fotos de atores teatrais, cinematográficos e televisivos encontram-se coladas lado a lado em várias páginas desses compósitos.

papéis, os arquivos de Guerra guardam um pouco das gotas de sangue e de suor da vida teatral do são-joanense.

Agrupados a partir de critérios pessoais – anotação de data e nome do periódico de onde os textos jornalísticos foram extraídos; legenda, em algumas fotografias, com o nome da pessoa fotografada e, às vezes, com a data do dia em que a foto foi tirada ou recebida;43 colagem, nas páginas dos álbuns, de vários gêneros textuais sem, aparentemente, seguir nenhum critério específico de organização (páginas só com textos de jornais ou só com cartazes cênicos ou com um cartaz teatral e um recorte jornalístico ou páginas praticamente vazias, só com uma lembrancinha de baile do Clube ou com uma fotografia); cartazes teatrais colados e dobrados das mais diversas formas –, os arquivos do são-joanense guardam inúmeros “restos”, não de sua família particular (esposas, filhos, pais ou irmãos), mas de suas muitas famílias teatrais: “Os álbuns não são todos iguais na organização nem completados por idênticas motivações, [...]” (SILVA, 2008, p. 41).

Além de representar uma ou várias famílias, Armando Silva destaca que um álbum familiar não existe sem o arquivamento de fotografias e a intenção de se contar uma história a partir de imagens. O pesquisador ainda menciona que quando estas três condições se cumprem – família representada; foto revelada em algum tipo de arquivo; pretensão de se contar uma história – já se está narrando. A ação de contar depende da existência desses três elementos.

A família teatral de Guerra encontra-se representada nos álbuns. Além disso, o amador organizou e fez anotações acima de vários recortes, marcando a perspectiva arquivística de seu material. Não só fotografias, mas muitas imagens e outros vários papéis compõem esses arquivos. E a maneira toda especial como a heterogeneidade do material foi montada e ordenada instiga o leitor a criar uma narrativa que é sempre renovada cada vez que os recortes são olhados e inter- relacionados.

Assim como os cadernos de retrato narram uma história fragmentada que deve ser reconstituída pelo leitor a partir de fotografias de uma família, de vários pedacinhos de papel e de algumas marcações feitas pelo seu organizador – como data, local e nome de algumas pessoas fotografadas –, também o leitor dos álbuns deve articular as fotos das famílias teatrais do são-joanense aos fragmentos de

43 Há fotografias com dedicatória. Nesses casos, o amador não faz as anotações de praxe – data e nome ou nomes das pessoas fotografadas.

papéis, anotações e marcações feitas por Guerra, e, assim, construir uma trama narrativa.

A leitura empreendida nos compósitos do arquivista se dá através de saltos:

[...] uma ordem, em que uma foto se encadeia à outra, e, portanto, sua visão produz a figura do “salto” – palavra que me parece definir bem esse fenômeno –, tendo em vista que devemos “saltar” de uma foto para outra, para recompor um propósito global. Sua enunciação muda, como no teatro, com cada encenação, com a introdução de uma nova foto que transforma a ordem das já existentes (SILVA, 2008, p. 32).

A ordem imposta aos recortes de Guerra exige que o leitor encadeie ora uma foto à outra, ora um texto verbal a outro ora uma foto a um texto verbal. O usuário desses materiais precisa saltar de um recorte a outro para que uma composição mais geral se configure. Como nas apresentações cênicas, em que a cada nova cena uma relação diferente é estabelecida com as anteriores, a leitura dos álbuns é constantemente reconfigurada a cada momento que um novo texto surge e se articula com os anteriores.

Mesmo com todas as suas especificidades – principalmente as peculiaridades de não estarmos lidando com um número predominante de fotografias e de as imagens não serem da família de sangue de Guerra –, os artefatos do teatrólogo podem ser lidos como álbuns fotográficos familiares? Os recortes verbais podem ser enxergados como textos fotográficos e a narrativa familiar pode ser substituída pela teatral?

Inicialmente, podemos comparar e aproximar a leitura que certamente Guerra empreendeu em seus textos verbais à leitura que a maioria das pessoas faz em um conjunto de imagens fotográficas – os recortes verbais dos álbuns podem ser aproximados e lidos como textos imagéticos. Assim como olhamos uma fotografia e rapidamente uma série de histórias e informações vão se desencadeando a partir do que nela está imortalizado, bastava o teatrólogo olhar para um determinado papel – com uma anotação por ele feita ou combinado com um cartaz cênico, fotografia e/ou outros recortes – para que diversas imagens e histórias surgissem em sua memória. O ato de olhar é tão importante para o texto fotográfico como o é para os recortes dos álbuns aqui analisados. Muitos textos verbais nem precisavam ser lidos na íntegra, pois, ao olhar a data, o nome do jornal, a forma ou local onde o papel foi

colado, as setas ou trechos sublinhados, imediatamente, o que ali estava grafado e gravado retornava à memória do amador: “Aquilo que culturalmente chamamos de álbum familiar costuma ser ainda outra coisa, e não apenas um arquivo de fotos. Nele incluem-se outros objetos, também visuais, mas nem sempre de natureza fotográfica” (SILVA, 2008, p. 64).

Quanto ao fato de Guerra ter arquivado recortes teatrais e não familiares, acreditamos que os amigos de ensaios diários, reuniões nos clubes, turnês e tantas outras vivências partilhadas no teatro, eram considerados membros de sua família. As pessoas que dividiram as tristezas e as alegrias diárias das noites de espetáculo foram aquelas que o teatrólogo escolheu para compor sua família – de luta e de trabalho pelo teatro.

Mudando a direção de nossas reflexões e investigando, especialmente, a perspectiva narrativa dos objetos heteróclitos do amador, interessa-nos, a partir de agora, correlacionar a narrativa configurada por Guerra ao mito do álbum fotográfico, já que a narração é um dos elementos mais importantes desse mito.

E o que vem a ser tal mito? De acordo com Armando Silva (2008), o mito do álbum fotográfico configura-se a partir da ideia de morte e de renascimento. A ideia de morte, o cadáver, perpassa todo ato fotográfico – a consciência de que um acontecimento não mais se repetirá, ou seja, a morte, é que leva uma pessoa a eternizar um momento através de uma foto. Já a ideia de renascimento, que se relaciona diretamente com o caráter narrativo desses objetos, manifesta-se nos momentos em que um dos membros de uma família – geralmente a mãe, avó, filha mais velha, irmã ou tia – narra e renova as histórias de seus familiares através das imagens de um álbum. Nesse sentido, “[...] o álbum não só é visto, mas especialmente ouvido (com vozes femininas) [...]” (SILVA, 2008, p. 19). Assim, o conceito desses objetos não se restringe à noção de arquivo. Eles não apenas guardam e classificam fotos. Próximos da literatura, os álbuns contam histórias de muitas vidas através dos relatos, sempre renovados, dos familiares.

Também os objetos por nós analisados são atravessados pela ideia de morte e de vida. Guerra tinha consciência de que as histórias do teatro amador por ele vividas nunca mais se repetiriam e assim, obviamente, morreriam. Então, deu um jeito de elas não se perderem. Arquivou fotografias e muitos outros papéis para reter diversos momentos, especialmente os dias de sucesso e de alegria do trabalho cênico: “Digamos que o álbum existe, a princípio, para contar a vida e seus