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Outra das associações do centro histórico é o Grupo Desportivo Oliveira do Castelo, criado em 1977, cujo objectivo inicial foi a ocupação dos tempos livres. Dava apoio a equipas de atletismo federado, masculinas e femininas e mais tarde de ténis-de- mesa também federado. Segundo o seu vice-presidente, D. S., “Actualmente não há

qualquer actividade desportiva federada. Podíamos ser fortes nas modalidades mas tínhamos que sair daqui. Aqui não temos espaço. O edifício é da Câmara, é uma cedência”. Diariamente vinte pessoas frequentam a associação mas ao fim-de-semana

triplica. A colectividade continua a animar-se com festas ao longo do ano: aniversário da colectividade, Natal, Passagem de Ano, Carnaval e aniversários dos sócios. “Se não

estivéssemos aqui haveria mais vandalismo. A Câmara tem consciência desse valor. É muito importante existir uma associação como esta aqui no centro. Tentamos ocupar as gentes do burgo para evitar que andem na droga. Nós aqui quando vemos alguma coisa intervimos logo. Esta missão vai caber à Polícia Municipal”. Quanto a mim, tenho

dúvidas que este organismo- a Polícia Municipal- desempenhe tão eficazmente essa função moralizadora como a associação, cujos princípios assentam no voluntariado e participação social e não na vigilância e repressão.

Durante muitos anos a colectividade organizou as festas de S. Pedro na Praça de Santiago, sendo substituída pela Câmara Municipal, que, regularmente, anima agora o centro histórico. “Tivemos que deixar por causa do Verão Vale a Pena...”, diz D. S., para quem a requalificação e a posterior classificação de Património da Humanidade implicaram, em vários aspectos, a perda de “alguma graça e um pouco de liberdade”. A impossibilidade de organizar uma festa popular numa das praças mais centrais e mais densamente habitadas como a Praça de Santiago, foi certamente sentida como uma limitação, com grandes reflexos na dinâmica interna desta colectividade que ficou a partir de então confinada aos limites da sede, perdendo esse contacto privilegiado com o espaço social e vendo os seus princípios de participação mais reduzidos. Nas sociedades modernas como nas rurais, as festas populares não são unicamente momentos de transgressão e prazer mas modos de consolidar laços sociais através do exercício de uma solidariedade mais intensa. Substituindo as associações, a Câmara Municipal- consciente ou inconscientemente- limitou este exercício a partir do momento em que passou a organizar quase todos os eventos culturais e festas no centro histórico. Para D. S., que nasceu e morou no centro histórico até casar, a classificação de Património da

Humanidade foi, no entanto, “uma grande alegria pessoal”. Por isso “É um orgulho

dizer em qualquer lado «Eu nasci no centro histórico», mas já antes usava o sítio onde morava como cartão de visita, para o bom e para o mau. Se me apresentava a raparigas dizia que era mesmo da cidade, do centro, para me distinguir dos das aldeias. Com os rapazes dizia que era da Praça de Santiago para me terem medo...”.

Os “20 Arautos”, como é conhecida, é outra das associações do centro histórico. Criada em 1926 “por um grupo de jovens que discordavam do costume de usar a taberna como centro de reunião das camadas populares, onde se viciavam no álcool, no jogo e, até, na violência de alguma facada” e “norteados por um desejo de dignificação pessoal e social”, está sediada desde 1952 na Rua Gravador Molarinho, com o nome de “Grupo Cultural e Recreativo 20 Arautos de D. Afonso Henriques”, altura em que “viveu uma época de importante actividade cultural, realizando inúmeras palestras e conferências com personalidades notáveis”77. O seu presidente, J. T., lamenta, no presente, a perda de dinâmica a que assiste desde há alguns anos: “A associação tem

cada vez menos gente. Neste momento há uns 15 sócios a pagar. Não dá para pagar os jornais e a água. Há 4 anos havia bailes ao Domingo à tarde, desde as 3 às 7 horas. Chegavam a estar 200 moços e moças aqui, que era bom para não andarem na droga. Começou a haver confusão, barulhos. Às vezes andavam à porrada. Acabámos com isso”. Em parte, atribui o desinteresse, sobretudo dos mais jovens, à falta de qualidade

de instalações e deficientes recursos culturais, desportivos e de entretenimento. “As

colectividades deviam ser subsidiadas, é preciso dinheiro. Se houvesse mais oferta vinham mais jovens. É um círculo vicioso. Se não houver qualidade as pessoas não aderem .É por isso que já não adere tanta gente como há anos”.

A associação continua a abrir as portas diariamente, tem um pequeno bar em actividade- abre ao almoço e à noite- onde assisti à rotina de jogos de mesa. Parceiros? Os habituais: alguns reformados, sócios e amigos de longa data. As sociedades de cultura e recreio, ou colectividades, sendo organizações formalizadas, espontaneamente criadas por grupos de indivíduos e caracterizadas pela voluntariedade de pertença dos seus membros, constituem núcleos importantes de sociabilidade de bairro, diz Graça Cordeiro (1991), a propósito de uma pesquisa sobre sociabilidades urbanas e associativismo realizada no G.I.L.C.O., “uma das muitas associações recreativas e

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culturais que surgiram no período de implantação da República e que pretendiam criar e difundir a «cultura» por um povo maioritariamente analfabeto” (Cordeiro, 1991: 205).

“Melhor que isto não há [diz J. T.]: joga-se aqui ténis de mesa, dominó, cartas,

futebol num campo alugado”. Aparentemente, para os jovens há: são os bares e

esplanadas das praças ali à volta. E até os mais velhos se afastaram, entretanto, do objectivo inicial, a actividade cultural. Sobre isto, diz ainda Graça Cordeiro (1991: 219): “A vida real do interior das sociedades recreativas, o convívio do jogo e da bebida, as festas e bailes familiares e vicinais, está em maior continuidade com outros espaços urbanos, do que com a «razão de ser » idealizada das associações, como se um «estilo de sociabilidade» se tivesse apropriado e invadido o espaço associativo como lugar alternativo ao desaparecimento de outros (tabernas, retiros, ruas, praças, mercados)”.

Prova de voluntarismo e empenhamento dos seus sócios, a associação mantém a organização das Comemorações do 1º de Dezembro, desfile muito participado e que envolve várias outras colectividades, tornando mais vasto o espaço de relacionamento social78. J. T. descreve-a assim: “Temos um roupeiro que foi a Câmara que ofereceu,

feito pelo Moncho [Rodrigues] quando cá esteve. A organização das Comemorações é uma parceria com a Câmara. Depois no desfile participam os Trovadores do Cano, que tocam, a Sociedade Musical, duas tunas da Universidade, a Associação Artística e individualmente, quem quiser. No fim do desfile há aqui comes e bebes. Pode vir toda a gente, mesmo quem não assistiu ao desfile. Às vezes saímos daqui às 6 ou 7 da manhã. Há uma adesão popular cada vez maior. A Rua Nova fica toda enfeitada. São duas senhoras que organizam: basta estas duas dizerem que toda a gente participa. São subsidiadas indirectamente, pela Câmara [a associação dá-lhes dinheiro para as

despesas e a Câmara fornece alguns materiais]”.

Vários aspectos sobressaem destes relatos (9.1, 9.2, 9.3) da actividade associativa do centro histórico que me importa salientar. De um modo geral, a crescente ocupação dos espaços urbanos reabilitados não trouxe às associações mais dinâmica e actividade que aquela que desenvolviam até à requalificação e à classificação de Património da Humanidade. Aquilo que é programado para espaços públicos tem cada vez mais adesão- caso do cinema ao ar-livre, do cortejo do 1º de Dezembro ou das procissões e festas organizadas na Rua Egas Moniz- mas as sedes das associações

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As associações “constituem-se como autênticos nós de redes de inter-relações, individuais e institucionais, criando fluxos de comunicação entre diferentes zonas da cidade” (Cordeiro, 1991: 218).

perderam importância como lugares de intensa sociabilidade, de ocupação de tempos livres e de vida colectiva por falta de condições materiais e oferta limitada em termos de programação cultural. A frequente organização de espectáculos no centro histórico por parte da Câmara Municipal, atraiu um público cada vez menos identificado com os seus aspectos sociais, exigindo simplesmente qualidade e profissionalismo e afastou, em grande medida, a presença das associações que deixaram de poder competir nessas circunstâncias. Aconteceu isto com algumas festas tradicionais- por exemplo, S. Pedro- que foram substituídas por espectáculos integrados no Verão Vale a Pena..., organização da Câmara.

Numa zona urbana caracterizada por fáceis relações de vizinhança e intensa interacção social, poder-se-ia, por isto mesmo, manter a actividade das associações como há décadas atrás, escapando à superficialidade com que muitos contactos se dão actualmente nos meios urbanos79? Provavelmente não, mas a actividade das associações foi, no entanto, referida por todos os dirigentes como fundamental para a vida do centro histórico: movimenta largos e ruas, previne o vandalismo, atrasa a desertificação, divulga cultura, entretém e educa. E junta as pessoas de uma forma que tende a perder pertinência na vida social quotidiana das sociedades modernas uma vez que mantemos com os outros laços cada vez mais impessoais e descontextualizados, com excepção dos que têm por base a família e o trabalho: “Particularmente em muitos cenários urbanos, interagimos mais ou menos continuamente com outros que não conhecemos bem, ou que não conhecemos de todo- mas essas interacções assumem a forma de contactos relativamente fugazes” (Giddens, 1996a: 56).

A presença e manutenção das associações continuam importantes como espaços privilegiados de sociabilidades que se constróem e mantêm pelas afinidades mais diversas- socioculturais, espaciais, históricas, religiosas ou comportamentais- mas igualmente como espaços de debate, análise e intervenção mobilizadores, que incitem à participação e reivindicação, condições fundamentais da prática da cidadania. O encontro em espaços independentes do poder político e dos seus interesses pode ser a forma mais eficaz de criação de uma opinião pública actuante que apresente modelos e discursos próprios, sejam eles políticos, estéticos, éticos, culturais ou patrimoniais.

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Para Castells o meio ambiente espacial não está na base da especificidade dos comportamentos e das representações: “Si las formas espaciales puedem acentuar o modificar ciertos sistemas de comportamiento, por medio de la interacçión de componentes sociales que se combinan en ellas, no hay independencia de su efecto y, por consiguiente, no hay ligazón sistemática de los diferentes contextos urbanos a los modos de vida” (Castells, 1991: 133).

9.4 Retrato de uma rua “à moda antiga”: trabalhar “por gosto” para