• No results found

Decomposing the spread

B. l The Glosten and Harris (l988)-method

B.2 The George et al. (1991)-method

O fenômeno chamado de dêixis10 é conhecido e estudado desde a Antiguidade

clássica e inclui certas palavras que dependem da posição do indivíduo no plano espacial e temporal para adquirirem significado. Exemplos desse fenômeno são os pronomes pessoais (p. ex. eu e nós, que não possuem significado próprio, pois servem para a identificação do falante no momento em que pronuncia o discurso), os advérbios de lugar e de tempo (p. ex. aqui e hoje também dependem, respectivamente, do local e do momento de enunciação para adquirirem significado), bem como a classe dos demonstrativos.

9 No original: “(…) ambos conceptos parecen tener una funcionalidad diferente. La noción de género

discursivo se aplica sobre todo al estudio de los textos y a su descripción y tipologización. La noción de TD se emplea especialmente en los estudios diacrónicos para explicar el cambio lingüístico.”

Essencialmente, a dêixis diz respeito às maneiras pelas quais as línguas codificam ou gramaticalizam traços do contexto da enunciação ou do evento de fala e, portanto, também diz respeito a maneiras pelas quais a interpretação das enunciações depende da análise desse contexto de enunciação. (LEVINSON, 2007 p.65)

Diversos autores, ao longo dos tempos, desenvolveram classificações específicas sobre as referências dêiticas e também a sua relação com os usos dos demonstrativos. Faz-se um compilado dessas categorizações, a seguir, de forma cronológica e esquemática, a fim de se mostrar a evolução do entendimento desse fenômeno ao longo dos tempos, e que servirá como base para se fixar os meios de classificação dos demonstrativos no corpus do presente trabalho.

Com relação às referências dêiticas, Brugmann (1904), levando em conta a posição em que se encontram falante e ouvinte com relação a um dado referente, fez a seguinte divisão11: 1) der-Deixis, com uma indicação geral a um referente, contudo, sem situá-lo no espaço concreto nem com relação a uma pessoa gramatical específica; 2) ich-Deixis, relação com o ‘eu’, ou seja, com o falante; 3) du-Deixis, para

a relação com o ‘você’, ou seja, com o ouvinte; e 4) jener-Deixis, relação com alguém distante do falante e do ouvinte.

Bühler (1934), também tratou deste tema e identificou três tipos de dêixis: 1)

dêixis ad oculos, relacionada a elementos exofóricos; 2) dêixis reflexiva ou fórica, para

elementos endofóricos; e 3) dêixis anamnésica ou em fantasma, que estabelece relação entre os anteriores, no âmbito do irreal.

Wackernagel (1954) expandiu o sistema proposto por Brugmann, renomeando12 os modos de diferenciação das referências, como tó-deixis, hic-deixis, iste-deixis e ille-

deixis, ampliando a noção de referência para além do ‘eu’ e do ‘você’ no segundo e

terceiro casos, admitindo também a referência ao espaço que eles ocupam.

11 Os termos utilizados por Brugmann para a nomenclatura dos tipos de dêixis são palavras em alemão:

der artigo definido masculino; ich pronome pessoal da 1ª pessoa do singular; du – pronome pessoal da 2ª pessoa do singular; jener – pronome demonstrativo distal.

12 Wackernagel utiliza termos gregos e latinos: tó artigo definido neutro singular no grego; hic

demonstrativo de 1ª pessoa no latim; iste demonstrativo de 2ª pessoa no latim; ille – demonstrativo de 3ª pessoa no latim.

Carbonero Cano (1979) também realiza um estudo sobre o fenômeno da dêixis, distinguindo como suas duas características básicas a de apontar ou a de atualizar um referente, tanto no contexto linguístico, como no contexto extralinguístico, e sugere uma classificação para o campo dêitico segundo cinco critérios metodológicos básicos: 1) a experiência situacional do falante e do ouvinte: dêixis espacial (lugar), dêixis

temporal (tempo) e dêixis modal ou nocional (modo); 2) o tipo de entorno ao qual

aponta o elemento dêitico: dêixis mostrativa (ou ad oculos, com referência a um ente no espaço perceptivo), dêixis contextual ou fórica (com referência ao discurso), que pode ser anafórica (aponta para um elemento discursivo anterior), catafórica (aponta para um elemento discursivo posterior), evocadora (ou em fantasma, que relaciona os dois anteriores de modo irreal) ou pessoal (aponta para os participantes da interação discursiva); 3) a insistência: tem-se a dêixis identificada (com um elemento identificador) e a dêixis não-identificada (sem qualquer elemento identificador); 4) os pontos de referência, em que se podem distinguir três graus de distância: este-dêixis (referente próximo ao falante), esse-dêixis (referente próximo ao ouvinte) e aquele-

dêixis (referente distante do falante e do ouvinte); 5) a representação pelos diversos

elementos morfossintáticos: dêixis nominal, que pode ser pronominal (com a função de substituição) ou adnominal (com a função de atualização) e a dêixis verbal, que pode ser adverbial (de modo implícito) ou prepositiva (de modo explícito).

Cid, Costa e Oliveira (1986) realizaram uma pesquisa em um corpus oral sobre

a oposição entre ‘este’ e ‘esse’ na fala culta carioca e distinguiram as seguintes

categorias para classificarem os demonstrativos encontrados: função dêitica (com indicações espaciais e temporais com relação aos participantes do discurso) e função

dêitica-anafórica (com indicação ao que foi dito, ao que vai ser dito ou fazer uma

alusão discriminada). É salientado, ainda, o uso recorrente de reforço adverbial do SN com demonstrativo e os casos de anáfora difusa, em que o demonstrativo acompanha um elemento que não repete um item lexical mencionado anteriormente, mas que tem a função de retomar o conceito daquilo que já tenha sido explicitado. Concluiu-se que,

na linguagem oral, a anáfora é mais usada que a dêixis e questões como a

proximidade do referente, formalidade do discurso e afetividade podem definir a

utilização de uma determinada forma do demonstrativo em detrimento a outra.

Em Pavani (1987), sobre os demonstrativos na fala culta de São Paulo, é possível se notar um grande avanço, na medida em que é buscada uma atualização dos conceitos de dêixis e anáfora para termos mais específicos, com o objetivo de se evitar os múltiplos sentidos possíveis da nomenclatura prévia. A autora estabelece, assim como fez Halliday (1976), que seriam chamadas de referências exofóricas, aquelas determinadas pela posição espacial e temporal do falante no momento da enunciação (referência situacional), enquanto a anáfora, a catáfora ou dupla referência, que remetem ao interpretante (referência textual), seriam chamadas de

referências endofóricas. Pelo fato de o corpus utilizado na pesquisa ter sido composto

apenas por material de áudio, Pavani declara a sua limitação para realizar uma discussão satisfatória sobre os valores exofóricos dos demonstrativos, uma vez que, necessariamente, só seriam possíveis de se analisar a partir de uma fonte visual do contexto comunicativo. Ela distingue a referência anafórica (baseada em Meyer- Hermann, 1976), a referência catafórica (baseada em Halliday, 1976) e a referência

pressuposicional, que é a implicação de conhecimentos partilhados entre os

participantes do discurso para que a retomada referencial seja concretizada. Além disso, a autora explicita que os demonstrativos podem trazer à tona vários matizes como os de indeterminação, afetividade, dimensão incomum e contraste.

Himmelmann (1996) busca classificar e identificar os usos dos demonstrativos em um corpus oral de diversas línguas provenientes de famílias não relacionadas entre si, a fim de tentar estabelecer padrões gerais do comportamento destes componentes linguísticos. Para tal objetivo, dividem-se os usos dêiticos diferenciando- os em quatro tipos: 1) situacional – envolve certo ponto de vista sobre um centro dêitico no contexto de produção do discurso, estabelecendo um referente no universo discursivo. É utilizado (a) para se referir a um ente presente no local da narrativa, (b)

para indicar distância ou altura, (c) na dêixis textual e para fazer auto-referência; (d) no discurso direto (temporário e claramente indicado como uma narrativa), (e) na dêixis em fantasma – fingir que algo está (acontecendo) na frente do narrador e dos interlocutores, e (f) para realizar a primeira menção (new-this) de um referente; 2)

dêitico-discursivo – aponta para um evento ou uma seqüência de eventos ou uma proposição de um segmento discursivo adjacente. Realiza referência a um ponto no tempo em eventos, argumentos ou atos expostos no discurso; 3) Rastreamento (tracking) ou anafórico – aponta para um referente no próprio discurso (uso anafórico ou correferencial), com o objetivo de (a) realizar contraste, (b) apontar para um referente similar, (c) mudar o foco de atenção, (d) resolver ambiguidades e (e) realizar anáfora imediata após a primeira menção; e 4) reconhecimento (recognitional) ou

anamnésico – estabelece referência a entidades ou eventos de conhecimento partilhado e que não estão presentes nem no contexto de produção e nem no universo discursivo. Envolve entidades ou eventos periféricos (pouco tópicos). Usado na retomada de conhecimentos partilhados e como última menção, ou seja, fazer com que o interlocutor se lembre de um evento anterior, mas não o tomar propriamente como um referente.

Macías Villalobos (1997) reorganiza as ideias de Bühler e as conjuga com o conceito de identificação (proposto por Charaudeau 1971, em que há identificação quando o referente está acessível no discurso e a não-identificação quando o referente deve ser inferido ou é algo genérico), estruturando a dêixis da seguinte maneira: 1) mostração de presença ou ad oculos, com identificação ou não- identificação; 2) mostração de ausência, que abrange a anáfora singular, dual ou plural, com identificação ou não-identificação; 3) mostração da fantasia, que estabelece relação entre os anteriores, no âmbito do irreal; e ainda acrescenta mais um tipo, a 4) mostração temporal, em que o passado é anafórico, o futuro é catafórico e o presente é sempre único e ad oculos, com identificação ou não-identificação.

Diessel (1999) apresenta dois traços semânticos dos demonstrativos de dois domínios diferentes: traços dêiticos e traços qualitativos, sendo que o primeiro localiza o referente na situação discursiva (perto ou longe) e o segundo classifica o referente (objeto, pessoa, lugar, etc). Também é trazida novamente à tona a divisão em quatro dos usos pragmáticos dos demonstrativos já anteriormente exposta por Himmelmann (1996, 1997), mas Diessel atribui o valor exofórico como sendo o uso principal e mais básico, do qual os outros usos endofóricos teriam sido derivados, baseando sua hipótese em evidências observadas no processo de aquisição da linguagem, na teoria

da marcação e na gramaticalização.

Pereira (2005) faz um estudo comparativo sobre as diferenças de uso dos demonstrativos este e esse no português brasileiro e no português europeu, em que utilizou vários parâmetros de análise, como os traços de referencialidade – [referencial], [concreto] e [humano] –, o acesso do demonstrativo ao seu antecedente

– se estão em sentenças adjacentes ou se há entre eles um outra sentença

intercalada –, o campo de interlocução, que é a posição relativa entre o falante e o

objeto apontado (“campo do locutor”, “campo sem o locutor” e “campo não explicitado”), a função sintática, o uso de locativos, a estratégia de referência endofórica – anáfora ou catáfora – e a gestualização.

González Álvarez (2006) retoma a divisão feita por Carbonero Cano (1979) em um estudo diastrático de classificação dos demonstrativos na fala culta e popular na Cidade de México. Com relação ao fenômeno da anáfora, o autor a divide em dois tipos: a anáfora clara, com a qual os referentes podem ser bem delimitados, e a

anáfora escura, que constitui uma relação anafórica entre elementos de forma

resumida, global ou retomando um discurso inteiro, não podendo ser bem delimitada. As ocorrências de catáfora também tiveram uma classificação realizada neste estudo e, além disso, o autor apresenta alguns casos limites em que as referências são de ambos os casos ao mesmo tempo, tanto na oposição anáfora x catáfora, quanto na

oposição endofórico x exofórico, podendo ser classificados, respectivamente como

ana-catafóricos ou endo-exofóricos.

Alexander (2007) realiza uma análise sincrônica e diacrônica da posposição de demonstrativos em espanhol e propõe uma série de categorias informacionais para explicitar semanticamente os diferentes usos deste fenômeno tanto no presente quanto através dos séculos. As categorias identificadas por este autor com a especificação do tipo de referência realizada na análise de orações da forma pós- nominal dos demonstrativos foram: anafórica, conhecimento compartilhado,

catafórica, tópico discursiva, situacionalmente acessível, recuperação e reparação, afetiva, exclamativa, evocação de eventos passados, meta-discurso, anafórico correferencial e dêixis presencial.

Marine (2009), em seu estudo sobre o sistema pronominal dos demonstrativos no português brasileiro e europeu, faz uma análise de corpus que a levou a identificar as seguintes categorias para os demonstrativos: No caso dos dêiticos (exofóricos): (a)

dêixis de pessoa; (b) dêixis espacial; (c) dêixis temporal; (d) dêixis textual (função

metatextual); (e) dêixis social; (f) dêixis de memória (conhecimento compartilhado, antecedente in absentia). No caso das referências anafóricas: (a) anáfora fiel (com mesmo SN); (b) anáfora infiel (com SN diferente do referente por sinonímia ou hiperonímia); (c) anáfora por nomeação (um SN que retoma um conteúdo proposicional ou ato de fala anterior); (d) anáfora associativa (retoma a ideia de um elemento anterior que funciona com um desencadeador para se chegar ao referente); (e) anáfora de memória (conhecimento compartilhado); (f) anáfora por elipse (referente retomado exclusivamente com o pronome demonstrativo)

Benítez Rosete (2011), em sua obra sobre a semântica de usos dos demonstrativos, em uma análise dos usos na língua oral da Cidade do México, identifica as seguintes categorias: 1) uso exofórico; 2) uso dêitico-discursivo (retoma um fragmento do discurso); 3) uso anafórico; 4) uso de reconhecimento (retoma uma entidade sem antecedente linguístico, mas de conhecimento compartilhado); Ainda

apresenta dois outros casos que podem ser considerados bastante peculiares do espanhol, que são os usos de demonstrativos como marcadores discursivos e como

falsos começos. Além disso, ainda há os chamados casos limites, por se tratarem de

ocorrências difíceis de se classificar, uma vez que possuem características de dois usos pragmáticos diferentes.

Cambraia (2012), em um estudo diacrônico sobre os usos das formas dos demonstrativos em peças de teatro, identifica as seguintes categorias referenciais: 1)

endofórica, 2) exofórica, 3) anamnésica, 4) atributiva (quando sucedem ao

demonstrativo orações adjetivas restritivas), 5) indefinido (quando são colocadas formais proximais e distais dos demonstrativos para não se especificar com clareza um referente, p. ex. “ele fez isso e aquilo”, e 6) fática, em que o demonstrativo este do espanhol é utilizado quando o falante está processando a informação e o utiliza como um falso começo.

Silva (2013) analisa demonstrativos de fontes orais coletados pelo projeto NURC em Lima e em Buenos Aires e, tomando como base o trabalho de González Álvarez (2006), identifica as seguintes categorias semântico-referenciais: 1) Endófora – que pode ser representada por uma (a) anáfora, (b) catáfora (estrutural ou não-estrutural) ou (c) ana-catáfora; 2) Exófora, eu pode ser (a) temporal e (b) espacial; 3) Endo- exófora, que possui ambas as características endofóricas e exofóricas; e 4) Indefinida, em que não se faz remissão a uma entidade específica.

Como se pode ver através de todos os trabalhos apresentados anteriormente, os parâmetros para se realizar uma análise semântico-referencial dos demonstrativos ainda não estão muito bem especificados e uniformizados, uma vez que vários autores se utilizam de classificações e nomenclaturas bastante díspares, não havendo, portanto, uma padronização e consenso sobre o assunto. A seguir, será proposto um quadro próprio de classificação dos valores referenciais dos demonstrativos, a partir dessa revisão bibliográfica, utilizando as categorias identificadas que pareçam se adequar melhor às ocorrências do corpus deste trabalho.