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Iniciaremos os comentários sobre as crônicas e os episódios de “Trauma”, “Uma mulher fantástica”, “Tubarão mecânico” e “Suflê de queijo”

Os episódios “Trauma” e “Suflê de queijo” relacionam-se bastante com os textos originais, têm o mesmo título e sofreram pouquíssimas alterações em suas adaptações. No caso do primeiro, ocorreram reduções de alguns diálogos e uma transformação no final, pois a crônica narra a separação do casal Mônica e Gilson e os supostos “traumas” que ambos causam ao filho Arthur, com seus novos e conjecturados relacionamentos. Contudo, o causador da confusão é André, que

inventa histórias mirabolantes sobre os pais, pois estava cansado de responder perguntas sobre a mãe para o pai e vice-versa. No fim da crônica, depois de descoberta a artimanha, André continua a brincar com as histórias escandalosas criadas por ele e os pais continuam separados, mas no episódio há a insinuação da reaproximação do casal em consequência de toda confusão ocasionada pelo filho. Mais uma adição não explícita para atender à expectativa do público.

A adaptação de “Suflê de queijo” desenvolve-se com similaridade aos comentários acima, contudo há adições de diálogos e de uma cena contextualizadora no início do episódio e ainda a ampliação do episódio. Neste caso, há um relato sobre o jantar em que Jorge convida o novo chefe para experimentar o seu suflê de queijo, mas o que parecia ser uma confraternização se transforma em uma situação embaraçosa: Jorge conversa com sua esposa, Marta, e lhe pede ajuda na recepção do chefe, seduzindo-o, pois esse encontro poderia mudar a sua carreira.

A crônica inicia-se com a voz do narrador apresentando o casal e introduzindo o assunto sobre o jantar e o episódio, por sua vez, cria duas novas cenas para que o público possa conhecer o casal e entender o motivo pelo qual a recepção ocorrerá. Por fim, há uma ampliação e uma adição no desenvolver da descoberta feita por Marta: o chefe não teria interesse algum por ela, e sim por Jorge. O texto literário chega a seu fim neste momento, mas no vídeo Marta aparece em entrevista e delata o envolvimento que o marido tem com o chefe.

“Uma mulher fantástica” e “Tubarão mecânico” são crônicas que foram completamente transformadas e ampliadas em sua adaptação, incluindo os nomes que passaram a ser “Uma tia fantástica” e “Dinossauro digital”. O contexto manteve- se o mesmo, como no caso de “Uma mulher fantástica” / “Uma tia fantástica”: ambos retratam a chegada de uma tia descolada, espiritualizada e jovem na casa de sua sobrinha Celinha. O marido de Celinha, Reinaldo, por sua vez, no primeiro momento implica com esta chegada, mas quando conhece a tia Amanda – que no episódio passou a ser chamada de Sabrina – fica completamente encantado por ela. Na serialização, tia Sabrina tenta seduzir Reinaldo, que se mostra bastante fiel à esposa, e diz que apenas estava agradando a tia para satisfazer a esposa; na

crônica, Celinha manda a tia embora quando nota o interesse do companheiro em relação à hóspede recém-chegada.

O mesmo acontece em “Tubarão mecânico”/ “Dinossauro digital”: a história é baseada no encontro de três casais em um jantar de confraternização, no qual começam a relembrar histórias do passado. A noite acaba em constrangimento quando uma das esposas confessa uma antiga paixão pelo marido da amiga, que também participa da reunião, e ainda formula a hipótese de como seria sua vida se eles ficassem juntos. No vídeo, porém, apenas ocorrem outras revelações sobre o passado e descobrimos que todos os casais já tiveram paixões e relacionamentos entre si, o que termina em total confusão e o jantar se encerra como um fiasco. Este fato ainda tem intertexto com o famoso poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade e com essa menção presente no episódio pode ser feita uma paródia da poesia:

Quadro 11 – Paródia de “Quadrilha”

Texto parodiado Poesia Quadrilha

Sibelis que amava Bruno, mas casou-se com Rubem.

Rubem que era casado com Sibelis, mas amava Rosana.

Rosana que era apaixonada e casada com Bruno, mas no passado teve um caso com Viriato.

Viriato que era casado com Dolores, que começou a confusão, mas só queria dar um jantar.

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

Fonte: Elaborado pela autora.

Há outra transformação bastante relevante: o nome da crônica é decorrente de um trecho em que a personagem Dolores relata a maneira como ela e o marido se conheceram:

Quadro 12 – Trechos de “Tubarão mecânico” Crônica (p. 107 e 108)

– Devemos nosso casamento a um tubarão. – A um tubarão?!

E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme de tubarão do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a única pessoa que não conhecia no grupo.

– Que vinha a ser adivinhem quem?

Viriato, o marido da Dolores, levantou o dedo e disse “Eu”. Foi aplaudido por toda a mesa. – Aí, Vivi!

Fonte: Amor Verissimo (2013).

No episódio, a transformação ocorre principalmente pela troca de filme, agora é Jurassic Park 3, e é Rosane quem narra o fato, sendo ela e o esposo os atuais protagonistas da história. Sobre a troca de títulos cinematográficos, é feita a atualização cronológica da trama, pois na crônica os três casais têm em torno de 50 anos e no episódio eles estão na faixa dos 35 anos, além de escolherem um filme que pertence à terceira produção de uma série, ou seja, rebaixa o grau “do susto” que Rosane relata na história.

Quadro 13 – Fragmento da série Episódio (12m58s – 13m08s) Plano de Imagem Dolores: Se ainda fosse Jurassic Park I

tudo bem, ainda dá pra assustar. Mas o 3?! Filme sem graça! Quem que tanto ia ter medo daquilo, gente?!

Plano Americano

Fonte: Elaborado pela autora.

Acima, encontramos um recorte da narração em vídeo de Dolores, entretanto, é utilizado um recorte para outro plano fora da trama, em que a personagem assume o papel de narradora em primeira pessoa do episódio. Na fala da personagem, é notável a descrença sobre o fato do “susto”. Dolores, na adaptação, diminui a ação da colega e assim intensifica a transposição constrangedora e frustrante pela qual os casais estão passando.