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O recurso à memória e à oralidade tornou-se uma fonte central do meu trabalho e permitiu-me aceder a um conjunto de informações que não estavam presentes nos documentos escritos, podendo destacar: o fascínio que a revolução cubana e o guevarismo exerceram sobre os dirigentes das organizações armadas portuguesas; a importância e a influência das lutas emancipalistas dos povos do Terceiro Mundo; as correntes ideológicas que influenciaram cada uma das três organizações estudadas; a estrutura hierárquica, as divisões, tensões e problemas que foram surgindo no seio de cada uma delas; assim como aceder a expressões de sentimentos de medo, angústia, euforia, desalento, entre outros. Desta forma, as entrevistas revelaram-se uma fonte de riqueza histórica ainda que seja necessário confrontá-las com as fontes escritas, sempre que estas existam.

Quando falamos de memória temos de ter em consideração que ela é subjectiva, fica ancorada às impressões que os factos deixaram nos espíritos dos protagonistas e é sempre uma construção filtrada por conhecimentos adquiridos posteriormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento, por experiências que modificam a recordação. Como refere Fernando Rosas:

“A memória histórica dos factos sociais não é só nem principalmente uma faculdade psíquica de retenção ou convocação do passado. É um processo social de construção das representações e dos acontecimentos pretéritos e das suas causalidades, um processo complexo e frequentemente contraditório de tentar fixar um discurso interpretativo e, a esse título, um terreno de diputa pela hegemonia de distintas concepções, na realidade, acerca do sentido do presente e do futuro”78.

78ROSAS, Fernando, 2012, “Memória da Violência e Violência da Memória”, in GASPAR, Carlos, PATRIARCA, Fátima e MATOS, Luís Salgado (Org.), 2012, Estado, Regime e Revoluções. Estudos em Homenagem a Manuel de Lucena, Lisboa, ICS, pag. 271

MEMÓRIA – POTENCIALIDADES E INTERDITOS ENTRE OS DIRIGENTES DA LUTA ARMADA

88 Nas entrevistas efectuadas aos dirigentes das organizações de luta armada portuguesas verificamos que todos eles consideram a passagem por estas organizações como um dos acontecimentos mais marcantes da sua vida, como uma experiência única e da qual não se arrependem, mesmo que acentuem que só defenderam esta forma de luta porque ela estava inserida num contexto muito específico de luta contra um regime ditatorial e contra a guerra colonial.

É também comum a referência ao sentimento de medo, de receio que precedia a realização de cada acção, uma vez que havia sempre o risco de serem descobertos e presos ou de morrer. Afinal, aquele poderia ser, como disseram alguns entrevistados ―o último dia das suas vidas‖, mesmo que as acções tivessem sido detalhadamente planeadas79.

É interessante verificar a importância que cada um dos entrevistados dá aos acontecimentos. Factos que para uns foram importantes e são pormenorizadamente descritos nas entrevistas, são completamente esquecidos por outros e são comuns as divergências quanto a dados concretos (por exemplo, o nome e o número de presentes numa reunião) mas raramente são esquecidos os nomes ou os pseudónimos daqueles que participaram nas acções, o que permite ao historiador fazer uma listagem de todos os operacionais que participaram em cada uma das acções armadas.

Uma ideia corrente é que a adesão a organizações de luta armada pressupunha um certo nível de politização e de formação ideológica prévia. Porém, as entrevistas acabaram por revelar que nem todos os militantes destas organizações eram politizados ou tinham uma consciência ideológica definida. Na LUAR é facilmente identificável o grupo daqueles que não tinham qualquer formação política e militavam na organização porque ela era a única que lhes aparecia como capaz de fazer alguma coisa prática e concreta para derrubar o regime. Estes elementos, considerando-se antifascistas e contra a guerra colonial, mas consideravam-se sobretudo homens de acção. Como dizia Fernando Pereira Marques, um dirigente da LUAR, numa entrevista realizada em 2012:

“O Palma [Hermínio da Palma Inácio, principal dirigente da LUAR] era essencialmente um homem de acção e pouco um dirigente político embora tivesse ideias claras sobre o que queria fazer: unir esforços em torno de um projecto de acção directa que contribuísse para criar um clima favorável ao derrube do regime. Por isso, quando se recrutava para uma determinada estratégia que implique uma disponibilidade muito grande do ponto de vista de enveredar por acções perigosas, de arriscar a vida, não se pede um atestado de formação ideológica ou provas às pessoas. Quando eles apareciam eram bem-vindos embora isso também tivesse como consequência que tivessem entrado para a organização pessoas que só se interessavam pela acção em si e que estavam na fronteira entre o banditismo e a consciência política. Embora, alguns destes indivíduos, com este tipo de personalidades e motivações, acabavam por ser pessoas que sempre se comportaram condignamente dentro da organização”80.

É verdade que o recrutamento dentro da ARA e das BR era mais exigente do ponto de vista ideológico, e que na LUAR também existiam dirigentes e operacionais com preparação política, mas,

79Entrevista a Camilo Mortágua, Alvito, 3 de Outubro de 2012; Entrevista a Carlos Antunes, Lisboa, 17 de Julho de 2012; Entrevista Raimundo Narciso, Odivelas, 10 de Outubro de 2012

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89 pertencer a uma organização de luta armada implicava, antes do mais, estar preparado para realizar acções que punham em causa a própria vida.

As entrevistas também permitiram esboçar a rede de apoio que cada uma das organizações tinha no interior do país, salientando-se as ligações da LUAR e das BR ao grupo dos católicos progressistas e mesmo a alguns padres e seminaristas. Através das entrevistas consegue-se compreender melhor a radicalização de um sector do catolicismo português e as motivações destes para dar apoio a organizações que defendiam a luta armada81. Por seu lado, a ARA tinha a sua rede de apoio no Partido Comunista Português que lhe facultava armas, dinheiro, casas e sitíos para ―esconder‖ o armamento, chegando a haver um laboratório em Arruda dos Vinhos82.

As entrevistas também revelaram que existem alguns temas interditos dentro destas organizações, que os militantes têm alguma dificuldade em abordar. Um dos temas mais difíceis é a questão do financiamento das organizações. Comprar armas e material explosivo, planear acções, fazer treinos militares e manter uma estrutura de ―revolucionários profissionais‖ implicava que estas organizações tivessem recursos financeiros elevados. A ARA recebia dinheiro, armas e material explosivo do Partido Comunista Português que também financiou o treino de alguns operacionais em Cuba e na União Soviética. Porém, a LUAR e as BR não eram sustentadas por qualquer organização política nacional ou estrangeira, pelo que tiveram de recorrer ao que eles chamam de ―acções de obtenção de fundos‖, ou seja assaltos a bancos. Ficou célebre o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, realizado pela LUAR mas esta organização efectuou ainda assaltos a bancos e carrinhas de valores de bancos portugueses em França que nunca foram reivindicados e até hoje ainda não foi descoberta a autoria desses assaltos, pelo que os dirigentes entrevistados têm algumas reticências em falar deles83. Também as BR realizaram vários assaltos a bancos portugueses, alguns dos quais nunca reivindicados84. E Jaime Serra refere um assalto realizado pela estrutura das ―acções especiais‖ do PCP, que virão a dar origem à ARA, em 1966, e que nunca foi reivindicado85.

A questão dos assaltos a bancos coloca o problema moral de estarem a roubar dinheiro de bancos portugueses, ou seja, dinheiro do povo português, apesar de nunca ninguém ter ficado pessoalmente lesado com estes assaltos.

Outra questão delicada é a obtenção de armas, que na sua maioria eram roubadas ao exército português ou compradas no mercado negro. Sabe-se que a LUAR obtinha as armas na Checoslováquia, através de contactos estabelecidos com a direcção de uma fábrica de armamento deste país86. Porém, os dirigentes da ARA e das BR são vagos quanto a este assunto. Os da ARA apenas referem que as armas eram fornecidas pelo Partido Comunista Português que, provavelmente, as obtinha através dos seus

81Entrevista a Francisco Fanhais, Alvito, 18 de Julho de 2012; Entrevista Joaquim Alberto Lopes Simões, Riachos, 15 de Julho de 2012; Entrevista a Joana Lopes, Lisboa, 20 de Julho de 2012

82Entrevista Raimundo Narciso, Odivelas, 10 de Outubro de 2012

83Entrevista a Jacinto Rodrigues, Esposende,18 de Setembro de 2012; Entrevista Joaquim Alberto Lopes Simões, Riachos, 15 de Julho de 2012

84Entrevista a Carlos Antunes, Lisboa, 17 de Julho de 2012

85Cf: SERRA, Jaime, 1999, As explosões que abalaram o fascismo: o que foi a ARA (Acção Revolucionária Armada), Lisboa, Edições Avante

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90 contactos no exército87. E os dirigentes das BR somente dizem que tinham poucas armas, sendo muito vagos quanto à forma como as obtiveram88. Pode-se deduzir que algumas tenham sido roubadas ao exército português, outras compradas no mercado internacional de armas, outras obtidas através de ligações a organizações de luta armada europeias e africanas, porém, as referências a este assunto são sempre vagas. No entanto, sabe-se que as organizações de esquerda radical portuguesa obtinham armas através dos desertores das Forças Armadas que desertavam com armas e as entregavam a estas organizações a troco de ajuda na passagem clandestina de fronteira, pelo que esta seria outra forma de obter armamento.

Foi igualmente difícil compreender as ligações entre as organizações de luta armada portuguesas e as suas congéneres europeias. A posição assumida é que não havia qualquer tipo de ligação embora muitos dos dirigentes das organizações portuguesas tivessem vivido no estrangeiro e exercido actividade política nos países onde estiveram emigrados. Porém, é sabido que em finais de Dezembro de 1969, Hermínio da Palma Inácio, o principal dirigente da LUAR, esteve em Itália, onde a LUAR contava com o apoio do grupo Lotta Continua, organização de esquerda radical italiana, cujos dirigentes mantiveram relações com vários sectores da oposição portuguesa no exílio89. A LUAR, aliás, sempre procurou manter contactos solidários com organizações revolucionárias de vários continentes: em África manteve contactos com o PAIGC; na América do Sul, com os Tupamaros, no Uruguai, fornecendo a LUAR apoio logístico na deslocação dos dirigentes desta organização, sobretudo em França e na Bélgica; na Europa, com a ETA, no País Basco, a quem a LUAR forneceu os primeiros materiais de guerra e os contactos para a aquisição de armas na Checoslováquia, e com o grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, a quem dispensavam apoio logístico nas deslocações de militantes90. Por seu lado, as Brigadas Revolucionárias terão contado com o apoio do governo da Argélia, país onde estava sediada a FPLN, que terá facultado os meios técnicos e logísticos para que a FPLN continuasse as suas actividades após o afastamento do PCP da Frente e a aproximação desta às BR. Aliás, foi também na Argélia que alguns operacionais da BR foram receber treino militar em 197291. Por seu lado, a ARA, era um caso diferente, uma vez que era o ―braço armado‖ do PCP que mantinha relações com os outros partidos comunistas.

A via da luta armada para o derrube da ditadura em Portugal gerou discussões, debates e rupturas no seio da oposição portuguesa muito antes de terem surgido as primeiras acções armadas. É preciso compreender o aparecimento destas organizações num contexto muito específico de luta contra a ditadura e contra a guerra colonial. Em Portugal, os anos 60 e 70 foram marcados pela extrema violência. A guerra colonial marcava toda a sociedade e todos, directa ou indirectamente, sentiam a sua presença. Ou porque iam para a guerra, ou porque viam familiares, amigos, vizinhos, conhecidos a partir para a frente de combate, ou porque, apesar da censura, viam as imagens da guerra na televisão e/ou em

87Entrevista Raimundo Narciso, Odivelas, 10 de Outubro de 2012

88Entrevista a Carlos Antunes, Lisboa, 17 de Julho de 2012; Entrevista a Isabel do Carmo, Lisboa, 18 de Junho de 2012 89Entrevista a Camilo Mortágua, Alvito, 3 de outubro de 2012

90Entrevista a Camilo Mortágua, Alvito, 3 de outubro de 2012; IAN/TT – PIDE/DGS, Pr. pr. 9712 CI(2), vol. 1, U.I: 7572 - “Informação Relações da LUAR com a ETA”, s.d, fls. 53 a 55

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91 jornais. Para amplos sectores, principalmente os mais ligados às actividades da oposição, a reivindicação do fim da guerra marcava as suas actividades políticas e de contestação ao regime. Ao mesmo tempo, defendia-se o recurso às armas para derrubar um regime que teimava em permanecer imóvel e surdo aos anseios dos portugueses.

Resgatar a memória da luta armada em Portugal durante estes anos é trazer para o debate historiográfico a questão da violência política dos grupos de esquerda radical que durante anos permaneceu como um assunto tabu dentro da historiografia portuguesa. E, ao mesmo tempo, é um contributo para a compreensão da história da luta contra o Estado Novo e a guerra colonial, pois como diz Sérgio Godinho “Enfim duma escolha fez-se um desafio. Enfrenta-se a vida de fio a pavio. Navega-se

sem mar, sem vela ou navio. Bebe-se a coragem até de um copo vazio. E vem,-nos à memória uma frase batida. Hoje, é o primeiro dia do resto da tua vida”.

Bibliografia

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Fontes Orais

Entrevista a Camilo Mortágua, Alvito, 3 de Outubro de 2012 Entrevista a Carlos Antunes, Lisboa, 17 de Julho de 2012 Entrevista a Carlos Antunes, 4 de Abril de 2014, Lisboa

Entrevista a Fernando Pereira Marques, Lisboa, 26 de Setembro de 2012 Entrevista a Francisco Fanhais, Alvito, 18 de Julho de 2012

Entrevista a Hipólito dos Santos, Lisboa, 29 de Abril de 2012 Entrevista a Isabel do Carmo, Lisboa, 18 de Junho de 2012

Entrevista a Jacinto Rodrigues, Esposende,18 de Setembro de 2012 Entrevista Joaquim Alberto Lopes Simões, Riachos, 15 de Julho de 2012 Entrevista a Joana Lopes, Lisboa, 20 de Julho de 2012

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Arquivos

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