Por que o mundo não seque o método da não- resistência? Para que ele funcione é necessário merecer a defesa da Lei. Não adianta pedir justiça
quando estamos praticando injustiça. A Divina Providência.
Explicamos no capítulo precedente o significado, a razão profunda e as vantagens do método da não-resistência sustentado pelo Evangelho. Terminamos nossa conversa com esta pergunta: Por que o mundo ainda não compreende a utilidade deste método de vida e não o segue? Observemos agora as razões deste fato.
O sistema do Evangelho, poder-se-ia dizer, funciona a longo prazo por ser de longo alcance. O sistema do mundo,pelo contrário, funciona a curto prazo e é de curto alcance. Isso é lógico,porque neste segundo caso, tratando- se de um plano de vida menos evoluída,tudo nele é mais limitado no tempo e no espaço. Isso também corresponde à forma mental do homem prático, que percebe só de perto, como os míopes, e se julga positivo e adaptado à realidade porque enxerga só as coisas concretas e os efeitos imediatos. Esse tipo de homem tem pressa de algo realizar, porque seu mundo é o caos, e no reino desorganizado da desordem nada de duradouro se pode construir, só há luta sem certeza alguma do amanhã. Esse homem está fechado na sua psicologia de nível sensório e por isso cheia de ilusões nas quais acredita cegamente; ele ainda não possui a inteligência de nível especulativo, que possa orientá-lo com o conhecimento das causas primeiras e do funcionamen- to orgânico do todo. Por estas razões, o mundo não pode ainda compreender a utilidade desse novo método de vida que aqui explicamos e, por conseguinte, não o pratica.
Mas, não o pratica também por outra razão. Nas mãos do homem comum, o método do Evangelho não funciona, porque ele não sabe fazê-lo funcionar. Para que isso seja possível, é necessário a execução de todas as condições estudadas e indispensáveis. Para que, em relação a nós, possa funcionar a Lei da justiça, é preciso antes de tudo nos coloquemos dentro da justiça desta Lei e não fora dela. Isso quer dizer: com nossa inocência merecemos a defesa da Lei, mas com nossa culpabilidade merecemos que a Lei nos golpeie. Para poder reclamar justiça é indispensável viver no terreno da justiça. A Lei não pode funcionar em favor da injustiça. Ora, a Lei intervir para defender quem antes merece uma lição corretora, não é justiça, mas injustiça. Este seria, muitas vezes,o desejo do homem. Eis o problema: quando somos atingidos por uma decepção, podemos, porventura, ter a certeza de que ela foi causada somente por quem a provocou? Ou existe uma causa mais profunda: o me- recimento do golpe? Se o golpe foi merecido, a Lei terá de intervir contra nós e não a nosso favor.
Para a Lei funcionar a nosso favor é necessário que sejamos inocentes,e que não tenhamos dívidas a pagar. Mas, quem no mundo se encontra nestas condições? É por isso que o método da não-resistência do Evangelho na Terra é julgado utopia absurda. O homem julga com uma forma mental comple- tamente diferente. O que lhe interessa não é a justiça, mas impor seu interesse com a força. Outra psicologia não pode dominar num plano onde vigora a Lei da luta pela vida. Como pode a Lei defender o ofendido se, por outro lado, ele é um ofensor? Muitas vezes, reagimos contra o ofensor e nos alegramos quando chega sua punição por tê-lo merecido, advinda da própria Lei, que é justa; nesse momento em que estamos pedindo justiça, estamos, na verdade, praticando injustiça, e com isso merecendo punição da própria Lei. Como podemos exigir que os outros nos paguem suas dívidas, quando nós ainda não
lhes pagamos as nossas? Como podemos, no banco da justiça da Lei, criar e exigir créditos quando estamos cada vez mais cheios de débitos? Para que possa funcionar o método da não-resistência; é necessário primeiramente termos pago à justiça da Lei todas as injustiças que antes praticamos contra o próximo.
Ao recebermos uma ofensa, em vez de nos dirigirmos ao ofensor, deveríamos falar com Deus e com nós mesmos, para saber onde está a verdadeira causa da ofensa: se ela se encontra dentro de nós, em lugar de se encontrar nos outros. No método da não-resistência o problema está equacionado de uma forma completamente diferente da do mundo; em geral cada um prefere atirar a culpa sobre os outros ao invés de reconhecer-se culpado. Num sistema de justiça tal como é o da Lei, se esta nos golpeia, como se pode admitir que a culpa seja dos outros? De fato, se alguém vive de acordo com a justiça e recebe um ataque não merecido, a Lei, por si mesma, pelo seu princípio de justiça, defendê-lo-á, quando ele praticar o método da não-resistência, de modo que a reação não terá mais sentido. Ele já se colocou dentro do equilíbrio da Lei. Sendo justo, para que se realize a justiça, ele tem de ser protegido pela Lei, a qual o defenderá como sendo coisa sua, que faz parte do seu sistema. Só ao mundo pertence o erro de enredar-se no sistema desequilibrado de reações e injustiças recíprocas, num encadeamento sem fim, porque não se pode reequilibrar o desequilíbrio acrescentando novos desequilíbrios. E ao equilíbrio não se pode chegar a não ser pelos caminhos reequilibrastes da não-resistência.
Que acontece, então, quando o Evangelho apresenta ao homem este novo método de vida, o único que pode levá-lo à salvação, libertando-o do mal? Para quem pede a defesa, não da justiça, mas da injustiça, a Lei não funciona. Então, aquele método é loucura e o homem lhe vira as costas. Volta, assim, ao seu sistema, o da injustiça, da força, da luta. Volta às leis do seu plano animal e aos seus instintos inferiores. Recusa-se a fazer o esforço para evoluir e, assim,resolver seus problemas e libertar-se de seus sofrimentos. O mundo não quer aceitar o remédio que lhe foi oferecido para a cura dos seus males. Pre- ferir o próprio dano à própria vantagem, não é maldade. Não pode ser senão fruto da ignorância, da falta de inteligência. Mas, aí, então, está a dor provi- dencialmente encarregada de mostrar que a loucura não está no Evangelho, mas em nós, porque não queremos compreendê-lo.
Estamos reclamando justiça e não compreendemos que estamos recebendo justiça, mas na forma de sofrimento,porque a justiça pedida, muitas vezes, não e senão injustiça, isto é, justiça às avessas. Tal justiça só podemos receber em forma de sofrimento. A Lei quer nosso bem e não se pode chegar a ele acrescentando ao mal novo mal. A grande loucura do mundo é querer chegar à justiça pelos caminhos da injustiça. Assim, um regime social toma lugar de outro, mas são todos filhos dos mesmos enganos e violências. Vemos na realidade da vida os resultados desse método A justiça tem de ser absoluta e imparcial, e não consistir numa série de justiças relativas e partidárias, em função de interesses dos que as praticam. A Lei não pode estar sujeita aos egocentrismos individuais ou de grupo. Ela está acima de tudo isso, acima das nossas concepções e lutas.
Dissemos nos capítulos anteriores que iríamos falar sobre a Divina Providência. Trata-se de um fenômeno parecido com aquele que estamos estudando, sujeito também às suas regras. E nele também muitos não
acreditam porque em suas mãos não funciona, por não terem sido satisfeitas as condições necessárias. Então afirma-se que a Divina Providência não existe e, de fato, assim é para eles. Entretanto, ela continua funcionando para outros. Neste caso também se trata de um fenômeno a longo prazo e de longo alcance. A inteligência de muitos, porém, não vê senão o que acontece de um dia para o outro, e o que eles podem atingir com suas mãos. A maioria acredita viver no caos e procura agarrar no momento o mais que pode, não suspeitando que vive num universo orgânico, onde há de tudo, de sobejo e sempre a nosso dispor, se fizermos movimentos certos conforme as normas da Lei. Mas, a inteligência para chegar a esse nível ainda não foi conquistada. Viramos então as costas à Divina Providência, renunciamos a sua ajuda e voltamos às lutas do nosso mundo. Parece loucura que tanta gente tão astuta, espontaneamente renuncie a estas vantagens. Mas, desse modo se cumpre a justiça da Lei, da qual não se pode fugir. É da justiça: nada se pode ganhar sem ser merecido.
Já falamos sobre a Divina Providência em nosso livro A Nova
Civilização do Terceiro Milênio, Cap. XI. Enumeramos naquele livro as
condições indispensáveis para o funcionamento da Divina Providência. São as seguintes:
1) Merecer ajuda.
2) Haver, antes de mais nada, esgotado as possibilidades de suas próprias forças.
3) Estar, de acordo com suas condições, em estado de necessidade absoluta.
4> Pedir o necessário e nada mais.
5) Pedir humildemente, com submissão e fé.
Quem quiser aprofundar-se neste assunto em particular, encontrá-lo-á desenvolvido no livro e capítulo já mencionados.
Neste cap. XXII estamos discorrendo sobre esta grande realidade: a Lei de Deus que tudo rege. Procuramos ver as normas que dirigem o mundo moral, reconhecendo nelas a mesma exatidão das leis que regulam o mundo físico e dinâmico. Procuramos, assim, atingir uma orientação a respeito da nossa conduta de acordo com os métodos positivos da ciência, isto é, a lógica e a observação. O que aqui temos exposto satisfaz a razão, porque a Lei é também racional. Nossas afirmações baseiam-se sobre dois pontos fundamentais: 1) Uma teoria geral da estrutura e funcionamento orgânico do universo, da qual estas afirmações representam as conclusões práticas, de- rivadas daquela teoria. 2) Estas conclusões foram submetidas a controle experimental, isto é, são o resultado, como dissemos no começo, de meio século de experiência, a qual se poderia chamar de laboratório, porque foi executada no banco experimental da realidade da vida.
Como acontece a todos, que de qualquer maneira têm de movimentar-se e adotar uma conduta, nós também, percorrendo os caminhos da vida, não pu- demos deixar de tocar as teclas da Lei, e de receber, através dos acontecimentos, sua resposta. E nada melhor que os fatos tem o poder de convencer. Vimos, em verdade, o funcionamento da Lei. Podemos, assim,dar testemunho de que ela funciona, devolvendo-nos o que lhe entregamos, retribuindo-nos conforme o que merecemos. E não podemos acreditar, porque isso seria ilógico e injusto, que a mesma Lei não venha a funcionar da mesma forma para todos.
todos aqueles que se interessarem por estes conceitos, a experimentá-los, por si mesmos, a fim de realizarem, para sua vantagem, a mesma descoberta. Aqui se encontram explicadas as regras do jogo, para serem controladas, verificando-se se são verdadeiras. Nosso desejo não é, de maneira nenhuma, o de espalhar idéias em busca de seguidores. Falamos unicamente porque ficaríamos muito satisfeito se pudéssemos ver também os outros, apesar de se encontrarem no meio deste mundo feroz, obter os resultados maravilhosos, diríamos mesmo milagrosos, de satisfação interior e de sucesso prático, com que a Lei nos respondeu, e que, com a ajuda de Deus, nos permitiu alcançar.
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