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Vista a questão das redes internacionais, e seu papel na distribuição das fazendas, assim como o contexto mercantil, vejamos agora o peso mesmas na exportação de escravos para Angola. Na sua obra Cross Cultural Exchange, Roquinaldo, refere o peso deste bem de permuta, sem porém lhe dar um grande enfoque. Este já havia sido dado na sua tese de doutoramento onde, fazendo uma avaliação do preço, refere a importância dos coromandeis, e dos zuartes. A par da preferência destes tecidos, este atesta a importância dos mesmos, ligada ao prestígio

social de seu uso1. No entanto em uma outra fonte, há outra ordem de importância indicada. Um documento destinado à corte reforça esta posição, mencionando que eram as fazendas da Índia que eram as mais procuradas e delas destacam-se: Calamanhas, Coromandeis, Borralhos, Tafeciras, Linhas (a que dizem ser inglesas), Cobertas de Damasco e Balagarte, Lenços Sotomomales, e outros tecidos mais baratos, mas eles de países quentes2. Outras fazendas mencionadas eram os Zuartes de Milhor.

Mas as fazendas da Índia, não eram as únicas mencionadas conta-se também: Fazendas do Norte da Europa; Bretanhas de Hamburgo, Cobertores de Papa, Baetas, e outros géneros como; contas de loiça de várias cores; chamas missangas; coral, missanga, cassungo, zimbro3.Os motivos para a importância atribuída a estes bens de permuta, varia consoante os diferentes historiadores.

Uma questão colocada por Joseph Miller é que a procura dos tecidos da Ásia, e da Europa, serviam para colmatar as fracas técnicas e indústria de curtumes africanas. Por outro lado a posse desses tecidos, segundo o mesmo autor, era símbolo de status social4. Segundo o mesmo, em comparação aos tecidos lusos e europeus, a vantagem aferidas por estes tecidos estava, ou no seu requinte a ouro e prata dos tecidos de Algodão, ou na diversidade das cores5. Por sua vez, John Thornton, para o século XVII, associa essa aquisição a questão da vaidade6. A mesma vaidade, dentro desta linha de pensamento, seria socialmente, mostra a sua posição social pela posse de produtos exóticos.

Porém serão as únicas questões, que levariam ao sucesso do mesmo produto? Uma das questões que se levanta para o sucesso do mesmo era serem tecidos resistentes mas frescos, que permitia que, quando usados o calor sentido não fosse insuportável.

1 Roquinaldo Ferreira, Transforming Atlantic Slaving: Trade, Warfare, and Territorial Control in

Angola, 1650 – 1800, p. 116.

2 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 95, doc. nº 9, 10 – 03 – 1800. 3 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 95, doc. nº 9, 10 – 03 – 1800. 4 Joseph Calderon Miller, op cit, p. 80.

5 Idem, op cit, p. 74. 6 John Thorton, op cit, p.98.

Além do calor estas fazendas tinham outras particularidades: resistência, durabilidade, as cores, e a permanência das cores nas lavagens1. As quais, segundo o mesmo oficio, variam segundo a estação, assim como o gosto dos negros. Logo, a par de um certo símbolo de status, havia uma grande utilidade na sua utilização.

Outra questão, dentro da dimensão estatística, é a comparação do peso da exportação destes bens, com os restantes bens de permuta do reino e das Américas. O peso da reexportação deste género, só por si corresponde a 58% quedando-se em segundo com 27% as bebidas do Brasil, os produtos do reino, das quais se destaca o Vinho, corresponderia a 10% do que era exportado para esta permuta2. Desta forma, só este bem tinha a maioria nos produtos de reexportação.

No plano da substituição, destes bens pelos das Fábricas do Reino, tenhamos em atenção as diferenças percentuais entre eles. Do total a exportação dos produtos da Ásia, corresponderia cerca de 70%, quedando-se os produtos das Fábricas, lanifícios, algodoaria, linifícios, sedas, entre outros, cerca de 30%3. No plano de lógica de exportação, isto indica a maior estima por parte destes produtos, do que o das praças portuguesas o que torna difícil a sua implementação. Ora inquestionavelmente o peso da exportação e reexportação, pende para as fazendas da India mas será esse o único factor que indica a sua importância.

A par dessa dimensão, há que ter em conta o que os diferentes governadores dizem sobre o peso desse bem na permutação propriamente dita. Ao ler a documentação, verifiquei um pedido constante, principalmente de Benguela, das fazendas da Índia. No caso desta capitania, cerca de 90% da reexportação dos produtos do reino, eram as fazendas da Índia4. Sobre os bens de permuta, as fazendas da Índia, a primeira referência, é de 1781, onde se diz em ofício que saíram cerca de 1000

1 Herbert S. Klein, op cit, p. 292. 2 Gráfico 15, p. 201.

3 Gráfico 17, p. 203, e Gráfico 16, p. 202. 4 Gráfico 2, p. 189

escravos, por falta de fazendas1. Os restantes documentos advertem que a falta das ditas fazendas causa malefício no comércio e quebra no tráfego negreiro2. Sobre a primeira referência é trazida de Lisboa, uma grande carregação de fazendas para Honorato Abreu e companhia3.

Dentro desta conjuntura, é pedido que venham as fazendas da Índia, que estejam na Bahia de modo a poder-se comerciar os escravos4. Os africanos nativos vêm aos presídios com as suas carregações, trocando as suas mercadorias, escravos inclusive, por fazendas e 19 outros géneros que não são identificados. Aos africanos trocam as suas mercadorias, por quem tem as fazendas desejadas mais a mão e no momento. Estas por si segundo o dito governador, correspondem a cerca de 25% a 50% das moedas de troca das fazendas.

Ao analisar detalhadamente as tendências destes bens, encontro a seguinte tendência de exportação por parte de Portugal destes tecidos: Zuartes 27%; Cádeas 22%; Coromandeis 10%; Panos de Cafre 6%; Lenços 6%5. Ora o que era reexportado por Portugal, não corresponde ao de maior procura por parte do Sertão, com excepção dos coromandeis, o que por sua vez explique a questão do chamado contrabando. Não tendo números para fazer uma comparação, creio que os ingleses/franceses, teriam em condições de fornecer ao sertão as fazendas na ordem de importância exposta.

Mas o acesso, o peso atribuído por si, não é suficiente para determinar se este bem tinha uma importância real. Outro ponto, além no do acesso, é o papel das mercadorias em questão na actividade comercial propriamente dita. A quando uma embarcação, a Galera Santo António Sertório, que, na sua ida a Cabinda, não consegue

1 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 64, doc. nº 37, 22 – 07 – 1781.

2 A.H.U, Conselho Ultramarino, Angola, Caixa 76, doc. nº 43, 21 -06 – 1791 A.H.U, Conselho

Ultramarino, Angola, Caixa 81, doc. nº 5, 20 – 01 – 1795 & A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 82,doc nº 28, 21 – 09 – 1795 & Vide: A.H.U, Conselho Ultramarino, Angola, Caixa 84 doc. nº 10, 27 – 07.

– 1796 & A.H.U, Conselho Ultramarino, Angola, Caixa 85, nº 17, 29 – 01 – 1797.

3 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 76, doc. nº 56, 28 – 06 – 1791. 4 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 82,doc nº 28, 21 – 09 – 1795. 5 Gráfico 14, p. 200. E Gráfico 13, p. 199.

negociar escravos por não terem as fazendas próprias1. Esta embarcação partiu com Brins para África para negociar, o que não são as fazendas corretas para a permuta por escravos2. Por tal é pedido que, do porto no Brasil, possam ir buscar as fazendas próprias para realizar a negociação.

No fim deste período, esta questão – no que respeita a Benguela – parece estar regularizada, uma vez que é enviada uma consignação a Manuel Joaquim de Azevedo para a realização do tráfego negreiro3. Ora a bordo, apesar de levar bebidas, e outros elementos, foi a falta das fazendas da Índia, que fez com que se gorasse esse mesmo negócio. Ora na prática do comércio, esta questão atesta que a falta das moedas corretas, para a permuta, poderiam gorar a prática do comércio. Este caso, dado o que gorou as trocas comerciais foi a falta das fazendas devidas, indica que era crucial ter este bem para a realização das trocas no sertão.

Em súmula, quer estatisticamente, quer em termos de procura, quer pelo reconhecimento dessa mesma importância, dá a ideia do peso hegemónico deste bem no sertão. Os quais, numa leitura de conjunto, atestam a fragilidade do triangulo comercial português, se não são mesmo um resultado da sua crise pela incapacidade de terem um maior acesso ou maior expressão territorial que lhes permita maior acesso as fazendas da Índia. Estas assumem a primazia, ligadas a uma rede comercial mais densa, que a torna depende não dos circuitos comerciais europeus, mas antes dos circuitos comerciais indianos.

Numa visão geral estas, não tem, assim como no armamento, um efeito desestruturante como é apontado, mas integram-se na própria simbologia social de estatuto social nas sociedades africanas aos quais são permutadas. Nesse mesmo aspecto, há uma predominância impressionante das fazendas da India sobre todos os outros produtos. Estas, mais do que causarem desestruturação social - no máximo –

1 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 96, doc. nº 43, 20 – 07 – 1800. 2 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 91, doc. 17, 12 – 03 – 1799. 3 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 121-A, doc. nº 11, 16 – 11 – 1810.

poderiam causar um reforço das distinções sociais já existente. Por outro lado – no caso das armas, apesar do papel reduzido na exportação – eram um meio de ajudar a reforçar o poder pelas linhagens já existentes, que é o mesmo que dizer pelos estados africanos. Estas em si, as quais eram exportadas apesar da relutância dos governadores, serviam na estratégia portuguesa como uma forma de tentar evitar o acesso aos estados africanos das que eram fornecidas por Ingleses e Franceses.

Já as bebidas, apesar da importância das jeribitas, também apresentam um peso irrisório no consumo do sertão – consumo cuja quebra está relacionada com a proliferação dos alambiques e dos meios de produção local. Apesar da oposição dos governadores, a venda de armas no sertão, que chocava com os objectivos portugueses para o sertão, estes estavam dentro das intenções mercantis portuguesas.

Assim, quer as armas, quer as bebidas, no plano da exportação, tinham valores residuais a quando comparadas com as fazendas da Índia. Estas, no aspecto mencionado, eram sinal de status social, quer aos sobas, mucotas, ou qualquer outro dignatário africano, assim como aos membros mais ricos das sociedades em questão. Correspondem a uma rede, na qual não só estão presentes os portugueses, mas depende de uma rede internacional mais vasta, sendo o ponto africano, um dos pilares dessa mesma rede, pelo fornecimento de mão-de-obra; as quais, apesar dos esforço e intenção do reforço do consumo dos produtos reinóis, quer nas possessões, quer nos sertões – o qual não é acompanhado, pelos hábitos de consumo das populações africanas.

No plano de interacção com o projecto apresentado, a procura do sertão dificultava a aplicação da substituição do peso das fazendas coloniais e estrangeiras, pelos produtos do reino. Os quais chocam, com a utilidade e estima que estes últimos, principalmente as fazendas, encontram no sertão africano.