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Ao lado da percepção da organização como um espaço em que a tensão é permanente e que o contato com a realidade do mercado de trabalho é cruel, como se viu em tópico anterior, chama a atenção a fala de um dos depoentes:

A sala de aula é uma coisa mágica, eu sou apaixonado com a sala de aula. (DEPOENTE 26).

Apesar dessa exaltação da sala de aula, os profissionais acostumados com a vida nas empresas, sentem falta de avaliações. Ao mesmo tempo em que esse é um elemento desencadeador de estresse, é também um elemento reassegurador: a avaliação não só revela o perfil do profissional, indicando-lhe o que deve melhorar para ter melhor desempenho e competência, como também o posiciona em relação aos demais profissionais da mesma

organização. Um dos depoentes reclama da falta de avaliação na escola e destaca sua importância para o professor:

Há sete meses que eu estou na direção e não houve avaliação ainda... não houve um

feedback avaliativo com pontuação, com aspectos positivos e negativos […]; essa

avaliação de cada disciplina que o professor termina, no decorrer da disciplina, um

feedback para o professor saber como está indo é uma forma de corrigir, de

melhorar, de modificar todo o seu modo de agir. (DEPOENTE 01).

[...] a avaliação dentro da organização é o seu gerente, é a pessoa que tem relação direta com você; são os seus pares que te avaliam, você se avalia, então você faz quase uns trezentos e sessenta graus que é uma coisa que, que tenta obter certa convergência. E quando não há convergência, isso também é um feedback para quem se avaliou, para ver que está havendo certa divergência. Aqui, a gente não tem esse parâmetro, então eu acho fraquíssimo, friso, fraquíssimo o sistema, porque ele não permite que eu me avalie, eventualmente eu tenho uma partezinha do sistema aqui, que eu me avalio, mas é uma coisa irrisória. (DEPOENTE 22).

Os dois depoimentos reforçam a necessidade de avaliação dentro da academia, uma vez que não há feedback para os professores. O que se percebe nas falas é uma crítica à gestão da academia que não incorporou sistemas de avaliação tão frequentes e sofisticados quanto os das empresas. Por outro lado, a avaliação discente é vista como contendo aspectos positivos e negativos. Positivos porque são feitas pelos alunos, com os quais os professores têm um contato direto, e aos quais precisam dar uma resposta pelos investimentos feitos. Negativos porque os alunos podem usar critérios não muito claros e prejudicar professores.

Eu já vi, não foi meu caso, porque as minhas avaliações têm sido até boas, de um modo geral, ao longo desses anos que eu estou na escola, mas já vi gente sendo efetivamente injustiçada por alunos não comprometidos. Então, eu acho que a falha está no sistema de avaliação. (DEPOENTE 22).

Acho que só no que diz respeito à avaliação do aluno depende muito porque se você... Nós que fomos alunos também, sabemos: se eu for o líder na sala e eu quiser detonar o professor, eu faço a turma detonar o professor e o professor pode ser excelente. Então, avaliação de aluno é o menos importante nessa história. (DEPOENTE 29).

[...] sim, porque aqui eu estou numa carreira de hierarquia. Lá eu era o topo da hierarquia, aqui não. Então, vai ter sempre um superior que vai estar me avaliando, esteja dando feedback ou não, mas está me avaliando; existe um superior para avaliar e existe um mercado, que aí sim é comparável com minha carreira técnica. Eu preciso dar uma resposta ao meu cliente e aqui eu tenho que dar resposta também ao meu aluno. (DEPOENTE 29).

Dei aula na Engenharia de Produção, sempre lecionando Marketing e tive a felicidade de ser reconhecida pelas quatro turmas, sendo paraninfa das quatro turmas e tendo 100% de avaliação delas também. (DEPOENTE 13).

Há, contudo, depoentes que destacam a avaliação acadêmica como mais extensa e profunda que a avaliação da organização, no que tange à produção científica, uma vez que, na academia, é preciso produzir intelectualmente, dando aulas e escrevendo artigos. Eles consideram a avaliação de desempenho como uma necessidade, mesmo que ocorra de forma esporádica ou parcial, se feita apenas por alunos. O que se percebe na fala de alguns depoentes é que as faculdades em que atuam estão adotando critérios mais rígidos de avaliação, mesmo que muitas ainda considerem a avaliação discente como a principal e mais importante. Esses critérios mais rígidos estão migrando das organizações para essas instituições de ensino, como forma de melhorar a gestão.

O meu desempenho está sendo avaliado semestre a semestre; no primeiro semestre foi uma avaliação um pouco negativa, digamos assim, porque eu estava muito envolvido com outra instituição de ensino, o meu tempo era muito dividido e eu era muito inexperiente. Neste semestre eu já tive até o resultado de algumas avaliações que foram feitas e eu percebi que os meus índices de aceitação nas faculdades estão começando a melhorar, então eu acredito que o meu trabalho como docente e gestor está começando a ser bem avaliado. Também estou começando a me dar bem com a situação, como eu já estava sendo bem avaliado no passado, mas eu tenho que admitir que no semestre passado eu deixei um pouco a desejar. (DEPOENTE 27).

Eu acho que o cumprimento das normas, o cumprimento do conteúdo programado do curso, quer dizer, o nível de aprovação não é aprovar 100%, mas também não é reprovar 100%. Tem que ter um nível compatível nessa história. Eu acho que isso tem que ser levado em consideração [...] Eu acho que é um meio assim, não é tão fácil avaliar quanto é no mundo coorporativo. Acho que o professor é mais difícil de ser avaliado, mas precisa ser avaliado, não tenho dúvida nenhuma. (DEPOENTE 29).

Em termos de desempenho, a avaliação é feita pelos alunos, pela faculdade, então hoje em dia eu não acho que isso é um critério totalmente justo. Eu acho que existem muitos problemas em relação a isso também, mas na minha época como no Estado não havia avaliação de desempenho, eu acho que a avaliação de desempenho atual pelo menos permite uma reflexão. (DEPOENTE 25).

Eu tenho uma avaliação que é da pró-reitoria de graduação que faz um questionário com os alunos no final de cada semestre. Eu acho esse questionário bom; muito bom. Na verdade é isso, a gente planta, a gente colhe. (DEPOENTE 46).

Hoje o meu desempenho é muito avaliado em termos do que a turma pensa de mim. Então, se a turma agrada do meu trabalho, se os alunos agradam do meu trabalho, eu percebo que isso é o ponto usado pela coordenação para decidir se eu me mantenho ou não. Esse ponto vale mais do que qualquer outro na carreira acadêmica, pelo menos para mim; até hoje foi o ponto que mais pesou para me manter a onde eu estou. (DEPOENTE 21).

O que perpassa em todos os depoimentos é a ideia de que a sala de aula é “mágica”, isto é, é um espaço diferenciado em que se cumpre uma missão. Uma das depoentes, mesmo afastada por licença maternidade, foi avaliada, porque a coordenação do curso a julgava “comprometida”. Essa mesma depoente declara: “eu tenho muito orgulho de minhas avaliações”. O compromisso da professora é o que todos acreditam ter com a docência e que os faz participar das atividades escolares integralmente. As citações que melhor expressam o sentimento dos professores são as seguintes:

O que facilita o desempenho da minha atribuição atual de docente é o fato de eu acreditar que isso é uma forma de construir um sonho que eu acho que é melhor para a humanidade; então o que eu faço é por acreditar em uma missão. Eu não vejo a docência como uma forma de ganhar status, dinheiro ou outra coisa qualquer; eu vejo a docência como a única forma que eu consigo contribuir para a melhoria da sociedade. Esse é o grande facilitador porque eu faço aquilo que eu acredito que eu estou fazendo bem, eu faço aquilo que eu acredito que, para um conceito meu, é para uma sociedade melhor; esse é o grande facilitador. (DEPOENTE 4).

Porque, por ter ficado muito no trabalho, eu tenho uma missão particular minha; não tem nada a ver com religião nem política nem nada. Uma missão de dar uma melhorada nesse planeta, claro que no limite e de pé no chão, eu sei que eu sou uma parcela mínima pra contribuir, e aí eu acho que o aluno hoje é carente, carente de informação, carente de conhecimento, mas ele é muito mais carente de pessoas que o ouçam. E eu sou muito ouvinte dos alunos, eles me procuram no intervalo, e eu fico por conta, eu ouço, eu converso, eu discuto, então eu acho que essa contribuição falta, um professor que se aproxima do aluno para ele se abrir, e isso é necessário. E isso me motiva muito. Talvez por isso que eu vá migrando cada vez mais para a área acadêmica‟. (DEPOENTE 2).

Se a avaliação do trabalho docente é bem-vinda pelos professores, já a avaliação que fazem das suas condições de trabalho não é positiva. Isso parece indicar um descompasso entre a realidade e o sonho. Foram apontadas limitações para a obtenção de recursos e materiais necessários ao desenvolvimento das atividades docentes.

A desvantagem do setor acadêmico é a morosidade, a falta de recursos financeiros para a elaboração e a execução de projetos e o baixo investimento em tecnologia. (DEPOENTE 36).

No mundo empresarial, o ritmo é diferente, tudo é muito rápido; no acadêmico ela tem que mandar e-mail para um aluno, para outro, que manda e-mail para um terceiro. Existe uma morosidade na parte acadêmica que não existe em gestão, que é uma das coisas na qual ela está tendo que trabalhar sua paciência. (DEPOENTE 38).

Os pesquisados revelam interesse, apesar disso, em continuar o seu processo de desenvolvimento, por meio de outros cursos que lhes assegurem a sua permanência e o bom desempenho no meio acadêmico, sinalizando um estilo autodirigido de gestão de suas carreiras. Planejam, também, obter títulos mais elevados, como o Doutorado, no intuito de assegurar o seu processo de aprendizagem e ampliar suas oportunidades de trabalho.

O desafio no mundo acadêmico é o Doutorado. [...] Na academia, claro que você vai diminuindo as aulas da pós, você vai subindo de nível para dar aulas para um nível mais elevado de formação acadêmica. (DEPOENTE 39).

Eu priorizei o acadêmico e, por ter em vista o mercado de trabalho e por a gente estar na era do conhecimento, as oportunidades no acadêmico tendem a ser cada vez maiores. Tem desde a massificação do ensino na graduação, criticável ou não, mas é uma realidade, até investimento das próprias organizações em bancar cursos, em bolsas, em oferecer pós-graduação. A outra ponta que vai alimentar isso é o acadêmico. E acredito que outro ponto a favor para mim é continuar no acadêmico. (DEPOENTE 39).

PARTE II