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LITTERATUR

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Sartre (1993) celebrizou a distinção dos intelectuais ao defender que o intelectual não é neutro diante da realidade histórica e social.

O escritor engajado sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar. Para o autor, no contexto da sociedade capitalista, seria impossível manter o sonho da imparcialidade diante da condição humana. Em vista disso, “a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele (SARTRE, 1993, 20-21).

Sartre (1994) observa que o intelectual moderno é um ‘homem-contradição’, um ser dividido entre a ideologia particularista (fatores sociais, econômicos e culturais que condicionam sua vida) e o universalismo (exigência intrínseca da sua atitude como técnico e pesquisador). O autor descreve assim o paradoxo do intelectual moderno: “Um físico que se dedica a construir a bomba atômica é um cientista. Um físico que contesta a construção desta bomba é um intelectual”. Não cabe, portanto, ao especialista questionar as condições em que se dá a pesquisa, o resultado ou mesmo o uso que se faz dela. Mas é precisamente no momento em que o pesquisador “se mete no que não é da sua conta e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas, e das condutas que nelas se inspiram em nome de uma concepção global do homem e da sociedade que ele se torna um intelectual” (SARTRE, 1994, pág. 14-15).

Sartre (1994) argumenta que os filósofos iluministas tiveram a missão de desenvolver os pressupostos teóricos que legitimaram a ideologia burguesa, a qual tornou-se universal e hegemônica. Os filósofos eram ‘intelectuais orgânicos’, no sentido gramsciano. Já os intelectuais modernos, ‘técnicos do saber prático’, encontram-se presos às amarras do humanismo universalista burguês e às contradições próprias do seu ser social, enquanto membros de uma categoria social vinculada à ideologia dominante. Por isso, o autor coloca a necessidade de construção de um novo humanismo. Dentro dessa construção, Sartre (1994) focaliza sua crítica no ‘técnico do saber prático’ que, por sua condição social, é potencialmente um intelectual, mas não necessariamente atua como tal. Isso, no mundo

contemporâneo, tenderia ao descomprometimento do intelectual com as questões sociais, ocasionando a não realização das suas potencialidades, não assumindo o papel que lhe cabe.

Sartre (1994) advoga o engajamento militante do intelectual. Sua crítica exprime o elogio ao intelectual que assume sua responsabilidade, que se contrapõe ao humanismo burguês. Para o autor, a função do intelectual reside em reconhecer sua contradição intrínseca, relacionando-a com o conhecimento através de uma autocrítica permanente.

Em resumo, o discurso sartriano descreve um modelo de intelectual engajado que induz à distinção pela diferenciação entre o ‘falso’ e o ‘verdadeiro’ intelectual, em que é preciso distinguir a atividade real dos intelectuais num determinado contexto histórico, isto é, de como se deseja ou se imagina a atuação do intelectual dentro do universo político, social, econômico e cultural.

Diferentemente de Gramsci, que distingue os intelectuais entre orgânicos e tradicionais, Bobbio (1997), embora admita certo parentesco com Gramsci, distingue um do outro na tarefa que eles desempenham como criadores ou transmissores de idéias ou conhecimentos politicamente relevantes, ou seja, é a diversa função que eles são chamados a desempenhar no contexto político. Por ideólogos, o autor entende como aqueles que fornecem princípios guia, e, por expertos, aqueles que fornecem conhecimentos-meio.

Assim, segundo Bobbio (1997):

Toda ação política, como de resto qualquer outra ação social - e, aqui, por ação política podemos entender a ação do sujeito principal do agir político na sociedade de massa, que é o partido -, tem necessidade, de um lado, de idéias gerais sobre os objetivos a perseguir (que podem ser os objetivos últimos mas que geralmente são os objetivos intermediários), a que chamei de “princípios” e que poderiam ser chamados de “valores”, “ideais” ou mesmo “concepções do mundo”; e, de outro, de conhecimentos técnicos que são absolutamente indispensáveis para resolver problemas para cuja solução não basta a intuição do político puro, mas se fazem necessários conhecimentos específicos que só podem ser fornecidos por pessoas competentes nos diversos campos singulares do saber. [...] A necessidade de conhecimentos técnicos aumentou na sociedade moderna, especialmente a partir do momento em que o Estado passou a intervir em todas as esferas da vida, particularmente na das relações econômicas e das relações sociais: é evidente que um Estado não pode tomar providências contra a inflação sem o parecer de economistas ou realizar uma reforma sanitária sem o parecer dos médicos. Os Estados sempre tiveram os seus expertos: basta pensar nos legistas e nos militares (BOBBIO, 1997, p. 73).

Bobbio (1997) acrescenta que a distinção entre ideólogos e expertos repõe a distinção weberiana entre ações racionais segundo o valor e segundo o seu fim. Nesse sentido, os ideólogos são aqueles que elaboram os princípios com base nos quais uma ação é justificada e, portanto, aceita, pelo fato de estar conforme os valores acolhidos como guia da ação. Os

expertos são aqueles que fazem que a ação que a ele se conforma possa ser chamada de racional segundo o objetivo, indicando os conhecimentos mais adequados para o alcance de uma determinada finalidade.

Por outro lado, ressalva o autor, existe o intelectual ideólogo que nunca põe os pés na terra, chamado de ‘utopista’, cuja separação entre fins e meios é absoluta. Ao contrário, existe o puro técnico que põe sua própria competência a serviço dos poderosos sem se pôr o problema da legitimidade dos fins. Esses dois casos-limite são representados atualmente pela contraposição no desenvolvimento contraditório da sociedade industrial, que deixa entrever uma possível catástrofe final, opondo o renascimento do utopismo, que é o triunfo da ideologia em estado puro, à declaração do fim das ideologias, que é o triunfo do puro tecnicismo (BOBBIO, 1997: p. 75).

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