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Um movimento em prol de maior liquidez internacional e maior apetite ao risco começa a surgir a partir de dezembro de 2002 e meados de 2003. Neste momento, além das baixas taxas de juros dos países centrais havia, também, as expectativas de retomada do crescimento econômico mundial.

Este novo ciclo de liquidez que surge no início de 2003 se difere, em alguns aspectos, do ciclo de liquidez da década de 1990. Em primeiro lugar, há uma redução dos empréstimos bancários. Em segundo lugar, há um predomínio quase absoluto de lançamentos de títulos de dívida externos e, por fim, um menor volume de Investimento Direto Estrangeiro, principalmente para a América Latina (MUNHOZ; CORRÊA, 2009).

A redução das taxas de juros internacionais, somadas às expectativas dos investidores de uma melhora na economia mundial, contribuíram para que o ano de 2003 fosse caracterizado por uma evolução nos títulos de dívida dos países emergentes. Os investidores passam a fazer uso da alavancagem como componente essencial de especulação. Como mostra Farhi (2004), a consequência desse processo foi a formação de bolhas especulativas nos mercados internacionais de ações e de commodities, além dos títulos emitidos pelos países emergentes. Assim, o contexto, ao longo de 2003, era de ampla liquidez internacional e aumento do apetite ao risco dos investidores globais.

Contudo, no início de 2004, a sinalização de que as taxas de juros norte-americanas iriam subir gerou instabilidade no mercado de títulos de dívida das economias emergentes. Nesse momento, os especuladores foram levados a reestruturar suas carteiras em direção a       

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No caso do Brasil, também se pode citar as incertezas quanto ao futuro da política, afinal, era ano de eleição presidencial. 

menor propensão ao risco tornando os fluxos de capitais, nesse segundo ciclo de liquidez, mais vulnerável à súbita alteração dos humores.

Essa rápida reversão dos recursos, mostra que o que move os fluxos de capitais não são os ‘fundamentos’ dos países. Mesmo considerando que houve uma melhora nos indicadores de risco dos países periféricos, que estes efeturam ajustes macroeconômicos importantes e que os indicadores de vulnerabilidade (no conceito tradicional) melhoraram, observa-se a permanência de uma forte volatilidade nas contas financeiras dos Balanços de Pagamentos desses países, na medida em que essescontinuam tendo um peso forte de capitais flexíveis (MUNHOZ; CORRÊA, 2009). Um dos principais fatores que move os fluxos de capitais é a expectativa de alta dos juros globais, que penaliza principalmente os países periféricos, tidos em sua maioria na condição de sub-investment graded.

Quando, em junho de 2004, o Fed anuncia que as taxas norte-americanas iriam aumentar apenas paulatinamente, geram-se novas operações de alavancagem e há o retorno do direcionamento de capitais para as economias emergentes, movimento esse que permanece até maio de 2006. Aqui, novamente, as incertezas quanto à política monetária dos Estados Unidos provocam instabilidade no mercado, pois os investidores começam a temer que o Fed eleve a taxa de juros mais do que o esperado devido às pressões inflacionárias do período. Todavia, no segundo semestre de 2006, os Estados Unidos começam um movimento descendente dos juros e, logo, os capitais retornam às economias periféricas (IMF, 2006).

O que estamos tentanto chamar atenção é que mesmo dentro dos períodos de liquidez os fluxos de capitais em direção às economias emergentes estão sujeitos a reversões, sendo que os regressos dos recursos estão intimamente conectados ao movimento dos juros das economias centrais, principalmente da norte-americana.

De modo geral, pode-se dizer que a liquidez dos mercados financeiros permanece até julho de 2007. A partir da crise norte-americana nesse ano e, mais especificamente, a partir da quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, a tendência de reversão dos fluxos de liquidez volta a atacar os mercados emergentes.

Portanto, no que tange à dinâmica dos fluxos de liquidez direcionados às economias emergentes a partir da década de 1990, percebe-se que há a presença de dois grandes ciclos: o primeiro começa no início da década e se estende até 1998, quando ocorre a crise russa; já o segundo ciclo inicia-se em meados de 2003 e alonga-se até julho de 2007, quando estoura a crise do subprime. No entanto, como já foi dito acima, essas fases não se constituíram em entradas contínuas de recursos. O que ocorre é a presença de vários miniciclos, de menor duração e intensidade, ao longo da tendência principal (PRATES; FARHI, 2004).

Essa instabilidade dos fluxos de capitais das economias emergentes traz várias repercussões para esses países, trazendo consigo a volatilidade financeira para a economia real, na medida em que pressiona o câmbio, instabilizando-o. Tal situação tem consequências negativas sobre o investimento privado, em vista da incerteza maior e das consequentes dificuldades de planejamento. Além disso, fica comprometida a política econômica, a reboque das mencionadas instabilidades externas e, por isso, há a impossibilidade de perseguir objetivos específicos prioritários do país.

A hipótese sustentada aqui é que a liberalização dos fluxos de capitais e a desregulamentação financeira adotadas pela maior parte das economias emergentes (com as exceções da China, Índia e Taiwan) para se integrar à nova dinâmica das finanças internacionais caracterizada pela supremacia dos mercados acabaram por submeter a oferta de recursos externos dessas economias à lógica dos mercados financeiros, sendo que estes se caracterizam por sucessivos períodos de otimismo e pessimismo.

Neste contexto, é importante enfatizar que o que determina o montante e o perfil dos fluxos, além das características do mercado financeiro mundial, é a dinâmica subjacente às economias centrais. O que se quer explicitar é a instabilidade inerente dos fluxos de capitais, sobretudo para as economias emergentes. Isso enfatiza a importância de se estudar a instabilidade desses fluxos, detectando quais contas do Balanço de Pagamentos são mais voláteis e, portanto, responsáveis por sua vulnerabilidade. Essa análise será feita nas próximas seções.