N˜ao ´e procedimento incomum nos coment´arios indianos o de recompor a sin- taxe do commentandum —ou, em sˆanscrito, m¯ula, i.e., “raiz; texto-base”—
numa nova ora¸c˜ao preenchida de glosas que lhe esclare¸cam as dificuldades semˆanticas e sint´aticas. No que seria uma das formas mais comuns do glosar, a ora¸c˜ao completa do m¯ula vai sendo entrecortada pelas glosas individuais,
que seguem os termos glosados e v˜ao fragmentando, menos ou mais, a de- pender do modelos adotado (cf. abaixo), a leitura da nova ora¸c˜ao que se forma. Veja-se este exemplo citado por Tubb & Boose (2007: 150). Trata-se de um verso do Kum¯ara-sam. bh
ava (“O nascimento de Kum¯ara”, ou Skanda,
um dos filhos de Brahm¯a), do celebrado poeta K¯alid¯asa (s´ec. VI d.C.):
tasmin viprakr
˚t¯a k¯ale T¯araken.a divaukasah.
Tur¯as¯aham. puro-dh
¯aya dh¯ama Svayam. -bh
uvam yayuh..
Naquele tempo, oprimidos por T¯araka, os moradores do c´eu, tendo posto Tur¯as¯ah `a frente, vieram `a morada de Sv¯ayam. -bh
u (Brahm¯a).
Um dos coment´ario existentes — trata-se nesse caso de obra anˆonima— rearranja a ordem do texto fazendo perguntas que exclarecem as rela¸c˜oes entres substantivos e adjetivos, verbos e complementos, etc. Tubb & Boose primeiro separam o esqueleto sint´atico da ora¸c˜ao em prosa:
divaukasah.. . . Sv¯ayam. -bhuvam. dh¯ama. . . yayuh.. . . kim. -vi´sis.t.¯ah.? viprakr
˚t¯ah.. . .
kena? T¯araken.a. kva? tasmin k¯ale. . . kim. kr
˚tv¯a? purod
h ¯aya. . . kam? Tur¯as¯aham. . .
Os moradores do c´eu. . . vieram `a morada de Sv¯ayam. -bh
u. . . Caracterizados como? Oprimidos. . .
Quando? Naquele tempo. . .
Tendo feito o quˆe? Tendo posto `a frente. . . Quem? Tur¯as¯ah. . .
Em seguida, inserem a glosas semˆanticas do mesmo comentador, e eis o resultado final da passagem (os termos do m¯ula est˜ao em negrito):
divaukasah. dev¯ah. Sv¯ayam. -bhuvam. dh¯ama sth
¯anam. yayuh. gat¯ah.. kim. -vi´sis.t.¯ah.? viprakr
˚t¯a apakr˚t¯ah.. kena? T¯araken.a.
kva? tasmin k¯ale ¯I´svara-tapo-vidh
¯ana-k¯ale. kim. kr
˚tv¯a? puro- dh¯aya agre kr
˚tv¯a. kam? Tur¯as¯aham Indram.
Os moradores do c´eu, os deuses, vieram, tinham vindo58
`
a morada, ao lugar, de Sv¯ayam. -bhu. Caracterizados como? Oprimidos, maltratados. Por quem? Por T¯araka. Quando? Naquele tempo, no tempo em que o senhor praticava ascese. Tendo feito o quˆe? Tendo posto `a frente, tendo feito seu l´ıder. Quem? Tur¯as¯ah, Indra.
De fato, como mostram Tubb & Boose, esse ´e apenas um dos modelos de glosar um texto encontr´aveis nos coment´arios sˆanscritos, ao qual se d´a o nome de kath
¯am. bh ¯
utin¯ı-(t.¯ık¯a), pela frequˆencia a´ı de perguntas tais como “kath am. - bh
¯
uta? ” (“Estando como? De que tipo?”, “kim. -vi´sis.t.a?” (“Caracterizado
como? Tendo que atributos?”). No modelo chamado anvayamukh
¯ı-(t.¯ık¯a),
´e dada proeminˆencia `a ordem habitual da prosa (anvaya), ordem essa que, segundo o Sam¯asa-cakra59
, ´e a seguinte: 58
A glosa de yayuh. por gat¯ah. ´e de dif´ıcil tradu¸c˜ao, fazendo sentido apenas no original. A primeira ´e forma do perfeito na terceira pessoa do plural, j´a a segunda, forma do partic´ıpio passado no nominativo plural. O que se passa ´e que o partic´ıpio passado veio a ser a forma mais comum de expressar a¸c˜oes pret´eritas no sˆanscrito p´os-p¯an.iniano, tendo as formas finitas do verbo, tanto o perfeito quanto o imperfeito e o aoristo, ca´ıdo em desuso na l´ıngua comum. Essas formas s˜ao utilizadas especialmente na l´ıngua liter´aria e n˜ao carregam, ao que parece, nenhuma distin¸c˜ao de sentido ou de aspecto apreci´avel, resultando seu emprego de preferˆencias de ordem estil´ıstica.
59
“(. . . ) manual elementar usado nos est´agios iniciais, no sistema traditional da educa¸c˜ao sˆanscrita” (Tubb & Boose 2007: 150).
vi´ses.an.am. puraskr
˚tya vi´ses.yam. tad-anantaram
kartr
˚-karma-kriy¯a-yuktam etad anvaya-laks.an.am
A ordem (habitual) das palavras ´e sujeito, objeto e verbo, pondo- se os modificadores antes dos modificados.
O come¸co do passo que se leu acima, comentado por Malli-n¯ath
a (s´ec.?), toma ent˜ao nova forma, mais fluida que a do coment´ario anterior:
tasmin k¯aleP¯arvat¯ı-´su´sr¯us.¯a-k¯ale T¯araken.a T¯araka-n¯amn¯a Va- jra ˙nkh
a-putren.a kenacid asuren.a viprakr
˚t¯aupaplut¯a divam okah.
sth
¯anam. yes.¯am. te divaukaso dev¯ah.. . .
Naquele tempo, tempo do servi¸co de P¯arvat¯ı, oprimidos, per- turbados, por T¯araka, certo demˆonio filho de Vajra ˙nkh
a cha- mado T¯araka, os que tˆem o c´eu por morada, por lugar, os mo- radores do c´eu, os deuses. . .
Dentro desses modelos maiores, kath am. bh
¯
utin¯ı e anvayamukh
¯ı, h´a outras
varia¸c˜oes poss´ıveis, e.g., misturas entre uma coisa e outra em diferentes graus. De fato, de ambos os procedimentos se poderia dizer que “expandem” o com-
mentandum, mas n˜ao ´e bem isso que pretendemos abarcar com essa rubrica.
O que se vˆe na Vr
˚tti soa mais como uma dissimula¸c˜ao do glosar: o texto do coment´ario expande e explica termos e conceitos do m¯ula sem deixar fissuras
na sintaxe, nem procede por meio da repeti¸c˜ao de glosandos e glosados como o fazem os coment´arios acima. Veja-se por exemplo este passo. Trata-se do coment´ario ao verso que encerra o kulaka (cf. 2.1) que abre o Brahma-k¯an.d.a:
pr¯apty-up¯ayo ’nuk¯ara´s ca tasya vedo mahars.ibh ih., eko’py, aneka-vartameva sam¯amn¯atah. pr
˚t h ak pr ˚t h ak (1.5)
O meio de obten¸c˜ao e r´eplica dele (leia-se brahman) ´e o veda que, embora uno, foi transmitido pelos videntes-mores (mahars.i) variadamente, como se tivesse v´arias vias.
A Vr
˚tti, que nos par´agrafos precedentes tratou de pr¯apty-up¯aya (“meio de obten¸c˜ao”; cf. 5.3.1) e anuk¯ara (“imagem, r´eplica”), volta-se agora para o restante do verso. Na sintaxe da k¯arik¯a, a palavra veda encontra-se no limite entre duas ora¸c˜oes, primeiro, como sujeito sint´atico, numa predica¸c˜ao comum:
pr¯apty-up¯ayo ’nuk¯ara´s ca tasya vedah.. . .
O veda ´e meio de obten¸c˜ao e r´eplica dele.
Em seguida, numa ora¸c˜ao em voz passiva, como sujeito l´ogico:
(vedo) mahars.ibh
ih., eko ’py, aneka-vatmeva sam¯amn¯atah. pr
˚t h ak pr ˚t h ak.
(O veda), embora uno, foi transmitido pelos videntes-mores como se tivesse v´arias vias, diferentes umas das outras.
Seria de esperar, em prosa, um anaf´orico retomando veda na segunda ora¸c˜ao, como sah. (ele, este) e.g., mas em verso n˜ao ´e incomum esse tipo de entrela¸camento oracional mais l´ogico que sint´atico. Seja como for, o co- ment´ario deixa claro que h´a a´ı duas ora¸c˜oes, separando-as: a primeira re- cupera, sem cit´a-la, a no¸c˜ao anuk¯ara, a imagem imanifesta do veda, a vis˜ao una (dar´san¯atman) da revela¸c˜ao —que pode ser aquela que o vidente (r
˚s.i), em decorrˆencia dos m´eritos adquiridos pela ascese, vem a experimentar—, e une-a a no¸c˜ao de unidade expressa a seguir (eko ’py. . . , no verso):
eko ’yam. ved¯akh
yo dar´san¯atmani sth ito dr
˚´syo ’rt
h ah..
Essa coisa chamada veda, que se vˆe contida numa ´unica vis˜ao (revelat´oria), ´e algo uno.
A ora¸c˜ao seguinte, cujo sujeito ´e justamente o anaf´orico sah., retoma arth a,
“a coisa” que se chama veda (ved¯akh
ya), e procede a uma longa expans˜ao
sint´atica e semˆantica daquela segunda ora¸c˜ao supramencionada. Veja-se que o esqueleto sint´atico ´e o mesmo:
sa mahars.ibhir. . . sam¯amn¯atah
. .
Ela (leia-se a coisa chamada veda) foi transmitida. . . pelos videntes- mores.
Essa ora¸c˜ao principal ´e encadeada com outras ora¸c˜oes ou sintagmas, nos se quais se podem ver, no n´ıvel semˆantico, elementos de glosa, mas que, de fato, s˜ao sintaticamente independentes de qualquer coisa que se encontre no
m¯ula. H´a uma ora¸c˜ao causal, em -tv¯at: abh
edasya pratip¯adayitum a´sakyatv¯at. . .
pelo fato de que n˜ao se pode comunicar a ausˆencia da diferen¸ca. . .
Uma outra, participial, em concordˆancia com sah. (arth
a/veda): abh
ivyakti-nimitt¯al labdh
a-krame v¯ag-¯atma-r¯upe pr¯apitah.. . . depois que tomou a forma de linguagem sequencial em virtude da
manifesta¸c˜ao. . .
Mais uma, em bahu-vr¯ıhi, modificando o mesmo sah.:
ekatv¯anatikramen.a sam. hit¯a-pada-krama-vibh¯agena pravibhakta-
m¯argah.. . .
divididos os seus caminhos, sem que superassem a sua unidade,
nos modos de recita¸c˜ao cont´ınua, segmentada e palavra a pala- vra. . .
E uma ´ultima, dependente do adjetivo que modifica o agente da passiva
mahars.ibh ih.: adh yayana-nimitt¯am adh yet¯r ˚n.¯am. caran.a-sam¯ak h y¯am. vyavasth ¯a- payadbh ih.. . .
(pelos videntes-mores), `a medida que iam estabelecendo a nomen- clatura das escolas de conduta, (o que se tornou a) causa de que os estudantes se aplicassem ao seu estudo.
O resultado final ´e essa estrutura complexa que, como se vˆe, mais que glosar dificuldades de forma e sentido, explica, numa esp´ecie de par´afrase expandida, os conceitos subentendidos da express˜ao concisa da k¯arik¯a. Man- tivemos em negrito apenas o esqueleto da k¯arik¯a:
sa mahars. ibhir bh
eden¯abh
edasya pratip¯adayitum a´sakyatv¯ad, abh
ivyakti-nimitt¯al labdh
a-krame v¯ag-¯atma-r¯upe pr¯apita, ekatv¯a- natikramen.a sam. hit¯a-pada-krama-vibh¯agena pravibhakta-m¯argo, ’dh yayana-nimitt¯am adh yet¯r ˚n.¯am. caran.a-sam¯ak h y¯am. vyavasth ¯apa- yadbh ih. sam¯amn¯atah.. (1.5.4)
Na tradu¸c˜ao abaixo desfazemos um pouco a literalidade, visando a uma leitura mais fluida:
Pelo fato de que n˜ao se pode comunicar a ausˆencia de toda di- feren¸ca, o veda (sah.), depois que tomou a forma de linguagem sequencial em virtude da manifesta¸c˜ao, de modo que seus cami- nhos, sem que superassem a sua unidade, se dividissem nos modos de recita¸c˜ao cont´ınua, segmentada e palavra a palavra, foi ent˜ao transmitido pelos videntes-mores por meio da diferen¸ca, `a medida que iam estabelecendo a nomenclatura das escolas de con- duta, o que se tornou a causa de que os estudantes se aplicassem ao seu estudo.
A ´unica glosa literal nesse passo parece ser bh
edena, pelo pr ˚t h ak pr ˚t h ak da k¯arik¯a, que de fato d´a precis˜ao maior `aquela express˜ao: “foi transmitido por meio da diferen¸ca”. Essa diferen¸ca ser´a explicitada a seguir: s˜ao os v´arios
ramos (escolas) de cada quarta-parte do corpus v´edico, Rg
˚-, Yajur-, S¯ama- e Ath
arva-veda, que, segundo o Brahma-k¯an.d.a, s˜ao partes de um ´unico rito
(karman.y ekatra c¯a ˙ngat¯a; cf. VP 1.6) .
Neste outro passo, vˆe-se a expans˜ao e detalhamento de um s´ımile. O verso encontra-se na por¸c˜ao do Brahma-k¯an.d.a que defende o conhecimento herdado, tradicional (¯agama60
, cf. VP 1.30-43), o quanto ´e parte insepar´avel 60
O termo ¯agama, al´em de referir-se a uma tradi¸c˜ao disciplinar espec´ıfica, como e.g.
em qualquer outro m´etodo de conhecimento, especialmente a inferˆencia (anu-
m¯ana) e a percep¸c˜ao direta, (pratyaks.a), e o quanto ´e condi¸c˜ao sine qua non
para o conhecimento do que n˜ao se pode saber por meio delas, especialmente os frutos invis´ıveis (adr
˚s.t.a-p
h
ala) das a¸c˜oes rituais. Vejamos a k¯arik¯a: hasta-spar´s¯ad iv¯andh
ena vis.ame path i dh
¯avat¯a anum¯ana-pradh
¯anena vinip¯ato na durlabh
ah.. (1.42)
Como no caso dum cego (andh
a) correndo por uma trilha in´ospita
(vis.ama panth
an) guiando-se pelas m˜aos, n˜ao ´e dif´ıcil “levar um
tombo61
” guiando-se primordialmente pela inferˆencia (anum¯ana-
pradh ¯ana).
A Vr
˚tti recomp˜oe o verso numa sintaxe extremamente complexa, cheia de desdobramentos, como se viu no exemplo anterior, mas, nesse caso, mantendo- lhe apenas o esqueleto semˆantico, sendo a constru¸c˜ao da frase distinta. Na
k¯arik¯a a constru¸c˜ao ´e nominal, sendo a ora¸c˜ao principal vinip¯ato na durla- bh
ah., lit. “o cair/a queda n˜ao ´e dif´ıcil”, limitada por um agente no caso
instrumental, o composto anum¯ana-pradh
¯ana, que pode ser lido tanto como karma-dh
¯araya62
, “por meio da inferˆencia como (m´etodo) primordial”, ou ba-
hu-vr¯ıhi, “por aquele que tem como (m´etodo) primordial a inferˆencia”. Seja
como for, o coment´ario recria um esqueleto de frase verbal:
sah.. . . niyatam. mahat¯a pratyav¯ayena sam. yujyate.
Ele. . . invariavelmente se depara com um grande obst´aculo (lit. ´e deparado por).”
Nesse fio principal, o autor da Vr
˚tti trama um tecido complexo de ora¸c˜oes, que mostraremos a seguir. O sah. da ora¸c˜ao principal ´e correlativo de yasya,
conhecimento v´alidos, cujo n´umero varia segundo cada escola de pensamento indiana. ¯A- gama ´e o testemunho ou autoridade verbal, no dizer de Pujol, “el testimoni ´es la declaraci´o
d’una persona fidedigna o ¯apta (s.v.)”. ´Sabda tamb´em ´e usado nesse sentido (cf. 6.1).
61
A express˜ao ´e metaf´orica. Vinip¯ata, que denota uma simples queda, no contexto em
quest˜ao, ritual´ıstico, significa incorrer em algum tipo de falta sujeita a expia¸c˜ao ou a puni¸c˜ao pior.
62
“cujo, a quem”. Vejamos, pela ordem e da maneira mais literal possivel, como se constroi a ora¸c˜ao relativa que procede do n´ucleo estabelecido (em negrito): yasya hi, sth ¯al¯ı–pul¯aka-ny¯ayenaika-de´sam. dr ˚s.t.v¯a, ´sis.t.e ’rt h e prati- pattih., sah.. . . niyatam. mahat¯a pratyav¯ayena sam. yujyate.
(Aquele) para quem, depois de observar uma por¸c˜ao (do objeto)
pela norma (ny¯aya) dos gr˜aos na panela, surge o entendimento do restante do objeto, ele. . . invariavelmente se depara com um grande obst´aculo.
O s´ımile dos gr˜aos (de arroz) na panela ´e uma conhecida norma (ny¯aya) de inferˆencia, referida com frequˆencia nos tratados de diversas escolas filos´oficas indianas: uma amostra do objeto h´a de servir para conhecˆe-lo todo. Esse s´ımile se liga a outro, o do cego, que se constroi, como no verso, com a part´ıcula comparativa iva (“como”). Ele aqui ressurge cheio de pormenores figurativos, distribu´ıdos em trˆes ora¸c˜oes constru´ıdas por meios de adjetivos em sˆanscrito (em termos de sintaxe portuguesa, seriam ora¸c˜oes reduzidas), cujos termos principais destacamos em redondo, a saber, paripatat, samati-
kr¯anta e pratipadyam¯ana:
so, —’ndh
a iva, vis.ame giri-m¯arge catus.mantam. net¯aram antare- n.a taras¯a paripatan, kam. cid eva m¯argaika-de´sam. hasta-spar´sen¯a- vagamya samatikr¯antas, tat-pratyay¯ad aparam api tath
aiva prati-
padyam¯anah.—, . . . niyatam. mahat¯a pratyav¯ayena sam. yu- jyate.
Ele, —como o cego, que se precipita apressadamente, sem um guia que enxergue, por uma trilha in´ospita nas montanhas, co-
brindo apenas uma parte do caminho, o qual compreendeu pelo
toque das m˜aos, deduzindo tamb´em o restante apenas pela f´e da- quilo (que o precedeu)—, . . . invariavelmente se depara com um grande obst´aculo.
Depois dessa compara¸c˜ao, por assim dizer, parent´etica, a ora¸c˜ao princi- pal surge como ora¸c˜ao comparativa propriamente dita. O primeiro sintagma, introduzido por yath
¯a (“assim como”), tem como sujeito o cego que se apres-
sava na trilha montanhesa; do segundo, iniciado por tadvat (“da mesma maneira”), o sujeito ´e o cego de inferˆencia. Este tamb´em ser´a refigurado, sem a necess´aria economia da k¯arik¯a, por trˆes ora¸c˜oes adjetivas encerradas pelos compostos tark¯anup¯atin (partic´ıpio ativo), ¯ahita-pratyaya (bahu-vr¯ıhi), e pravartam¯an.a (partic´ıpio m´edio):
sah. . . . , yath
¯a vin¯a´sam. labh
ate, tadvad, ¯agama-caks.us.¯a vin¯a ta-
rk¯anup¯at¯ı, kevalen¯anum¯anena kvacid ¯ahita-pratyayo, dr
˚s.t.¯adr˚s.t.a-
ph
ales.u karmasv, ¯agamam utkramya, pravartam¯ano, niyatam. mahat¯a pratyav¯ayena sam. yujyate.
ele. . . , assim como (o primeiro cego) acaba sofrendo, da mesma
maneira, seguindo a raz˜ao (tarka) sem o olhar herdado (¯agama- caksus), dando f´e numa parte das coisas por meio da inferˆencia
apenas, quando ent˜ao se ocupa de atos de frutos e invis´ıveis, des- cartando o conhecimento herdado, invariavelmente se depara com um grande obst´aculo.
O resultado final ´e esta longa ora¸c˜ao, estrutural e retoricamente complexa, fundada, como se viu, em diferentes n´ıveis de correla¸c˜oes. Deixamos a´ı a marca¸c˜ao apenas do esqueleto da ora¸c˜ao principal:
yasya hi, sth ¯al¯ı-pul¯aka-ny¯ayenaika-de´sam. dr ˚s.t.v¯a, ´sis.t.e ’rt h e prati- pattih., so —’ndh
a iva, vis.ame giri-m¯arge, catus.mantam. net¯aram antaren.a, taras¯a paripatan, kam. cid eva m¯argaika-de´sam. , hasta- spar´sen¯avagamya, samatikr¯antas, tat-pratyay¯ad aparam api ta- th
aiva pratipadyam¯ano—, yath
¯a vin¯a´sam. labh
ate, tadvad, ¯agama- caks.us.¯a vin¯a tark¯anup¯at¯ı, kevalen¯anum¯anena kvacid ¯ahita-pratya- yo, dr
˚s.t.¯adr˚s.t.a-p
h
ales.u karmasv, ¯agamam utkramya, pravartam¯a- no, niyatam. mahat¯a pratyav¯ayena sam. yujyate. (1.42.1)
A tradu¸c˜ao que damos abaixo, lima a literalidade em favor duma ex- press˜ao mais cuidada. Para isso sugerimos uma outra divis˜ao das ora¸c˜oes, separando a compara¸c˜ao, por exemplo, em ora¸c˜oes distintas:
Aquele que, depois de observar uma por¸c˜ao dos gr˜aos cozidos na panela, deduz acerca dos restantes, ´e como um cego que vai apres- sadamente e sem um guia por uma trilha in´ospita nas montanhas: tateando, ele cobre parte do caminho, deduzindo o restante da mesma maneira, acaba sofrendo. Da mesma maneira ´e aquele que segue a raz˜ao, sem o olhar herdado, dando f´e numa parte das coisas por meio da inferˆencia apenas: quando ent˜ao se ocupa de atos de frutos invis´ıveis, descartando o conhecimento herdado, invariavelmente se depara com um grande obst´aculo.