metáforas de parentesco. Mostra ainda como os discursos de familiaridade e afinidade são destabilizados por conflitos derivados de diferenças nos salários, benefícios e oportunida- des entre profissionais brasileiros e moçambicanos e como a autoimagem dos brasileiros como amigáveis é contestado por moçambicanos que se sentem traídos pelo que conside- ram ser falta de compromisso e investimento na capacitação técnica e crescimento profis- sional dos moçambicanos.
Os dois trabalhos acima citados são apenas alguns exemplos que mostram como as pessoas do Sul Global são representadas por pessoas do Sul Global, como o poder permeia as suas interações no quotidiano e os mecanismos que os indivíduos adotam para lidar com tensões. A visibilidade de actores do Sul na “Cooperação para o Desenvolvimento” e o recurso a discursos identitários abriu caminho para colocar novas perguntas sobre o lu- gar das identidades nas teorias e práticas de desenvolvimento rompendo com a tendência dominante de apenas falar-se nas identidades e estilos de vida das pessoas abrangidas pelas intervenções de desenvolvimento.
Acreditamos que qualquer análise do passado, presente e futuro da “Cooperação para o Desenvolvimento” deve considerar: i) como os profissionais de desenvolvimento estão posicionados e se posicionam em múltiplas categorias sociais, cada uma com relações es- pecíficas com estruturas de poder que afetam as experiências individuais de discriminação e privilégio; ii) que sentidos atribuem a “Cooperação para o Desenvolvimento” e como estes se posicionam dentro de uma ‘indústria’ assente em hierarquias de conhecimento e estereótipos em relação aos países do Sul, onde incidem a maioria das intervenções da Cooperação para o Desenvolvimento; e iii) em que medida os seus discursos e práticas individuais reproduzem, subvertem ou reconfiguram as desigualdades de poder inerentes à indústria da “Cooperação”.
pria indústria da cooperação, intervém nas interações pessoais e profissionais (Ress 2015, Hatzky 2015, Taela 2017).
Na sua belíssima análise sobre como a retórica oficial acerca da Cooperação Sul-Sul era posta em prática no dia-a-dia da Universidade de Integração Internacional da Lusofo- nia Afro-Brasileira (UNILAB), Ress (2015) mostra que apesar de o objetivo da Unilab ser juntar estudantes e docentes dos países de língua portuguesa para trocarem, produzirem e disseminarem conhecimento juntos, tal não aconteceu porque a implementação privile- giou interpretações, objetivos políticos e valores centrados no Brasil e não reconhecia as capacidades e conhecimentos dos parceiros africanos.
De acordo com Ress (2015) por um lado os discursos dos fundadores da Unilab fo- ram sobre solidariedade, história comum e integração e as relações entre o Brasil e os países africanos eram apresentadas como mutuamente benéficas. Por outro lado, África era imaginada como um Outro ‘subdesenvolvido, um espaço de guerra, doença e caos e as desigualdades socioeconómicas e sociopolíticas da sociedade brasileira contagiavam as dinâmicas na universidade, a tal ponto que esta era percebida pelos estudantes africanos como ‘um espaço de alterização Othering sociocultural e racial e de marginalização eco- nómica (2015:210).’
Taela (2017) defende que os discursos de cooperação Sul-Sul reproduzem as hierar- quias de conhecimento, sistemas de expertise e formas de autoridade que estruturam a cooperação Norte-Sul (Kothari 2005, Peters 2016), através da criação de novas formas de conhecimento autoritativo4. Esta dinâmica é ilustrada com uma análise das interações, entre profissionais brasileiros e moçambicanos, dentro e fora do trabalho que mostra a cumplicidade de ambos com a indústria do desenvolvimento, através da reprodução de discursos sobre a relevância das experiências brasileiras e da necessidade de “assistência técnica” em Moçambique.
A análise sublinha que discursos de proximidade, afinidade e semelhança coexistem com discursos sobre desigualdades de poder e hierarquias, ambos articulados através de
4 O conceito de conhecimento autoritativo é usado em referência aos processos sociais de legitimação de conhecimento e aos diferentes níveis de autoridade que são conferidos às várias formas de conhecimento, conforme sublinha Jordan ‘o poder do conhecimento autoritativo não é porque é correto, mas sim porque conta (1997:56).’ Já Crewe e Harrison (1998) sublinham facto do conhecimento autoritativo ser geralmente ser baseado, mais na origem da pessoa do que no conhecimento em si.
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