2. FORSKNINGSDESIGN, METODE OG KILDER
2.2 F ORSKNINGSDESIGN
2.2.3 Gjennomføring av forskningsintervjuene
Ao considerar o universo dos movimentos sociais, o aporte teórico acerca do ritual também é útil para se refletir acerca desse sistema de valores e das moralidades que perpassa a ação social.
Um dos estudos que forneceu elementos relevantes para a compreensão dos movimentos sociais foi o de John Cunha Cumerford (1999), que investigou os rituais presentes desde a rotina até aos momentos de ocupação promovidos por organizações camponesas, sobretudo pelo MST (Movimento dos Sem Terra), no princípio dos anos de 1990.
A partir da observação de reuniões, discursos, ocupações e momentos de descontração entre os militantes, Cumeford percebeu que operava nessas ocasiões sentidos amplos e em permanente processo de apropriação e ressignificação de termos como “luta”, “trabalhador rural”, “Estado de Direito”, bem como colocou em evidência fronteiras sociais entre pobres/ricos trabalhadores/poderosos. Além disso, sua investigação tinha como fio condutor a
(...) compreensão da maneira pela qual as ações e mediações realizadas no âmbito de instituições como sindicatos, associações e movimentos – sobretudo aquelas ações e mediações mais cotidianas, naturalizadas, interiorizadas e como que automatizadas – constroem categorias referidas à população rural. Procura contribuir ainda para a compreensão de como essas categorias, por sua vez, orientam algumas das práticas de parcelas dessa população e contribuem para a construção/mobilização de grupos sociais, redundando desse modo na reordenação de conjuntos de relações sociais. Dito de outro modo, procuram evidenciar dimensões que, por serem “naturalizadas” não são propriamente “intencionais” e nem sempre são pensadas como “eficazes”, mas cuja eficácia não-prevista é condição para a eficácia (ou não) das estratégias intencionais dos agentes. (CUMERFORD, 1999, p. 16)
A noção de “luta”, por exemplo, aparece em situações distintas, com significados que atuam desde sinônimo para trabalhador, como um aspecto da dignidade e da busca por respeito de quem enfrenta todo o tipo de dificuldade para sustentar sua família. Outro sentido para o termo dá conta do contexto dos conflitos por terra envolvendo camponeses e proprietários de latifúndios. “‘Luta’ é uma palavra central nas narrativas desses conflitos e aponta enfrentamentos concretos e prolongados” (CUMEFORD, 1999, p. 19). O autor reforça que essa noção serve também como valor para manter o espaço e denunciar tanto a quebra de códigos de
convivência, como o desrespeito a valores morais e direitos desses atores. Por fim, no contexto dos discursos sindicais, “luta” adota o sentido para designar a categoria dos trabalhadores rurais e a ações nos planos jurídicos e político.
Ao acompanhar os assentados da Fazenda São Bernardo na ocupação da CERJ (Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro), Cumerford (1999) identificou que esse tipo de mobilização, tal qual se verá no caso dos barzonistas, busca por legitimar e demarcar espaços e reafirmar valores. Em suas palavras:
Os “pobres” saem do seu “canto”, onde normalmente esperam aquilo de que necessitam e que só os que têm poder podem dar, e deslocam-se até o centro de uma cidade que é um centro regional. Conseguem um “contato direto” – ainda que através de uma comissão de “representantes”, numa sequência mobilização/negociação – com um agente poderoso, que em circunstâncias normais não os atenderia nunca. Esse contato direto, imediato e rápido (o inverso das filas que costumam caracterizar o atendimento às pessoas comuns nesses órgãos) neutralizaria a ação de supostos “agentes sabotadores”, inimigos da Associação e do assentamento, cuja identidade não é conhecida (ainda que seja discutida), mas que, para muitos dos participantes da ocupação, são responsáveis pelo não atendimento às reivindicações. Em certo sentido, para os ocupantes, o Estado aparece como um conjunto de centros de poder cercado por agentes com seus pequenos interesses particulares, que dominam os canais de acesso aos centros de poder e montam toda uma série de barreiras, que são transpostas violentamente através da ocupação. É como se eles literalmente “entrassem” no “Estado” sem pedir licença e sem ficar na fila. (CUMEFORD, 1999, p. 141)
Neste sentido, o processo de ocupação, mais do que estimular o contato entre os atores e promover a negociação de demandas, tenta inverter uma lógica de poder/subordinação até então em operação: os militantes rompem as regras desses “centros de poder” / Estado, ditando eles, mesmo que por alguns momentos, os códigos dessas instituições. É também nessas circunstâncias em que o sentido de “luta” é posto em evidência, sendo apropriado e reconfigurado pelos demandantes.
Na mesma época, Christine de Alencar Chaves (2000) pesquisou a Marcha Nacional dos Sem Terra. A partir da abordagem de Tambiah (1985), a autora compreendeu os rituais originados pela organização como um espaço de convergência, de produção e de reprodução de ideologias, identidades e sociabilidades.
A eficácia da Marcha Nacional pode ser melhor compreendida se tomada como uma ação coletiva expressiva, cuja importância teve por suposto a capacidade de comunicar os fundamentos ideológicos e os propósitos políticos do MST. (CHAVES, 2000, p. 15)
Tal ação coletiva possibilitou dar dimensão aos valores, bem como difundir referências simbólicas consagradas da cosmologia própria da organização. Como consequência desse processo, foi possível ver suas demandas ampliadas e apropriadas por outros segmentos sociais, introduzindo, com isso, novas concepções acerca das noções de democracia, justiça e igualdade.
8.2.1 A Performance em um Movimento Social de Endividados
De maneira semelhante ao MST, o movimento dos barzonistas também escolheu o ritual da ocupação de espaços públicos como uma das formas de chamar atenção para suas demandas e, assim, mobilizar a sociedade em favor de sua causa.
Conforme transcrito no capítulo 7, se nos anos iniciais da organização, a ocupação se dava em prédios do poder público, sobretudo, na câmara de deputados, atualmente a ação coletiva visa espaços privados de instituições financeiras, como bancos e cooperativas de crédito, localizados em regiões consideradas “nobres” de Guadalajara.
Os militantes são oriundos de localidades periféricas da cidade, geralmente de grandes vilas construídas com o apoio do INFONAVIT (Instituto del Fondo Nacional de la Vivienda para los Trabajadores), que se assemelha em funcionamento ao programa brasileiro Minha Casa, Minha Vida. Esse deslocamento espacial, tal qual observou Cumerford (1999), também procura subverter uma relação entre trabalhadores/poderosos, uma vez que as mobilizações sempre ocorrem em “centros de poder”, de “assalto”, bloqueando o acesso às instituições até conseguirem efetuar a negociação das dívidas.
Às suas maneiras, os militantes também se apropriam e colocam em prática fundamentos ideológicos próprios e noções de luta – com significados ligados à busca de direitos e da demarcação de fronteiras sociais – e justiça – que remete principalmente à busca por igualdade –, por meio de “gritos de guerra”, discursos e faixas. Essas falas colocam em oposição trabalhador/lutador versus sistema
neoliberal/poderosos/exploradores. Nessa cosmologia, uma das figuras consagradas amplamente utilizadas é a de Emiliano Zapata, um dos líderes da revolução mexicana do princípio de 1900 e considerado herói pelo povo por combater os latifúndios. Tanto é que Zapata é um dos símbolos do movimento.
As histórias dos endividados trazem discursos que evocam, além de luta e justiça, dramas dos mais diversos, acompanhados da expressão de sentimentos, tais como angústia, medo e sofrimento. Só que, diferente da Central de Mediação, onde as demandas são atendidas individualmente, nas ocupações, as demandas e histórias ficam sobrepostas em função da negociação de uma situação específica de um militante (ou um vários deles), que se sentiu prejudicado pela instituição ocupada. No caso observado, por exemplo, os militantes foram até à agência para apoiar um companheiro despejado de sua residência.
O que então une os sujeitos é a possibilidade do compromisso de contar com o grupo quando chegar a sua vez de negociar. É também um rito que coloca em evidência uma dificuldade comum, vivenciada no coletivo. Nas palavras de um dos fundadores do movimento, “debe tener los mismos dolores” para fazer parte da
“luta” e, como afirma Cumerford (1999), eles dividem os riscos de participar de uma ação desta envergadura. Em outros termos, o que difere da experiência na Central de Mediação, é que a regeneração de uma dívida – ocorrida no ritual da ocupação – é vivenciada coletivamente a partir do elo que unifica as mesmas dificuldades e dramas.