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Em março de 1967, o advogado Gama e Silva, primo de Costa e Silva, foi nomeado Ministro da Justiça e Negócios Interiores, não sem antes instaurar e perpetuar a lógica do
expurgo, empenhado que estava em combater as impressionantes ―infiltrações de ideias
marxistas nos vários setores universitários, cumprindo sejam afastados daí os seus doutrinadores e os agentes dos processos subversivos‖286.
Como exemplo de ―terrorismo cultural‖ empreendido na universidade por Buzaid, o
mais íntimos dos colaboradores de Gama e Silva, ele perseguiu e solicitou a instauração de um processo contra o professor conservador Paulo Duarte, decano intelectual autodidata do Instituto de Pré-História da USP. Duarte, em entrevista concedida ao jornal A Gazeta em maio de 1965, alegara que ―‗o golpe de março-abril substituiu alguns dirigentes corruptos por alguns dirigentes formalmente honestos, mas a corrupção continuou e as punições recaíram apenas sobre alguns corruptos que não tiveram tempo de aderir‘‖287.
―Nesse ambiente precário, social e político, se os corruptos dele souberam aproveitar-se, também se aproveitaram os medíocres que cada vez mais iam perdendo as suas oportunidades entre nós, graças à Universidade‖. ―Os mais sanhudos agressores da universidade, os mais elevados expoentes do terrorismo cultural foram aqueles professores‖, acusou Duarte, que integraram:
As comissões de inquérito que apontaram mais de 50 universitários, professores e alunos, que deviam ser expulsos e terem seus direitos políticos cassados288
O ―Torquemada‖ brasileiro, expoente do alto clero integralista e exímio processualista, Buzaid foi quem apresentou a moção interna ao Conselho Universitário perseguindo Duarte que, malgrado um ferrenho crítico do governo Goulart, na década de sessenta acusou Gama e Silva, já reitor da USP, ―de desviar material do Fundo de Construção da Cidade Universitária para reformar a sede de sua fazenda no interior paulista.
Desnecessário dizer, Paulo Duarte seria uma das vítimas do AI-5‖289, ao lado de Caio
Prado Junior, Florestan Fernandes, Emília Viotti da Costa, Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Mário Schenberg, Octávio Ianni, Paula Beiguelman, Paul Singer, entre outros.
286 ADUSP. O Livro Negro da USP. O controle ideológico na Universidade. 1978, s.r., p. 16.
287 DUARTE, Paulo in ASSOCIAÇÃO DOS DOCENTES DA USP. O Controle Ideológico na USP (1964- 1978). São Paulo: Adusp, 2004, p. 35.
288 Ibid., p. 36.
83 Especialmente, a peça buzaidiana contra Paulo Duarte coarctava o decano professor para que se retratasse das críticas endereças contra os condutores do expurgo ideológico na
universidade por estes terem ―sempre inspirado os seus atos no mais elevado espírito de
justiça e no legítimo anseio de bem servir à Pátria‖:
A protérvia vituperativa do senhor Paulo Duarte, agredindo, injuriando e caluniando professores universitários elevados à Cátedra, por concursos de provas e títulos, reitores que contribuíram e contribuem decisivamente para a formação e projeção de nossa Universidade com méritos irrecusáveis e a digna Comissão de Inquérito (...) Aquelas insólitas acusações devem ser enérgica e rigorosamente repelidas, porque não constituem uma crítica fecunda, digna e construtiva, objetivando o progresso da Universidade, senão parte de um plano tático a fim de provocar dissensões e desencadear lutas entre Institutos e Faculdades que integram a Universidade.
Assim sendo, propomos que o Colendo Conselho Universitário desagrave:
a) A Comissão encarregada de proceder ao inquérito, manifestando-lhe reconhecimento e elogio pelo modo como se comportou, por ter sempre inspirado os seus atos no mais elevado espírito de justiça e no legítimo anseio de bem servir à Pátria.
b) E, igualmente, os Magníficos Reitores que tantos serviços prestaram à cultura brasileira na direção da vida Universitária e na construção da Cidade Universitária.
Propomos também que o Magnífico Reitor mande instaurar devido processo contra o Sr. Paulo Duarte a fim de apurar as injúrias, calúnias e difamações, constantes de sua citada entrevista290
Respondendo com vigor ao ―inquisidor‖ Buzaid, atuando este em sincronia com
Gaminha, nas palavras de Érico Veríssimo, Paulo Duarte291 ―classificou os professores
reacionários ou acomodados de rinocerontes‖, escrevendo um livro intitulado O Processo dos
Rinocerontes (Razões de defesa e outras razões...)292.
O literato, apresentando as memórias de seu amigo Paulo Duarte, repõe que ―isso lhe valeu um processo, que Paulo enfrentou com lógica e bravura‖, sendo punido, injustamente, por reprovar de público, indignado, ―a atuação da Comissão de Expurgo da USP e a cassação dos direitos políticos de 53 universitários‖293.
Não, Kafka não é o homem para essa farsa, pois não se trata do absurdo dramático e sim do absurdo grotesco. O tema é para Ionesco294
290 BUZAID, Alfredo. Moção apresentada ao Conselho Universitário. In: ADUSP. O Livro Negro da USP. O controle ideológico na Universidade (1964-1978). São Paulo: ADUSP, 2004, pp. 36-37. A entrevista concedida para A Gazeta, publicada em 11 de maio de 1965, intitulou-se ‗Realidade Universitária – Professor denuncia: terrorismo cultural e cátedra vitalícia impedem desenvolvimento da USP‘.
291 Cf. DUARTE, Paulo. O Processo dos Rinocerontes (Razões de defesa e outras razões...) , s.r., 1967.
292 VERÍSSIMO, Érico. Apresentação. In: DUARTE, Paulo. Memórias. As raízes profundas. Vol. I. São Paulo:
Hucitec, 1976, p. XVII.
293 Ibid., p. XVII.
294 Ibid., p. XVII. Dramaturgo romeno, Ionesco começou a escrever, em 1948, ―a peça ‗A Cantora Careca‘, que
estreou em 1950. Esta anti-comédia, plena de surrealismo verbal, foi uma das principais peças do chamado ‗teatro do absurdo‘. Seguiram-se várias outras peças, que marcaram o teatro do século 20, como ‗A Lição‘, ‗As Cadeiras‘ e ‗O Novo Inquilino‘. Em 1960 estreou sua obra mais conhecida, ‗O Rinoceronte‘‖. In: Pedagogia & Comunicação, Biografias, Uol Educação, p. 03. Ressalva de Sábato Magaldi: ―O desespero ionesquiano não era,
84 Historicamente, esse absurdo grotesco rondou e encarnou, como ―fogo amigo‖, as cisões da chamada Quadra Sombria da FDUSP, em seus anos rinocerizados. Precisamente em fevereiro de 1969, opuseram-se prática e ideologicamente, de público, dois antigos aliados irmanados, sob as Arcadas do Direito, desde os anos trinta pelo integralismo de Plínio Salgado, cindindo aquela mocidade brilhante a que se referiu o Chefe Nacional do Sigma em tributo ao Largo São Francisco.
Em 1969, dirigindo-se à Congregação da FDUSP presidida por seu diretor Buzaid, já consagrado ―inquisidor‖ pelo que se mostrou capaz de fazer na ―operação limpeza‖ e por meio da institucionalização da lógica do expurgo político e do terrorismo cultural universitário, conclamava Goffredo Telles Junior a seus pares, arrependido, para que fizessem ―um cuidadoso exame de consciência‖.
―Erigimo-nos em oráculos do verdadeiro‖ e, advertia o docente, ―melhor teria sido
respeitar a opinião dos que não pensam como nós‖295.
Contudo, ―a luta extremou os partidos‖, ―as posições se radicalizaram‖, ―e alguns de nós, se não me engano, nem sempre se contiveram dentro dos limites da prudência e do razoável‖296. ―Não permitamos que se apodere de nós a mentalidade, rasteira e mesquinha,
dos vingativos e dos perseguidores‖, ―a procurar motivos para prejudicar os que não concordam com nossa política. Não nos deixemos dominar pela mania punitiva‖297.
A advertida radicalização das posições, bem como o instaurado regimem obscurantista ―de natureza fascista, que ninguém está disposto a tolerar‖298, imputou ao velho
professor integralista, querido entre certos alunos, o ―crime‖ de ser marxista ou comunista. ―Venho acusar este crime contra o pensamento, que está sendo praticado, em larga escala, com leviandade e perseverança, em diversos setores desta Faculdade‖, acusava, então, Goffredo Telles Jr. ―Tenho sido vítima de tal atentado. Fui tachado de marxista, comunista, ativista. Fui acusado de fomentador da desordem. Houve quem me culpasse de organizar células subversivas. Cheguei a ser apontado como pivot de cisão em nossa grei‖299.
porém, paralisante. Ele nunca deixou de denunciar as imposturas, onde quer que elas se apresentassem. ‗Os Rinocerontes‘ nasceu de um propósito de sátira ao nazismo, ampliada para converter-se em condenação das histerias coletivas. Os homens, tomados pela massificação, se transformam paulatinamente em rinocerontes. O procedimento dramatúrgico lembra o da proliferação das cadeiras ou, em ‗O Novo Inquilino‘, dos móveis. Sozinho no mundo ‗rinocerizado‘, Béranger grita o seu inconformismo: ‗Eu sou o último homem, e permanecerei homem até o fim! Não capitulo!‘. MAGALDI, Sábato. Ionesco sereno. In: Folha de São Paulo.
295 TELLES JUNIOR, Goffredo. Pronunciamento. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Volume LXIII, 1969, p. 401.
296 Ibid., p. 402. 297 Ibid., p. 403. 298 Ibid., p. 404. 299 Ibid.
85 Todavia, defendia-se o professor da FDUSP desse absurdo grotesco ionesquiano de
um mundo rinocerizado em que despontava, como ―Torquemada‖, seu antigo aliado integralista Alfredo Buzaid. ―Aí está a minha vida. Aí estão meus livros. Luz de meridiana clareza revela os passos de minha singela existência. O que fiz de bom e o que fiz de mau, todos o sabem. Nada tenho de oculto‖300:
Que estranha impressão me causa a necessidade de vir eu perante Vossas Excelências para proclamar: ‗Não sou marxista, não sou comunista‘! Quem não conhece o invariável sentido de todas as minhas campanhas políticas? Como posso eu ser marxista e comunista, se minhas ideias são as que acabam de ser expostas em meus dois últimos livros? Como posso eu ser marxista ou comunista se acabo de proferir, no Curso de Especialização301, uma longa série
de aulas sobre o Estado Socialista, nas quais mostrei, em análise minuciosa, os motivos doutrinários de minha oposição às instituições soviéticas?302
Goffredo, em crítica escancarada a Buzaid, antigos companheiros integralistas do grupo de jovens das Arcadas estreitamente ligados a Plínio Salgado, assinalava, ―a bem da exatidão, que meu antimarxismo, meu anticomunismo não é, certamente, a atitude cômoda de quem se deixou envolver pelos laços do capitalismo, e seduzir pelas indolências da mentalidade burguesa. Não sou anticomunista porque goste da vida burguesa ou porque seja mandatário de capitalista‖303.
Embora ligado por laços antigos à burguesia e ao capitalismo de meu País, sou contra o sistema capitalista e burguês304
Nessa ilusão goffrediana, vale a ressalva que, ―assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas históricas deve-se distinguir mais ainda as frases e fantasias de si do que são na realidade‖305.
Retomando Goffredo Telles, para quem, ―nesse ponto, continuo na posição em que sempre estive, desde a minha juventude‖306, repõe-se aquela regressividade ideológica
anticapitalista e anticomunista entranhada no ideário antiliberal e antimarxista pliniano, sob o eco da utópica promessa de congraçamento das classes advinda da doutrina social da Igreja de Roma:
Continuo na posição que me foi inspirada pela Rerum Novarum e pela Quadragesimo Anno e que, agora, foi revalorizada pela Mater et Magistra, pela Pacem in Terris e pela Populorum
Progressio. Continuo na posição que me foi a de Miguel Reale, em seus livros A Formação
da Política Burguesa e o Capitalismo Internacional. Na posição que foi a de Alfredo
300 Ibid., p. 405.
301 Goffredo Telles Junior refere-se, aqui, ao insuficientemente estudado Curso de Especialização Marxismo e Cristianismo inaugurado pela FDUSP em 1962, articuladamente com a conspiração do complexo Ipês/IBAD, com aulas ministradas por esse ícone integralista, ainda, note-se bem, em 1968.
302 Ibid. 303 Ibid. 304 Ibid.
305 MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 349.
306 TELLES JUNIOR, Goffredo. Pronunciamento. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Volume LXIII, 1969, p. 405.
86 Buzaid. Não se veja, portanto, no meu anticapitalismo, na minha oposição ao espírito burguês, nenhuma novidade307
―Não sou marxista, nem comunista‖, já que ―é falsa a separação, feita pelo Materialismo Dialético, entre matéria e consciência‖308, justificava-se Goffredo Telles diante
da mania punitiva que o incriminaria como suspeito de ―inimigo‖ do Estado ―revolucionário‖ instituído em 1964, inclusive, com seu apoio ideológico democrático-corporativista. Logo afloradas, em poucos anos, as cisões na grei da secular Congregação Jurídica, propriamente, no auge da quadra sombria da história recente da FDUSP.
―Vossa Excelência, Senhor Diretor, e todos nós em torno de Vossa Excelência – e também, certamente, o Excelentíssimo Senhor Ministro da Justiça, Professor Luís Antônio da Gama e Silva, que sempre foi considerado como um dos mais ilustres e mais queridos mestres desta Casa –, todos nós aqui estamos, como sempre, irmanados sob as velhas Arcadas, para cumprir nosso dever‖309.
Todavia, para Goffredo, ―a doença de que padece a nossa Academia é uma doença espiritual‖, estocando, ainda, o imperativo categórico goffrediano, em cheio, a figura de Buzaid: ―Encarnar a alma da Academia!‖, ―que aspiração, para um Diretor! Vejo a Faculdade arrastar-se tristemente, mais desiludida do que nunca. Falta-lhe o calor da ordem amada. Uma onda subversiva lhe impôs uma paz de geleira‖310.
―Ela precisa ser galvanizada‖, lastimava-se Goffredo311 diante do bloqueio histórico
daquela FDUSP tão sonhada por ele, qual seja, ―completa e perfeita, na liderança revolucionária do pensamento brasileiro‖312.
Por ora, reiteramos que Buzaid, o mais íntimo dos colaboradores do professor Gama
e Silva, acompanhou-o de maneira sincronizada nas atividades repressivas do Magnífico
Gaminha – caso raro de trânsito repressivo entre reitoria universitária e ministério de Estado.
307 Ibid., p. 406. 308 Ibid. 309 Ibid., p. 411. 310 Ibid., p. 412.
311 ―Tínhamos o Goffredo da Silva Telles, que eu não posso dizer que fosse de esquerda ou de direita, ou de
centro. Ele era meio complicado, sabe? Foi integralista e tudo, e tal. Era integralista mesmo, certo? Depois escreveu a Carta aos Brasileiros. Boamente foi ficando de esquerda, com o tempo. Porque vocês vão perceber que muita gente de extrema direita, na época... Hoje, por causa das mud anças no país, ficaram de extrema esquerda, viu?‖. ENEI, Virgílio Egydio Lopes. In: SPIELER, Paula & QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo (Coordenadores). PAYAR, André Javier Ferreira et al (Pesquisadores). Advocacia em Tempos Difíceis: Ditadura
Militar (1964-1985). Curitiba: Projeto Marcas da Memória (Comissão de Anistia/Ministério da Justiça) & FGV- Direito (Rio de Janeiro/São Paulo), 2013, p. 777.
312 TELLES JUNIOR, Goffredo. Pronunciamento. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Volume LXIII, 1969, p. 412.
87 Ao analista político Carlos Castello Branco, pareceu-lhe Gama e Silva, também, ―uma personagem de comédia extraviada num drama‖313.
Cooperando, à época, Buzaid e Gama e Silva com Miguel Reale, constituíram todos esses expoentes ipesianos e quadros catedráticos da FDUSP um plantel de juristas e ideólogos orgânicos da autocracia do capital atrófico ipesiano que se mostraram ciosos, historicamente, pela segurança e projeção institucional-legislativa de suas carreiras e doutrinas juspolíticas, dentro e fora da universidade pública, servindo à ditadura militar bonapartista e dela se servindo, justamente, na fúria legislativa dos ―anos de chumbo‖.
Todos compuseram, precisamente, os esforços conjuntos de institucionalização da dita ―Revolução‖ de 1964, justamente, em sua fase ―dinamizada‖ pela radicalíssima linha- dura autocrático-burguesa bonapartista. E mesmo no avançado ano de 1969, escancarado o teor ditatorial da dita ―Revolução‖, Buzaid afiançava em solenidade na Congregação Jurídica, ainda como Diretor do Largo São Francisco, que, ―nesta hora, em que um vendaval demolidor procura abater os valores da tradição, a Faculdade de Direito os cultua sem reserva, certa de que a sua defesa representa ao que há de grande na história do Brasil‖314.
313 ―Conforme pilhéria da ‗coluna do Castello‘, no Jornal do Brasil, Gama e Silva era ‗uma personagem de
comédia extraviada num drama‘‖. CAMPOS, Roberto. A Lanterna na Popa. Memórias. Volume II. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994.
314 BUZAID, Alfredo. Jubilação sem júbilo. In: Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
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