Novas perspectivas apontam para um olhar centrado na criança; busca-se ouvi-las, falar com elas e compreender seus próprios pontos de vistas sobre as questões que as afetam diretamente. Estes aportes de conhecimentos, por sua vez, influenciaram as metodologias de pesquisas com crianças. Antes destas perspectivas, as pesquisas eram feitas com as crianças, falava-se sobre elas a partir de um ponto de vista adultocentrado. As crianças são sujeitos que se comunicam através de múltiplas linguagens, portanto, tais características prescindem de uma postura metodológica qualitativa, sendo esta, potencialmente capaz de apreender o fenômeno de forma contextualizada e em toda a sua complexidade.
A antropologia tem como objeto de estudo as sociedades e as culturas. Cohn (2005) afirma que fazer antropologia é buscar compreender um fenômeno em seu contexto. Sendo assim, uma antropologia da criança visa compreender o que significa ser criança, seja em culturas diversas, seja nos centros urbanos, escolas, creches, nas ruas, abrigos, espaços privados, entre outros, entendendo que a experiência da criança por ser cultural (adquirida), para ser compreendida, deve ser estudada em seu contexto. Para tanto, os pesquisadores da antropologia fazem uso da etnografia, metodologia de produção de dados que se caracteriza pela observação e descrição densa de um grupo social particular, visando compreender a sua cultura.
A valorização da criança, seu status de sujeito social, requer um olhar mais aguçado sobre as mesmas, pois o fato de observá-la não implica, necessariamente, compreender sua forma de agir e atuar no contexto social. A criança por estar se constituindo como pessoa, utiliza-se de várias linguagens para interagir no mundo. A oralidade, nessa fase, não é suficiente para revelar a singular forma de agir e construir conhecimento destes sujeitos. Por isso, se faz necessário a utilização de uma observação minuciosa e aguçada com a utilização de recursos variados, como a fotografia e a videogravação. Enfim, se faz necessário utilizar métodos e técnicas de um antropólogo.
Julie Delalande (2011), etnóloga francesa, tem sido uma referência quando se trata de pesquisas com crianças em instituições escolares, campo do conhecimento que ela tem denominado de socioantropologia da infância, uma vez que há uma interlocução entre ambas
as áreas, as quais têm apresentado uma renovação do olhar sobre a infância e as crianças. Os antropólogos e sociólogos franceses estão atentos ao ofício de criança nas instituições. Objetos, objetivos e métodos dos sociólogos e antropólogos franceses são quase sempre comuns quando se trata de estudar as crianças em contextos educativos (DELALANDE, 2011). Ambas as áreas de conhecimento estão focadas no ponto de vista das crianças e, para tanto, se utilizam de métodos de produção de dados equivalentesa etnografia.
Para Delalande (2011), a ruptura com os referenciais teóricos e metodológicos clássicos encontra eco na evolução do olhar da sociedade sobre a infância, possibilitando a emergência de um novo campo de conhecimento, a socioantropologia. Corsaro (2009) tem sido outra referência na área por desenvolver pesquisas sociológicas utilizando-se de uma metodologia típica da antropologia, a etnografia.
As pesquisas com crianças nas instituições educativas exigem um olhar multidisciplinar, isto porque elas precisam ser percebidas do ponto de vista da alteridade, levando-se em consideração suas especificidades e singularidades, respeitando suas opiniões e experiências. Nem sempre a sociologia e/ ou a antropologia conseguem compreender as crianças e suas culturas a partir de seus próprios aportes teórico metodológicos, sendo necessária uma visão multidimensionalsobre a mesma.
A cultura não é apenas constituída de costumes, crenças, tradições, hábitos. Para além deste conceito, é um “conjunto de mecanismos de controle - planos, receitas, regras, instruções para governar o comportamento, sendo que o homem depende de tais mecanismos culturais para governar seu comportamento.” (DELGADO, 2008, p. 144). Partindo desta perspectiva de cultura, é possível afirmar que as culturas adultas relativas às crianças e a outros grupos minoritários, simbolizam o poder de uma geração sobre outra, de uma etnia ou gênero sobre outro, para governá-los, possuem um efeito de dominação.
A sociologia da educação funcionalista simboliza esta dominação geracional. Constitui-se em uma visão adultocêntrica da infância, pautada por uma socialização vertical dos adultos sobre as crianças, as quais, nas instituições escolares, são coagidas a assumirem o ofício de alunos, com toda força etimológica da palavra, ou seja, aqueles que não têm luz, mas serão iluminados por outros, os adultos. As crianças são tratadas como imaturas, incompetentes e são controladas e constrangidas a se calarem e deixarem que os outros falem no lugar delas, que decidam por elas. É, na verdade, uma dependência entre gerações estruturada culturalmente.
Cultura tem a ver com os comportamentos adquiridos nas sociedades humanas. Portanto, este conceito se opõe a qualquer ideia de comportamento inato, natural, que reforça
a tese de que não existe sujeito sem cultura ou que existem subculturas e culturas. No caso específico da infância, os sujeitos que fazem parte desta geração não são aculturados, as crianças se apropriam, de forma singular, das culturas adultas, universais e produzem suas próprias culturas, tendo por base seus mundos de vida.
As culturas da infância são o resultado das transformações da família, da sociedade, da mídia e das tecnologias. A cultura é aquilo que cada um se apropria para se constituir como pessoa (DELGADO, 2008, p. 148). Neste sentido, a infância é uma construção social e cultural. As crianças, antes da revolução tecnológica, eram mais passivas, menos participativas, possuíam menos informações, suas culturas tinham outros formatos. Na contemporaneidade, diante das tecnologias, da mídia, da entrada precoce nas instituições educativas, do próprio discurso circulante sobre seu estatuto de sujeito de direitos, elas estão reformatando suas culturas, criando outros sentidos e símbolos para interagir na e com a sociedade, sem esquecer que continuam sob o domínio adulto.
A sociologia da infância está calcada em crianças reais, concretas, sujeitos e atores sociais plenos e na infância como uma construção social. Neste sentido, as metodologias de pesquisas estão comprometidas, política e epistemologicamente, em produzir conhecimento sobre e com as crianças, ressaltando o direito à participação, dando voz a estes sujeitos, além de valorizar suas culturas. Este movimento acadêmico científico contemporâneo sobre a infância permite dar maior visibilidade a este grupo geracional.
As crianças sempre foram agentes na história da humanidade, só que isto não era visível, pois, os discursos construídos pela própria ciência psicológica, a partir de um discurso positivista, impediam outras representações e práticas. Benjamin (1987) ressalta que a modernidade construiu uma visão contraditória de criança que chega a ser comparada aos loucos, aos inúteis e aos marginalizados. Para este pensador, as crianças são mais parecidas com os colecionadores, artistas e magos, pois estes conservam a capacidade criativa.
Alderson (2005, p. 436) defende que “[...] as crianças são a fonte primária de conhecimentos sobre suas próprias visões e experiências”. Assumindo tais pressupostos, é plausível presumir que se as crianças e seus mundos de vida são dignos de estudos, certamente elas são as testemunhas legítimas para falar de si e de suas culturas, tendo pleno direito a voz nas pesquisas e, especialmente, a serem colaboradoras ativas/pesquisadoras de aspectos que dizem respeito a sua vida.
A investigação etnográfica com crianças, além das vantagens supracitadas, apresenta muitos desafios, dentre eles, pontuamos a própria condição de grupo geracional que sofre desigualdade social de diversas ordens, como: a econômica, a étnica, a de gênero e a cultural.
Além destes fatores estruturantes, há os de natureza biológica, como a imaturidade do pensamento verbal e a vulnerabilidade destes sujeitos, exigindo, sobretudo, uma postura ética por parte dos pesquisadores.
Corsaro (2009, p.28), ao relatar sua experiência de pesquisa etnográfica, consegue explicitar, com muita clareza, os desafios enfrentados pelos adultos pesquisadores. Temos que nos despir da postura adultocêntrica e nos colocarmos junto às crianças como alguém que, apesar de ser adulto, entenda e compreenda suas culturas e linguagens, o que ele autodenomina de adulto atípico “[...] para as crianças italianas, assim que começava a falar o meu italiano limitado, tornava-me esquisito, engraçado e fascinante. Eu era não apenas um adulto atípico, mas uma espécie de criança grande e boba.”
O fato de não conseguir falar a língua de forma competente fez com que as crianças se identificassem com o sociólogo e se sentissem confiantes. Isto porque, certamente, as crianças têm uma visão de que os adultos são sempre aqueles que sabem tudo e elas aquelas que estão sempre errando, que precisam ser ensinadas. Encontrar um adulto na condição aprendente, em um espaço hostil ao erro, à incompetência linguística, a exemplo da escola, foi positivo para a relação estabelecida entre pesquisador e crianças.
As crianças precisam encontrar pessoas implicadas com elas. Isto porque [...] só posso entender o outro deixando-me imergir na sua vida, escutando as suas vozes e inserindo o seu significado no contexto das interações e da experiência da(s) histórias em que se engendram as relações sociais.” (FERREIRA, 2004, p. 35). Nesta experiência de vinculação, proximidade, considera-se o investigador, com sua subjetividade, como principal instrumento da investigação, exigindo-se, portanto, a explicação do objeto de pesquisa e todo o processo de realização da mesma.
Delgado e Muller (2008) destacam que a investigação etnográfica com crianças, pelo grau de desafios que apresenta é, antes de tudo, um processo criativo, inventivo, não existem fórmulas prontas, porque os contextos, as crianças e as situações são múltiplas, o que deve ser previsível são os princípios que regem a pesquisa: respeitar a criança, compreender a infância como uma construção social, ter uma visão positiva sobre as mesmas e olhar para suas atividades como processos simbólicos autônomos, resultado de uma ação competente delas sobre o meio físico e social.
Por fim, a etnografia com crianças implica em uma observação minuciosa, cuidadosa, detalhada das situações e dos contextos em que elas estão inseridas. É um olhar que exige, ao mesmo tempo, uma visão micro/local e macro social: o ambiente familiar, a classe social, a etnia, o gênero, etc. Para isso, “precisamos inventar maneiras novas e diferentes de ouvir e
observar as crianças.” (DELGADO, 2009, p. 161).
Considerar crianças entre 4 e 5 anos de idade como informantes qualificados sobre suas ações individuais e coletivas em uma instituição de educação infantil, no caso específico deste estudo constitui-se, antes de tudo, um posicionamento político e uma virada epistemológica. Isto porque, propusemo-nos a conhecer o fenômeno a partir do próprio ponto de vista dos sujeitos e as ações aqui consideradas são objetos conceituais, redes de significações e sentidos partilhados em pares, em contextos institucionais infantis. Ou seja, são textos sociais, dinâmicas culturais que precisam ser descritas na sua originalidade, especificidade e significação profundade uma maneira inteligível. Passamos a analisar, brevemente, a nossa experiência de entrada no campo a fim de consolidar a perspectiva em pauta.