Apesar do impacto inicial que teve a obra de Glaser e Strauss (1967), a forma como descrevem as habilidades necessárias para se descobrir uma teoria usando a grounded theory acabou de certa forma tornando-se obscura. Sua afirmação a respeito da necessidade de o pesquisador ter sensibilidade teórica para perceber dados relevantes não explica claramente o que seria essa sensibilidade nem como se faz para desenvolvê-la. Essa dúvida metodológica acabou criando uma linha divisória nos trabalhos de Glaser e Strauss.
Hoje se pode dizer que seria inevitável a dissidência teórica entre Glaser e Strauss a partir de sua descoberta inicial da grounded theory. Glaser tinha uma formação fortemente sustentada em análise qualitativa de dados quantitativos, metodologia usada em sua tese de doutoramento e com forte influência de metodologia indutiva qualitativa e quantitativa em sua formação. Strauss obteve seu titulo de PhD na Universidade de Chicago, tradicionalmente qualitativa em suas pesquisas e sofreu forte influência do interacionismo simbólico que premia por pesquisas de campo e suporte em teorias não abstratas. As dissidências eram visíveis inclusive aos olhos de seus alunos nas décadas de 60 e 70, quando ambos ensinavam a trabalhar com grounded theory usando diferentes “modus operandi” (GLASER, 1992, p.117).
A dissidência entre Glaser e Strauss começou a se concretizar com o lançamento de Qualitative Analysis for Social Scientists (1987), no qual Strauss propõe uma forma mais compreensível e operacionalizável de se codificar dados com uma perspectiva teórica fundamentada na grounded theory. Nesse livro ele lança os preceitos das codificações aberta, axial e seletiva, com um foco claramente didático para os iniciantes na grounded theory, ao reconhecer que esses “parecem experimentar dificuldades em descobrir ‘condições’ ao inspecionar seus dados”, sugerindo assim a utilização do “paradigma da codificação”, “especialmente útil para os analistas iniciantes” (STRAUSS, 1987, p.27-28).
Quando o analista está codificando os dados, ele deve ter em mente que a atribuição de nomes aos dados implica em mais que isso. Para tanto, Strauss (1987, p.27) sugere um paradigma da codificação “especialmente útil para analistas iniciantes” na grounded theory e que consiste de quatro conceitos gerais a se ter em mente na codificação de categorias e subcategorias e que seriam: (1) condições, normalmente fáceis de identificar; (2)interações entre os atores; (3) estratégias e táticas e (4) conseqüências.
Pode-se perceber que esse paradigma auxilia o “processo de codificação teórica” ou axial, como Corbin e Strauss (1990) o denominam, no qual as categorias e conceitos identificados durante a codificação aberta passam a ser relacionados (a) ao fenômeno observado, (b) a suas condições causais; (c) aos atributos do contexto onde ocorre o fenômeno; (d) a outras condições intervenientes e que influenciam o fenômeno estudado, (e) às ações e estratégias de interação adotadas pelos atores para lidar com o fenômeno e (f) os resultados e consequências dessas ações e estratégias adotadas (KELLE, 2005, p.5).
Apesar de Glaser (1992) julgar que conceitos como a codificação axial e o paradigma de codificação estariam forçando categorias nos dados, enquanto ele considera que as mesmas deveriam emergir, há correntes que discordam desse ponto de vista. Melia (1996), por exemplo, considera que as metodologias devem ser revistas e clarificadas, possibilitando assim seu acesso a outros pesquisadores
A codificação aberta, de acordo com Corbin e Strauss (1990, p.12) é “o processo interpretativo pelo qual os dados são sistematicamente subdivididos. Sua finalidade é dar ao analista novas idéias pela mudança na forma de pensar comumente adotada sobre os dados observados ou na forma de interpretar o fenômeno refletido nos dados”. Na codificação aberta, busca-se identificar e comparar uns aos outros, os acontecimentos, as ações e as interações, destacando-se o que é diferente e o que é comum. Essa identificação ocorre por meio de nomes ou rótulos atribuídos que, em um segundo momento, permitirão agrupar esses eventos, dando origem às subcategorias e categorias.
De acordo com Strauss e Corbin (1998, p.103), o primeiro passo na construção de teoria é a conceituação, que nada mais é que a “rotulação de um fenômeno”, uma forma de representação mental dos eventos observados. Esses autores deixam claro que esse seria o passo inicial no trabalho científico que permite aos investigadores agrupar ou distinguir específicos fenômenos, bem como examiná-los comparativamente. Nesse aspecto, a codificação aberta é um passo analítico preparatório essencial.
Strauss e Corbin (1998) sugerem ainda que sejam utilizadas anotações do pesquisador26, sempre que uma codificação aberta demandar um apoio interpretativo do mesmo. Essas anotações são essenciais para desenvolver as categorias e suas propriedades (atributos ou características de uma categoria) e dimensões (localização de uma propriedade dentro de uma percepção variável: forte - fraco; curto - longo; por exemplo).
A codificação aberta, como passo inicial, deve ser feita sempre por meio de questionamentos constantes registrados nas anotações do pesquisador e também através da comparação constante, para se identificar vieses e subjetividades presentes. A relação dialógica entre a visão êmica e a visão ética é essencial ao trabalho interpretativo, uma vez que o conceito é construído pela perspectiva do analista, mas que não deve perder de vista os significados atribuídos aos fenômenos na ótica do observado.
Uma vez agrupados nas categorias e subcategorias, a codificação axial surge como uma ação que estabelece a forma como as categorias se relacionam com as subcategorias, tendo como referência central (ou axial) as propriedades e dimensões que definem essa categoria. Como afirmam Strauss e Corbin (1998, p.64), a finalidade da codificação axial é uma remontagem dos dados que foram divididos e classificados durante a codificação aberta, buscando a construção de uma malha de relações observáveis nas propriedades de uma categoria observada. A partir dessa observação, o analista pode estabelecer condições e conseqüências que estão “associados ao surgimento do fenômeno observado e referenciado pela categoria sob análise”.
Para Backman e Kyngas (1999, p.150), a codificação axial é:
...um processo complexo de pensamento indutivo e dedutivo envolvendo várias etapas. Ela (a codificação axial) põe os dados novamente reunidos em novas maneiras ao criar conexões entre as categorias e subcategorias[...] O foco da codificação axial está na especificação da categoria no contexto onde ela surgiu. [...]Durante esse processo o pesquisador discute concretamente com seus dados, mas, ao mesmo tempo, o processo é bastante abstrato e ocorre na mente do pesquisador, parcialmente inconsciente. O pesquisador deve saber lidar com a incerteza de não encontrar conexões entre as
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categorias ou com o sentimento de que está pesquisando o fenômeno inadequadamente.
Tanto a codificação aberta, como a seletiva estão presentes na escola Glaseriana e na escola Straussiana. Na escola Glaseriana, a codificação seletiva é um processo de delimitação do que já foi feito a partir da codificação aberta, restringindo-se apenas às variáveis que se relacionam com a categoria principal (Jones e Noble, 2007). Na escola Straussiana, a codificação seletiva é “o processo de integração e refinamento de categorias (Strauss, 1987, p.143).
Jones e Noble (2007, p.93) chamam a atenção, entretanto, para o aspecto de que a codificação seletiva, dentro da escola Straussiana sofreu algumas variações conceituais:
1987: codificação seletiva é um processo “emergente” baseado no uso contínuo de arranjos das notas e de diagramas integrativos;[...]
1990: codificação seletiva emprega o mecanismo de “forçar” do paradigma de codificação;[...]
1998: o modelo de paradigma caiu e um processo emergente baseado no arranjo das notas e registros é de novo considerado.
Percebe-se aqui que houve um realinhamento entre a perspectiva de Strauss e a de Glaser, que sempre criticou a maneira como a metodologia de Strauss forçava o surgimento de teoria, enquanto ele julgava que a mesma deveria surgir naturalmente, emergindo da análise dos dados (GLASER, 1992).
Há que se concordar com Bianchi e Ikeda (2006) quando falam dos problemas de traduzir determinadas expressões para o português e que, definitivamente, theoretical sampling é uma delas. Os fundadores da grounded theory, outra expressão complicada de traduzir, Glaser e Strauss (1967), ao utilizá-la, se referiram mais a um método de escolha de fontes de dados guiado pelo propósito de se construir uma teoria a partir dos dados, tornando assim essa “amostragem” dinâmica, flexível e mutável no decorrer da pesquisa (GLASER e STRAUSS, 1967; STRAUSS, 1987, STRAUSS e CORBIN, 1990).
Buscar a teoria é o objetivo do método. O theoretical sampling são indivíduos, situações, eventos idealizados para o processo de análise. Intencionalmente forma-se um grupo foco para o estudo e, ao longo dos trabalhos, o grupo se torna ‘teórico’ à medida que suporta a criação de hipóteses e desenvolve teorias. Esse grupo pode ir se ajustando intencionalmente ao longo do processo, isto é, novos grupos podem ser definidos e incorporados ao processo (BIANCHI e IKEDA, 2006, P.9).
Percebe-se que o theoretical sampling é guiado pela percepção de surgimento de categorias principais, que têm o propósito de suportar o desenvolvimento de teorias e irão definir os caminhos para coletar novas informações e dados.
Pode-se dizer que, nesse ponto, Glaser e Strauss tiveram alguma convergência conceitual, acentuada a princípio, quando Strauss (1987) assume a categoria principal como o passo final para se chegar à grounded theory , como o fez Glaser (1978). Eaves (2001) sintetiza essa convergência afirmando que a categoria principal seria o tema central ou a trama/enredo dos dados, que tem as demais categorias englobadas e pode ser representada graficamente pelo esquema que se vê na FIG.2 a seguir.
FIGURA 2 Representação desenvolvida por Charmaz (1983), demonstrando os passos para se chegar à Categoria Principal. Fonte: Eaves (2001)
A ilusão de que seja algo simples se desvanece no trabalho de codificação, quando o investigador iniciante na técnica percebe que a mudança de foco para a observação de um processo como um todo com uma codificação e análise simultânea dos dados pode ser um
processo árduo. Esse processo demanda a verificação e comprovação da identificação da categoria principal, através da saturação teórica, da relevância e da operabilidade (BACKMAN e KYNGAS, 1999).
A categoria principal, também denominada categoria central é um esforço de busca e identificação importante, uma vez que representa “o tema principal da pesquisa” ou “do que se trata a pesquisa” (STRAUSS e CORBIN, 1998, p.146). Na perspectiva de Glaser (1978, p.94):
Ele (o pesquisador) está constantemente procurando pelo “tema principal”, para aquilo – na vista dos atores observados- que é a maior preocupação ou problema para as pessoas no locus de pesquisa, para aquilo que conforma em um padrão de comportamento a substância do que acontece nos dados, para aquilo que é a essência de relevância refletida nos dados, por gerúndios que expõem processos e mudanças.
Como critérios para escolher a categoria central, Strauss (1987) sugere alguns critérios facilitadores: (a) deve-se relacionar a todas as outras principais categorias; (b) deve estar presente na maior parte dos dados; (c) a explicação surge e evolui, sem forçar os dados, relacionando as categorias de forma consistente, (d) a forma como se identifica a categoria principal (central), seja um nome ou uma expressão, deve ser abstrata ao ponto de poder ser utilizada em outras áreas substantivas, propiciando o desenvolvimento de teorias formais; (e) à medida que os conceitos são refinados pela integração com outros, há uma evolução da teoria pela perspectiva de capacidade explicativa, (f) mesmo sob condições diferentes das observadas, o conceito desenvolvido deve preservar sua capacidade de explicação do fenômeno observado.
Além desses critérios, Strauss e Corbin (1998) propõem quatro diferentes abordagens para identificar a categoria central: (1) escrever o enredo27 baseado na percepção do pesquisador sobre o que parece estar acontecendo no fenômeno observado, sendo que a leitura dos dados deve ser orientada não para detalhes, mas sim para uma visão do todo. As perguntas que auxiliam a construir o enredo são: Qual a questão principal? Qual o problema que mais prende a atenção das pessoas envolvidas? O que me vem à mente repetidamente? O que pode ser depreendido, mesmo que não seja explicitado? (2) passar da descrição para a conceituação, que ocorre quando a idéia central, ou a essência do fenômeno observado é compreendida pelo pesquisador e, ele pode nomeá-la, mesmo que não haja uma categoria
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central única que consiga explicar inteiramente o fenômeno. Esse nome atribuído é entendido então como uma conceituação do que está acontecendo, se encaixa nos dados apresentados de maneira lógica e apresenta uma interpretação sobre o que se trata na pesquisa; (3) usar diagramas para tornar mais fácil a ordenação e arranjo das relações entre conceitos que o uso de notas. O desenho diagramático, segundo Strauss e Corbin (1998, p.153) “força ele ou ela (o analista) a trabalhar com conceitos ao invés de detalhes”. Com isso, o pesquisador tem uma visão geral mais rigorosa e que leva possibilidades de conduzi-lo à construção de uma história que integra as relações percebidas. Para esses autores, os diagramas não necessariamente contêm todas as categorias encontradas na pesquisa, mas apenas aquelas principais de modo a tornar o esquema relacional fácil de ser entendido por terceiros. Finalmente, os autores citam a atividade de (4) revisar e organizar com o uso das notas28 como um espaço analítico, onde o pesquisador registra as propriedades e dimensões dos conceitos atribuídos às categorias. Strauss e Corbin (1998) consideram que a revisão sistemática e reorganização das notas, de acordo com as categorias com que elas se relacionam podem leva o pesquisador a um considerável grau de integração.