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“A criança que brinca e o poeta que faz um poema – Estão ambos na mesma

idade mágica!”

(Mário Quintana).

Para Winnicott (1975a), o brincar assume muitas funções, porém o que diferencia a teoria desse autor das demais é que, para ele, o brincar tem principalmente um caráter constitutivo no desenvolvimento emocional. Ele entende que para uma criança ser capaz de brincar, teve que passar por outras conquistas anteriores.

Segundo Winnicott (1975c), no início da vida o bebê vive uma dependência absoluta em relação ao ambiente e ainda não diferenciou aquilo que é eu do que é não-eu, e isso quer dizer que o objeto (tudo no mundo com que ele se relaciona) é um objeto subjetivo e não objetivamente percebido. Através da experiência de maternagem suficientemente boa, o bebê pode se desenvolver e passar para a segunda fase, a da percepção objetiva.

Quando ocorre a adaptação da mãe às necessidades da criança, esta pode viver a experiência de onipotência, pois se sente criando o objeto oferecido pela mãe. Assim, o objeto oferecido aparece no momento em que surge a necessidade do bebê, e então o objeto é vivido como subjetivo. Nessa experiência de onipotência, o bebê está vivendo um período de ilusão, que é extremamente necessário nessa fase da vida. Depois dessa fase, o bebê começa a viver o processo gradativo de desilusão, no qual pode, aos poucos, ir percebendo a diferença entre o

eu do não-eu e o objeto vai começando a mudar de objeto subjetivo para objetivamente

percebido. O bebê começa a perceber que os objetos não estão sob seu controle e que eles não aparecem magicamente no momento em que ele precisa, mas inicia um reconhecimento de

que existe alguém separado dele que está presente, reconhece que se constitui como um ser e que existe um outro que está fora dele.

No momento em que a criança vai conseguindo fazer essa separação, ela evidencia a existência do exterior. Através do holding da mãe é criada uma proteção, não permitindo que o não-eu (tudo que está fora) invada o self do bebê. Com o “gesto espontâneo”, o bebê pode descobrir o ambiente e ter a ilusão de que existe um ambiente que corresponde à sua criação.

Aos poucos, o bebê faz seus movimentos em direção ao mundo, a partir do seu self verdadeiro e a mãe o vai apresentando a esse meio ambiente, à medida que ele mesmo vai buscando. Com essa dinâmica, o bebê vai usando a ilusão e preservando sua criatividade, pois vê que as coisas lhe chegam quando está preparado, ou melhor, que ele pensa ter criado. Isso ocorre quando a mãe ou o ambiente apresenta o mundo em pequenas doses, indo ao encontro das necessidades do bebê. E quanto melhor ele passar por essa fase, mais facilmente poderá aceitar a desilusão.

Com a desilusão, vai percebendo a separação entre si e sua mãe, estabelecendo seu self autônomo. Assim, o bebê consegue chegar ao princípio de realidade, relacionando-se em alguns momentos com objetos subjetivamente concebidos e, em outros, com objetos objetivamente percebidos.

Os objetos e fenômenos transicionais se posicionam nesse lugar, como uma terceira área intermediária entre a realidade psíquica e a realidade compartilhada. O espaço potencial está entre o bebê e a mãe, entre o objeto subjetivo e o objeto objetivamente percebido. Os objetos transicionais, como, por exemplo, cobertor, fralda, lençol etc. seriam usados contra a defesa de ansiedades. O bebê se defende da ansiedade, do sentimento de insegurança no momento em que está separado da mãe, em que se sente sozinho e vulnerável. Esses objetos ajudam o bebê a passar pela transição de ser insuportável a ausência da mãe, para uma situação suportável.

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Um dos mais importantes aspectos dos objetos transicionais é que se trata da primeira possessão não-eu. Mas, ao mesmo, tempo, tem uma grande importância simbólica para o bebê. É exatamente isso que faz com que os objetos transicionais sejam tão peculiares, por serem objetos reais representando outra coisa, como o seio da mãe ou a própria mãe. Segundo Winnicott (1975c, p. 19), “quando o simbolismo é empregado, o bebê já está claramente distinguindo entre fantasia e fato, entre objetos internos e objetos externos, entre criatividade primária e percepção”.

Nesse espaço potencial podem acontecer a imaginação e o brincar do bebê, mais tarde preenchendo toda a área da criatividade. O espaço potencial surge quando a mãe pode esperar o gesto espontâneo do bebê, e só então oferecer algo que venha ao encontro das suas necessidades.

Nessa área, que Winnicott (1975c) chamou de terceira área de experiência (espaço potencial), é que acontecem os fenômenos transicionais, a capacidade simbólica, como o brincar, os jogos, a linguagem, o conhecer e o aprender. É também o campo dos fenômenos culturais, como a arte, a religião e a ciência.

Os objetos subjetivos e fenômenos e objetos transicionais constituíram-se em ponto de partida para que Winnicott reconhecesse a relevância do brincar na infância.

Para Winnicott (1975a), a experiência do brincar equivale ao uso do objeto transicional pela criança. Esse objeto simboliza a união do bebê e da mãe, que agora estão separados. Segundo o autor, o brincar vai se desenvolvendo e posteriormente se torna possível o uso do simbólico na brincadeira. No brincar é possível controlar as angústias, bem como a expressão de impulsos agressivos e conflitos, já que esse meio é conhecido e seguro, não havendo risco de retaliação.

Winnicott (1975a) afirma que o brincar tem um lugar e um tempo, que não está nem dentro e nem fora, brincar é fazer. Buscando dar um lugar ao brincar, o autor postula a existência do espaço potencial entre o bebê e a mãe.

Existe algo muito importante no brincar, que é a capacidade da criança ficar sozinha na presença de alguém. A criança precisa ter adquirido confiança e segurança de que é amada e que essa pessoa a quem ama é disponível e permanece disponível quando é lembrada, após ter sido esquecida.

E complementa, dizendo que o brincar satisfaz, mas quando leva a um alto grau de ansiedade, fica insuportável e destrói a brincadeira. Segundo o autor, o brincar tem um ponto de saturação, que tem a ver com a própria capacidade de conter a experiência.

Em relação à psicoterapia, Winnicott (1975a) comenta que é um espaço em que o terapeuta e a criança brincam juntos, e que não seria possível existir o trabalho da terapia sem o brincar. E se a criança não é capaz de brincar, então o terapeuta precisa dirigi-lo no sentido de proporcionar condições para que o paciente seja capaz de brincar.

Winnicott (1975a) afirma que apesar de o psicoterapeuta em geral trabalhar com o material que vem do conteúdo da brincadeira, o brincar é mais amplo do que isso. O brincar é antes de tudo uma experiência criativa que se realiza na continuidade do espaço-tempo e que se mostra entre o subjetivo e o objetivo. O autor comenta que é importante o psicoterapeuta ter consciência disso e compreender que o brincar é uma experiência real e intensa para a criança.

O autor acredita que a psicoterapia poderia ser muito profunda sem a interpretação e comenta sobre seu trabalho de “consultas terapêuticas”. Ele fala que o mais importante para a interpretação do analista é o momento em que a própria criança se surpreende consigo mesma; esse sim é um momento significativo. Ele pede atenção ao trabalho da interpretação,

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pois se ele é realizado fora do tempo da criança se torna invasivo, gera doutrinação e submissão.

Um dos aspectos importantes que Winnicott (1975a) ressalta é o estado de alheamento em que a criança se encontra no momento em que brinca, que se assemelha à concentração das crianças mais velhas e dos adultos.

Outro ponto é que a criança utiliza objetos da realidade externa que estão a serviço da realidade interna. Nessa perspectiva, o brincar se torna semelhante aos sentimentos oníricos.

Existe uma evolução dos fenômenos transicionais para o brincar, do brincar para o brincar compartilhado, e deste para as experiências culturais. O brincar pertence ao espaço potencial que no início existia entre o bebê e sua mãe, no momento em que o bebê tinha uma dependência quase que absoluta da mãe.