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1.6 Sentrale begreper

1.6.5 Gesamtkunstwerk – allkunstverk

Neste capítulo, tratamos de fornecer uma situação para a apresentação da obra de Simon tal como proposta na introdução. Desenvolvemos elementos de contexto em três planos. O primeiro, e mais importante, o plano histórico e biográfico. O segundo, um recorte metodológico breve da obra de Simon. O terceiro, uma discussão sobre os procedimentos deste estudo. Acredito que apenas o primeiro reclama algum resumo.

Na contextualização histórica do trabalho de Simon exploramos alguns temas, marco aqui os mais importantes. Primeiro, tratamos do “regime da Segunda Guerra Mundial” surgido em torno da confluência entre as empreitadas científica e militar durante a Segunda Guerra e algumas de suas conseqüências mais gerais. Em segundo lugar, discutimos a importância deste regime para a carreira de Simon, em particular a disponibilidade do computador, a partir de meados da década de 1950, para sua pesquisa. Em terceiro lugar, identificamos e analisamos como importante manifestação desse regime a “pesquisa operacional” e foram traçadas algumas de suas implicações para a economia em particular e, de maneira mais vaga, para as ciências sociais em geral.

Do ponto de vista do restante do trabalho, acho particularmente importante guardar dois pontos desta discussão. Primeiro, é bom ter em vista – deve facilitar o entendimento – as mudanças na agenda de pesquisa de Simon em meados dos anos 1950 e os novos conceitos que vão surgindo a partir daí. Segundo, queria ressaltar, talvez não tenha feito isso o suficiente, a centralidade do computador nestes eventos que viemos discutindo, tanto para Simon quanto para o processo histórico mais geral.

3 Racionalidade

Simon aponta para uma “esquizofrenia aguda [das ciências sociais] em seu tratamento da racionalidade” (1976a: xxvi-xxvii, ver também 1957: 1). De um lado os economistas atribuem ao homem econômico uma racionalidade absoluta e onisciente: as alternativas de comportamento são conhecidas em sua totalidade, as conseqüências de cada uma delas também são, estocástica ou deterministicamente, conhecidas e preferências consistentes e completas juntamente com uma capacidade computacional irrestrita permitem a ordenação das alternativas e a seleção da preferida entre todas as possíveis. No outro extremo, afirma ele, encontramos, na psicologia social, tentativas de reduzir a cognição ao afeto e de demonstrar que os homens não são, nem de perto, tão racionais quanto gostam de se imaginar.

Do ponto de vista de nosso estudo não importa tanto se a esquizofrenia, de 1976 até o momento, foi ou tem sido “tratada” entre os psicólogos sociais, mas mais o fato de que a posição do mainstream econômico no espectro dos tratamentos da racionalidade continua extremada.

Nesse sentido, o conceito de racionalidade restrita de Simon é uma tentativa de mediar entre os aspectos racionais do comportamento humano e uma descrição realista deste comportamento, que apresenta muito pouco dos poderes atribuídos ao homem econômico. É importante notar que, apesar dele ressaltar as restrições à racionalidade, seu movimento corresponde a uma extensão das possibilidades do conceito, pois o conceito de racionalidade restrita permite tratar como racional uma classe muito maior de comportamentos.116 Mas por que esta ênfase nos aspectos racionais do comportamento? O que a sustenta é a percepção de Simon de que, em geral, muito do comportamento humano tem, ao menos, a intenção de racionalidade – é orientado a objetivos, sendo muitas vezes eficaz em atingi-los. Nesta passagem, em especial, a noção de racionalidade é dissociada (volta a ser dissociada) da idéia de onisciência, desfazendo a ligação entre estes conceitos, distintos, tal como encontrada na

116

A transitividade é apenas o exemplo mais óbvio do ponto de vista do economista. Escolhas não transitivas podem ter sido feitas racionalmente por um agente restritamente racional. No jargão, o conceito de racionalidade de Simon é menos restritivo.

hiperracionalidade neoclássica. Como resultado, a psicologia não pode ser deixada de fora da teoria (Simon, 1976a: xxviii).

Simon sempre questiona os méritos descritivos da teoria econômica tradicional, mas sua posição sobre o caráter normativo da teoria neoclássica é mais ambígua. Podemos ter uma amostra disso a partir dos seguintes trechos publicados num período de tempo relativamente curto:

Recent developments in economics, and particularly in the theory of the business firm, have raised great doubts as to whether this schematized model of economic man provides a suitable foundation on which to erect a theory – whether it be a theory of how firms do behave, or of how they ‘should’ rationally behave. (Simon, 1955a: 241)117

One can hardly take exception to these requirements [made to the economic man] in a normative model – a model that tells people how they ought to choose. For if the if the rational man lacked the information, he might have chosen differently ‘if only he had known’. (March e Simon, 1958: 138)

O que poderia ser dito para esclarecer esta situação? O modelo da teoria econômica tradicional talvez pudesse ser tomado como normativo se pensado como uma espécie de “referência”, no entanto, na prática ele fornece poucas pistas de como proceder. Isto acontece porque, de fato, a questão de eficiência sempre se coloca ao decisor de forma relativa (Simon, 1947: 181): Entre as alternativas consideradas qual a mais eficiente? Ela nunca aparece na forma: Qual é a alternativa mais eficiente? Neste sentido, a teoria baseada no ótimo não é uma boa teoria normativa porque não provê regras de conduta através das quais se poderia, ao menos, melhorar a eficiência das decisões. Todavia, isso não quer dizer que não se deva tentar caminhar em direção ao “ótimo”, mesmo que não se saiba jamais o quanto falta para chegar lá, com soluções que são, só, melhores que as outras. “Attainment of objectives is always a matter of degree.” (Simon, 1947: 177).