5. Results
5.1. Survey demographics
A experiência soviética e o insucesso no que tange à dissolução do autoritarismo estatal e patriarcal originaram um alto grau de desconfiança e aversão em relação à teoria marxista por parte de consideráveis setores do movimento feminista. Assim, ao longo do século XX pudemos testemunhar a ampliação do feminismo liberal e sua fragmentação em inúmeras correntes que buscavam afirmar sua completa autonomia ideológica, política e partidária, buscando construir uma identidade comum a partir da exaltação do princípio da diferença e da crítica aos universalismos.
A partir das agitações sociais produzidas na conjuntura dos anos 60, vários círculos de mulheres foram criados, sobretudo nos Estados Unidos e Europa, com o objetivo de reintroduzir as reivindicações de gênero na lista de mudanças legislativas, políticas sociais e transformações culturais, mediante a formação de uma contracultura feminina capaz de confrontar a hegemonia do androcentrismo e o domínio do patriarcado537.
O novo contexto político, econômico e social deu ensejo, igualmente, a críticas contundentes ao determinismo biológico, criando condições para a superação dos paradigmas prevalecentes na produção historiográfica. A partir da década de 1970, a emergência da Nova História, da História Social e da História Cultural, que contemplavam os sujeitos anônimos e as práticas cotidianas no lugar das grandes personalidades e acontecimentos, encontrara na História das Mulheres um campo fecundo de estudo. Este empreendimento de incorporação das mulheres como sujeitos históricos, interrogando-se sobre as raízes da opressão feminina, recebeu uma forte dose de influência da teoria marxista. Neste sentido, a contribuição do historiador inglês E. P. Thompson, especialmente no final dos anos 1970, foi fundamental. Sua ênfase na pesquisa das múltiplas estratégias criadas e recriadas pelas mulheres no cotidiano e o foco na idéia de uma “cultura de resistência” em que a luta pela sobrevivência e a improvisação tomaram feições de atitudes políticas, formas de conscientização e manifestações espontâneas de oposição foram de suma relevância para a renovação dos estudos sobre as mulheres operárias.
Como foi visto, tanto a emergência dos estudos sobre as mulheres como sujeitos históricos quanto o avanço do movimento feminista nas décadas de 1960 e 1970 suscitaram discussões sobre a categoria “mulher”538 e apontaram para a necessidade de uma redefinição de “feminino” que não
537 A tentativa de politizar a esfera privada incluía importantes reivindicações individuais, como a liberação sexual, a
luta contra a opressão heterossexual, a liberdade reprodutiva e a recusa a encarar a maternidade como função social e biológica essencial à mulher, o repúdio da objetificação sexual, a igualdade de direitos e oportunidades na inserção das mulheres no mercado de trabalho, maior participação no espaço político, o direito ao próprio corpo e a descriminalização do aborto. Não obstante sua relevância, ao assumirem o primeiro plano, as demandas por reformas específicas conduziram à perda de uma perspectiva da totalidade sistêmica.
538 Em fins da década de 1940, Simone de Beauvoir publicou seu livro “O segundo sexo” onde ofereceu uma
inestimável contribuição neste sentido ao inferir que as mulheres não nascem mulheres, tornam-se a partir de suas experiências. Segundo Beauvoir, o desenvolvimento psicológico e os condicionamentos que as mulheres sofrem durante
estivesse baseada essencialmente em aspectos biológicos e generalizantes. Conforme observa Joan Scott,
O momento histórico se mostrava particularmente propício à criação de uma identidade coletiva de mulheres, indivíduos do sexo feminino com um interesse compartilhado no fim da subordinação, da invisibilidade e da impotência, criando a igualdade e ganhando um controle sobre seus corpos e sobre suas vidas539.
Esta corrente desenvolveu a compreensão do “gênero” enquanto fenômeno relacional, que diz respeito tanto às mulheres quanto aos homens, ampliando o enfoque até então existente. Descartava-se, assim, um tipo de discurso feminista que fazia uso das categorias biológico- deterministas, como, por exemplo, o de Sheila Rowbotham540. O conceito de gênero surge, então, da tentativa de se compreender como a subordinação é reproduzida e a dominação masculina é sustentada em suas múltiplas manifestações, buscando incorporar as dimensões subjetiva e simbólica de poder, para além das fronteiras materiais e das conformações biológicas541. Deste modo, seria possível pensar as práticas materiais e construções simbólicas, evitando o essencialismo biológico ou a sustentação exclusiva na dimensão econômica.
Inserindo-se neste debate, Pierre Bourdieu em uma série de estudos desenvolvidos ao longo da década de 1970542, atentara para a importância de se combater a naturalização das estruturas de dominação sociais e cognitivas que reforçam a violência simbólica543. Assim, ressaltara que na própria “História das Mulheres” não basta averiguar a condição das mulheres sem atentar para o sempre renovado trabalho de re-historização, com seus mecanismos estruturais e suas estratégias que podem levar as próprias mulheres a contribuírem para sua exclusão. Bourdieu, portanto, propôs-se a tarefa de explorar as estruturas simbólicas deste inconsciente androcêntrico que sobreviveria ainda hoje em homens e mulheres. Desta maneira, analisou a máquina simbólica de reprodução, a constância relativa das estruturas sexuais e dos esquemas de conhecimento das estruturas objetivas e as estruturas cognitivas de uma sociedade androcêntrica544. Com efeito, a seu ver, pretender
o período de sua socialização ao invés de integrá-las ao seu sexo, tornam-nas alienadas, sendo treinadas para serem meros apêndices do homem. Assim, caberia às mulheres transformarem-se em sujeitos ao invés de objetos da História.
539 SCOTT, Joan, apud GONÇALVES, Andréa Lisly. História & gênero. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p.66. 540 A autora realiza um recorte biológico para a compreensão da especificidade da opressão feminina, cunhando os
conceitos de “classes sexuais”, “luta de sexos” e “opressão sexual”.
541
ARAÚJO, Clara. “Marxismo, feminismo e o enfoque de gênero”. In: Crítica Marxista. n.11. São Paulo: Boitempo, 2000, p.68.
542 Coletânea de estudos realizados nos anos 70, publicados em 1998 na França sob o título “A dominação masculina”. 543 Para Bourdieu a violência simbólica seria a “violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se
exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou,mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (BOURDIEU, Pierre. A dominação
masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.7 e 8).
pôr em foco os efeitos que a dominação masculina exerce sobre os
habitus masculinos não é, como alguns poderão crer, tentar desculpar
os homens. É mostrar que o esforço no sentido de libertar as mulheres da dominação, isto é, das estruturas objetivas e incorporadas que se lhes impõem, não pode se dar sem um esforço paralelo no sentido de liberar os homens dessas mesmas estruturas que fazem com que eles contribuam para impô-la545.
Se os estudos de gênero realizados ao longo dos anos 80, tiveram êxitos em sua batalha contra determinismo econômicos e biológicos que envolviam a temática feminista, colocando em pauta as expressões culturais, sociais e psicológicas ao reconstruírem o conceito de feminino no campo das suas significações simbólicas, tal conceito viria a ser novamente colocado em xeque no início dos anos 90. Nesta época, as teorias pós-modernas e pós-estruturalistas realizaram inúmeras objeções à utilização do conceito de “gênero”. Consoante explicitou Margareth Rago
A nova relação que o feminismo contemporâneo estabelece consigo e com as imagens de si que projeta para o mundo numa atitude de metacrítica, essa relação se caracterizaria por um dobrar-se sobre si mesmo, isto é, pela reflexão crítica sobre o próprio feminismo e por sua historização, em um movimento de avaliação e balanço de suas conquistas, seus avanços, limites e impasses, seja no campo das práticas, seja no do pensamento546.
A meta-crítica pós-moderna implicaria no deslocamento da filosofia do sujeito para o “pensamento da diferença”, marcado pela contribuição de filósofos como Foucault, Deleuze e Derrida. Segundo esta posição, baseada em uma análise discursiva que questiona a integridade ou coerência de descrições sociais totalizantes, realizar-se-ia a “crítica da política identitária” e a “crítica do sujeito”. A “contestação política do estatuto do sujeito” seria expressa nos seguintes termos:
Recusar-se a pressupor, isto é, a exigir a noção do sujeito desde o início, não é o mesmo que negar ou dispensar essa noção totalmente; ao contrário, é perguntar por seu processo de construção e pelo significado político e pelas conseqüências de tomar o sujeito como num requisito ou pressuposição da teoria547.
545 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.136.
546 RAGO, Margareth. Apud. COSTA, Cláudia de Lima; SCHMIDT, Simone Pereira (org.). Poéticas e políticas
feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2004, p.31.
547 BUTLER, Judith. “Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do “pós-modernismo””. In: Cadernos Pagu.
Como o poder permearia o próprio aparato conceitual, qualquer conceito totalizador do universal impediria, ao invés de autorizar, as reivindicações não antecipadas e não antecipáveis que poderiam ser feitas sob o signo do “universal”548. Assim, o sujeito nunca estaria plenamente constituído, possuindo a possibilidade permanente de um processo de re-significação.
A crítica marxista à análise pós-moderna que advoga a fragmentação e indefinição dos sujeitos por negar a existência de essências duradouras, entrevê nesta teoria um obstáculo às lutas políticas, que exigem a cimentação de uma unidade entre os diferentes atores sociais. Desta forma, Ellen Wood adverte que
As implicações políticas de tudo isso são bem claras: o self humano é tão fluido e fragmentado (o “sujeito descentrado”) e nossas identidades tão variáveis, incertas e frágeis que não pode haver base para solidariedade e ação coletiva fundamentadas em uma “identidade social comum (uma classe), em uma experiência comum, em interesses comuns549.
Diante do exposto podemos concluir que a problemática da questão feminina não se desenvolveu à margem da teoria marxista, mas, ao contrário, em constante interlocução. O materialismo histórico ainda se mostra extremamente útil na análise e compreensão das relações sociais, nas suas dimensões produtivas e reprodutivas. É de vital importância ainda para contrabalançar a ênfase excessiva dos estudos culturais sobre o discurso e as narrativas e para questionar as análises que tendem a conduzir os movimentos sociais à impotência política, despindo-lhes de sua base material.
Buscando recuperar uma perspectiva mais radical, diversas organizações feministas contemporâneas sentem a necessidade prática e teórica de articular sua luta com outros movimentos sociais – tais como o movimento negro, ecológico, contra a globalização e grupos de trabalhadores do campo e da cidade –, superando a limitação de um enfoque exclusivamente de gênero. Sendo assim, nota-se o revigoramento de uma concepção feminina de inspiração marxista, que busca relacionar as lutas feministas a uma visão mais ampla da transformação social. Com efeito, procuram recolocar no centro das discussões a análise estrutural da sociedade que leva em conta as relações de produção, distribuição e reprodução estabelecidas sob o regime de produção capitalista. Neste sentido, as distanciam-se de autores como Alain Touraine, que atribui ao movimento das mulheres contemporâneo, por ele denominado de “pós-feminista”, a responsabilidade pela realização de uma “reviravolta cultural” que garantiria a passagem de uma “sociedade dos homens” a uma “sociedade de mulheres”:
548 BUTLER, Judith. “Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do “pós-modernismo””. In: Cadernos Pagu.
n.11. Campinas: UNICAMP, 1998, p.22.
Um novo dinamismo só poderá surgir a partir de uma ação que consiga recompor o que o modelo ocidental separou, superando todas as polarizações. Esta ação já é evidente, por exemplo, nos movimentos ecológicos e nos que lutam contra a globalização. Mas as mulheres é que são e serão as atrizes principais desta ação, já que foram constituídas como categoria inferior pela dominação masculina e desenvolvem, para além de sua própria libertação, uma ação mais geral de recomposição de todas as experiências individuais e coletivas.550
Touraine avalia que diante do declínio dos atores sociais e políticos tradicionais, particularmente partidos e sindicatos, e da perda de influência do socialismo, somente o protagonismo político de novos grupos identitários, como é o caso das mulheres ou de minorias culturais, seria capaz de proporcionar a compreensão do cenário social em sua totalidade e de seus novos problemas, penetrando a subjetividade de cada indivíduo551. O “sujeito pessoal”, portanto, prevaleceria sobre o sujeito coletivo. Afastadas da ideologia socialista, as mulheres cultivariam um movimento sensível às demandas por particularismo, enfrentando as conseqüências nefastas da globalização. Deste modo, seria fora da herança social-democrata “e de sua representação do mundo que são inventadas as idéias e as emoções que transformam a sociedade e suas relações de autoridade, suas formas de comunicação, suas relações entre indivíduos e entre grupos.”552.
Contrariamente, a corrente feminista vinculada à tradição marxista permanece depositando nas mãos da classe trabalhadora – composta por homens e mulheres –, o papel de agente histórico responsável pela transformação social. Segundo sua visão, a verdadeira compreensão da totalidade leva à crítica e ao repúdio da ordem econômica vigente. Enquanto a sociedade estiver submetida à lógica destrutiva do capital, baseada na exploração e alienação do trabalho, a decorrente desigualdade e as diferentes formas de opressão que contribuem para a perpetuação do sistema não poderiam ser suprimidas. Ao ressaltar a indissociabilidade das lutas contra a dominação de gênero e de classe, o feminismo materialista contemporâneo reconhece a importância de se resgatar a contribuição de autores marxistas que procuraram realizar uma abordagem crítica da condição feminina, para fundamentarem estratégias de ação e delinearem os objetivos a serem alcançados pelo atual movimento feminino.
Neste sentido, a experiência de luta e a concepção de mundo formuladas pelas feministas revolucionárias no cerne do movimento socialista durante o século XIX e início do século XX constitui um valioso material de análise para as futuras gerações de feministas e socialistas. Ainda
550 TOURAINE, Alain. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje. Petrópolis: Vozes, 2007, p.242. 551 TOURAINE, Alain. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje. Petrópolis: Vozes, 2007, p.242. 552 TOURAINE, Alain. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje. Petrópolis: Vozes, 2007, p.237.