abril de 1913, n.º 501. 11. idem
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Leal da Câmara sabe da geografia cultural de Aquilino Ribei- ro, artística e literária, e da vasta e diversificada aquisição docu- mental que foi adquirindo em Paris. Aquilino tem a cultura como horizonte na sua vida, por isso as artes plásticas cabem a par da cultura literária; daí ter no seu espólio bibliográfico livros sobre obras de pintores modernistas, como o francês Eugène Carriére (1849-1906), representante do simbolismo ou do pintor e carica- turista suíço Teóphile Steinlen.
1.2.3. O livro Jardim das Tormentas
Na missiva de 22 de abril de 1913, Aquilino desabafa para Leal sobre as críticas literárias, vindas a lume nos jornais da capital lisboeta, sobre a sua estreia como escritor, aquando da publi- cação do livro Jardim das Tormentas, na capital parisiense. Aqui- lino Ribeiro escreve que “preferia que me disfizêssem o livro à mocada a que o sufocassem num alçapão. Essa gente que não lê Machiavel, nem sobre querer ou qual foi este figurão (…). O meu livro não é mais que uma estreia; era preciso crê-lo assim”.12
Aquilino Ribeiro sente-se irritado e desiludido com a crítica literária portuguesa que não soube dar crédito à sua primeira obra. Como refere Aquilino a Leal, os críticos literários lisboetas teriam que olhar para O Jardim das Tormentas como uma obra de estreia (do homem que se iria tornar um grande escritor). Aqui- lino Ribeiro põe em causa a crítica balofa dos pseudointelectuais que não têm conteúdo sério de análise, faltando-lhes leituras de referência para que a sua crítica seja credível. Deste modo, o seu ressentimento ainda é maior.
1.2.4. Aquilino Ribeiro instala casa em Paris
Aquilino Ribeiro aluga e mobila um apartamento em Paris, na rua Halle, para viver com Grete Tiedemann, depois de regressar da sua estada na Alemanha para casar. Na carta de 22 de abril de 1913, Aquilino dá a notícia a Leal que instalou casa em Paris, na rua Halle, lamentando-se da maçada de ter de encomendar mobiliário, pois não tem a habilidade do amigo Leal da Câma- ra (referindo-se à arte do amigo no desenho de
mobiliário e de decorador, como o seu jeito de mãos para montagem) e do problema da des- pesa “Instalei casa (…) desmantelamento e ins- talação em Paris. Você que faz tudo duma mão hábil e discreta adivinhará o que é encomendar
tudo a mãos alheias, mandar fazer tudo por mãos doutrem. O calvário e a ruina”.13
Aquilino está muito satisfeito com o mobiliário, sobretudo com o seu escritório, “Mas, enfim, posso agora escrever-lhe placida- mente dum bureau (…)”. E, andando Aquilino a viver em casa de amigos desde que chegou a Paris, era muito reconfortante para ele receber os amigos num apartamento que era seu. Por isso, Aquilino escreve “poderei oferecer-lhe neste meu modesto chez moi um empadão d´ovos como aquelle que V. me ofereceu em Clamart”.14 Aquilino recorda como foi recebido a primeira vez em
casa de Leal da Câmara, em Clamart, na Île-de-France.
1.3. Cartas expedidas de Lisboa para Madrid e para Leça da Palmeira, 1915-1919
1.3.1. Leal da Câmara em Madrid
Neste período, Leal da Câmara tinha regressado definitivamen- te a Portugal e reside em Leça da Palmeira. Num tempo em que o artista se envolve na capital nortenha, com outros modernistas, em exposições e conferências. Lança, com Manuel Monterroso e Guedes de Oliveira, o jornal humorístico O Miau!. Põe a arte ao serviço dos soldados portugueses que lutam em França, ao lado dos países Aliados, entre 1916-1918, e a amizade entre França- -Portugal após o conflito mundial.
Em 1916, Leal da Câmara está a colaborar com o jornal A Noite, do Rio de Janeiro, e aceita fazer um trabalho de três meses em Madrid sobre a guerra na Europa. Nestes três meses da estada de Leal em Madrid existe uma única carta de Aquilino, expedida da rua Oriental do Campo Grande, R/C Esq., em papel timbrado do Liceu Camões (ver anexos, carta de Aquilino Ribeiro, n.º 508). Aquilino vem pôr água na fervura nos impulsos de Leal da Câ- mara que lhe escreve, dizendo-lhe que ia cortar relações com ele porque não lhe responde às suas cartas. Aquilino Ribeiro justifi- ca a sua ausência na correspondência:
Diz você que cortou relações comigo? Que ideia! Porquê? Eu não lhe tenho escripto por não saber onde V. parava. Quer crêr que eu e a minha mulher o fazíamos no Rio, enganados por um telegrama publicado no Diário de No- ticias? Como V. andava para sair de Madrid todos os dias e não saia, não lhe escrevi em resposta à última carta. Depois V. sumiu-se e eu não sabia para onde escrever, estava V. no Porto? .15
A justificação está dada a Leal da Câmara por que Aquilino não responde às suas cartas de Madrid.
12. Carta de Paris, rue Halle XIV, 19, 22 de abril de 1913, n.º 501. 13. / 14. idem 15. Carta de Lisboa, rua Oriental do Campo Grande, R/C Esq., s./d., n.º 508.
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1.3.2. O livro Miren Ustedes
– Portugal visto de Espanha
Quando da sua residência por um curto período de tempo em Madrid, em trabalho para o jornal brasileiro A Noite, Leal da Câ- mara entrevista várias figuras públicas. Deste contacto madrile- no escreve o seu livro Miren Ustedes – Portugal visto de Espanha, em 1917. Leal da Câmara endereça o livro ao amigo Aquilino e este, numa carta não datada, dá conta ao amigo de que já tinha sabido da publicação do livro “vejam como as notícias correm depressa”.
Na carta, Aquilino refere que tinha recebido duas cartas de Leal da Câmara, “uma aqui na minha residência [Campo Gran- de], outra no liceu [Liceu Camões] (…)”. O escritor Aquilino Ribei- ro, numa carta expedida do Campo Grande, em papel timbrado do Liceu Camões, diz ao amigo Leal da Câmara:
Você deve estar escamado que não tenha dado cavaco depois de ter recebido o seu livro, ilustre por varias formas, que não tenha aparecido pessoalmen- te, nem falado nos jornais como é dever dum homem de letras. Em suma V., na sua linguagem incisiva, que não é para meias medidas terá dito: aquele … [não são legíveis três palavras]. Em tudo terá V. razão, mas eu também a tenho. Se não sou pontual a escrever e a responder você também o não, que o meu pecado se cubra com o seu pecado; se não lhe apareci? Nem falei nas gazetas (…) e se não falei nas gazetas é porque não disponho de gazeta. Mas o pago, repito, lhe irá a seu tempo.16
Uma linguagem incisiva e sem rodeios. É assim que os dois amigos alimentam uma amizade sincera e verdadeira, baseada na frontalidade no que escrevem sobre as situações mais desa- gradáveis sentidas por um e por outro. Percebe-se que o “homem de letras” ainda não tinha escrito um artigo sobre o livro de Leal da Câmara nas gazetas da capital, mas também fica claro, na resposta de Aquilino a Leal, a razão por que ainda não o tinha escrito “eu não disponho de gazeta”. Uma fase em que Aquilino Ribeiro não tem espaço para publicar artigos nos jornais ou re- vistas. No entanto, Aquilino acrescenta que a seu tempo escreve- rá um artigo de opinião sobre o livro.
Nesta parte da missiva, Aquilino Ribeiro intitula-se um “ho- mem de letras”. Brevemente irá ser conhecido o seu novo roman- ce A Via Sinuosa (1918), que nesta carta a Leal da Câmara o escritor fala da publicação “Agora o que me traz e não diga V. que come- ço por lhe adoçar a bôca: tenho o meu romance em publicação – A Via Sinuosa”.17
1.3.3. Pedidos de colaboração
a Aquilino Ribeiro por Leal da Câmara
Leal da Câmara deve ter viajado algumas vezes até Lisboa, en- quanto esteve a residir no Porto. Numa carta anterior à de 1918, Aquilino refere-se à colaboração que lhe é solicitada por Leal da Câmara para lhe arranjar um quarto em Lisboa. Aquilino escreve:
Ainda não fui procurar o quarto que V. reclama pela razão que lhe não con- vem tomá-lo com antecedência, e apalavrado por muitos dias ninguém o guarda. Diga-me com antecedência de três ou quatro dias quando vem a Lisboa (…) Ahi por (…) 8 a 10.000 reis já deve ter um quarto respeitável, bem arejado, com patrôa em sobe-de-chambre (…) avise quando tenciona tomar o comboio para Lisboa, com antecedência de dias para eu lhe ter o quarto arranjado.18
Na mesma carta Aquilino escreve também sobre a documenta- ção que ia enviar ao amigo Leal por sua solicitação, em carta an- terior – postais ilustrados com obras de arte e livro para crianças:
Quanto aos postais ahi lhe mando o que encontrei. Faltam um ou dois da exposição Galliera, talvez os melhores. Lembro-me que ofereci uma cabeça a Teixeira [escultor Anjos Teixeira]; vou-lhe escrever, mas acode-me que os deve ter deixado em Paris onde ainda tem tudo. Mando-lhe um livro para crianças, mais para que saiba que a casa Valtraun em Paris é que tem a es- pecialidade deste género. Vai também o prospeto dos [palavra elegível] do livro das mamãs.19
Leal da Câmara, desde muito cedo, que dá grande importância à presença da arte na educação das crianças para o seu desenvol- vimento integral e aquisição do gosto pela cultura artística. Esta linha de pensamento educativa sempre o acompanhou, interes- sando-se pela ilustração de contos infantis, ainda antes do exílio político, com Ana Castro Osório, um período que “(…) começa a revelar uma das facetas artísticas mais ricas de ternura e sensi- bilidade: a de ilustrador de contos infantis (…)” (Vicente, 1994, p.28). E visível também na decoração interior de Escolas Primá- rias (Antuérpia, Lisboa, Porto).
Aquilino Ribeiro afina na mesma linha educativa da de Leal da Câmara sobre a relevância na educação da expressão artística, como um modo das crianças interpretarem a arte. A caricatura é vista por ambos como o meio de expressão mais
eficaz de interpretação da arte pelas crianças. Aquilino escreve para Leal “V. tem toda a razão contra o criticoide. Se não se interpretar a arte para as crianças, nem estas a compreendem, nem lhes interessa (…). Aqui a caricatura é a
16. Carta de Lisboa,