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“Seja-nos permitido acrescentar que, entre nossos professores, se encontravam os que souberam não somente compreender este estado de espírito, mas encorajá-lo e utilizá-lo, e que, como companheiros mais velhos, realmente nos enriqueceram por que descobriam tudo e não impunham nada.”

Piaget

O desenvolvimento do conhecimento e da moralidade ocorre por meio de sucessivas interações do sujeito com o meio. Por isso, não é possível ensinar a moralidade para a criança, pois ela só a desenvolverá se lhe dermos condições para que a vivencie, compreenda e construa as regras morais, assim como sua conduta e conhecimento sobre o mundo. Dessa forma, o desenvolvimento moral na criança não se reduz ao seguimento das normas que lhe são impostas, mas sim de seu livre arbítrio.

Nessa perspectiva, a vida escolar é importante no processo de construção do conhecimento e da moral da criança sob o ponto de vista das questões ambientais.

A vida escolar intervém na formação do cidadão porque neste espaço podem-se pensar as relações com os outros e porque a escola pode organizar-se para que os alunos façam a experiência da

responsabilidade, do diálogo, do debate, da confrontação com os outros. (PARRAT-DAYAN, 2006, p. 23)

De acordo com Piaget (1977a, p. 98), “as condutas que são apresentadas à criança para que as julgue não podem fazer com que ela aprenda concretamente”, pois não são materiais mecânicos e devem ser apresentadas por meio de narração. No domínio intelectual, o interrogatório é relativamente fácil, apesar das numerosas dificuldades de método que ele apresenta; o domínio moral deveria dirigir-se apenas às realidades de alguma forma indireta.

Sendo assim, na moral, deve-se investigar o julgamento em relação a uma determinada ação, visto que a criança pode apresentar uma discordância entre a prática real das regras e a reflexão a respeito da regra, como também é possível que aquilo que a criança compreende das histórias relatadas não tenha nenhuma relação com a que pensaria se fosse a testemunha direta das mesmas cenas (PIAGET, 1977a, p. 99). Isso pode ser visto no que tange à questão ambiental, por exemplo, a criança que julga uma ação correta à aplicação de uma punição a quem desrespeita a regra (jogar papel na lixeira), quando é questionada a respeito de sua ação, não consegue refletir a respeito da regra.

Um problema moral submetido à criança está muito mais afastado de sua prática moral que um problema intelectual de sua prática lógica. Dessa forma, reforça-se a ideia de que nenhuma investigação direta por meio de interrogatório consegue discernir o julgamento moral. Por isso, Piaget decide estudar não o ato - as decisões da criança, nem mesmo as lembranças de suas ações, mas simplesmente o julgamento do valor moral17, ou seja, a maneira pela qual ela avalia esta ou aquela conduta que é a ela narrada.

Os valores morais são construídos a partir da interação do sujeito com os vários ambientes sociais e será durante a convivência diária, principalmente com o adulto, que a criança irá construir seus valores, princípios e normas morais. Assim sendo, é nas relações interindividuais é que as normas se desenvolvem:

[...] são as relações que se constituem entre a criança e o adulto ou entre ela e seus semelhantes que a levarão a tomar consciência do dever e a colocar acima de seu eu essa realidade normativa em que consiste a moral. É possível que o que pensa a criança sobre moral não tenha relação precisa (PIAGET, 1998, p.26).

É certo, com efeito, que o realismo moral da criança é muito mais sistemático no plano da teoria do que no plano da ação e, por consequência, trata-se de um fenômeno, de qualquer forma, novo e diferente. “É que a tomada de consciência implicada por toda reflexão teórica não se repete efetivamente na prática dos atos.” Há, além dos atrasos, deformações

17 Compreende-se que o valor moral “é uma troca afetiva com o exterior, objeto ou pessoa" (Piaget, 1954,

inerentes ao próprio mecanismo da reflexão. Desse modo, no domínio intelectual, a criança que raciocina no plano verbal enfrenta uma série de dificuldades vencidas, há muito tempo, pela inteligência prática. Da mesma forma, no domínio moral, deixar-se-á a conduzir em relação às narrações simplesmente ouvidas a uma serie de julgamentos, sem compreensão psicológica suficiente (PIAGET, 1977a, p. 161).

Dessa forma, a criança demonstra na pesquisa um realismo moral mais ou menos sistemático, quando, na vida real simpatizaria, sem dúvida nenhuma, com aqueles que, de longe, considera como grandes culpados; de tal modo, “na moral, a intenção é tudo” (PIAGET, 1977a, p. 283).

Portanto, convém saber se “existe relação entre o que as crianças preconizam verbalmente e realizam na prática por meio de suas condutas”, pois, somente quando estas são análogas é que se tem a tomada de consciência, como assevera Piaget (1977a, p. 100). É fundamental saber quais são as ideias verbais das crianças a respeito da moral para que se possa comparar com suas condutas em ações concretas.

Piaget (1977a, p. 301), ao desenvolver sua obra “O Julgamento Moral na criança”, constatou que o desenvolvimento das crianças mostra duas tendências basicamente opostas de moral, a “teoria do dever ou da obrigação moral” e a do “bem ou da autonomia da consciência”, e que a segunda sucederia a primeira em condições normais de desenvolvimento.

Segundo este autor, quando a criança desconhece as regras, é capaz de, por exemplo, pôr a mão na roseira sem ter a noção se pode ou não. Mas, depois que ela é repreendida, por sua mãe, deixa de pôr a mão na roseira por medo ou para agradar; agindo, nesse momento, de forma heterônoma, cumprindo a regra, mas não a compreendendo. A autonomia acontece quando a criança deixa de pôr a mão na roseira porque compreendeu as razões da regra ou por até infringir a regra sem que o seu objetivo fundamental seja prejudicado; por exemplo, a criança coloca a mão na roseira quando percebe que nas folhas não há espinhos.

Nota-se que o social que Piaget observa nos primeiros meses de existência da criança é apenas social biológico, portanto, interior ao indivíduo e ainda individual para um estado de cooperação progressiva. Para Piaget, a cooperação pode fazer a criança sair do seu estado inicial de egocentrismo inconsciente, pois a liberta do egocentrismo e da coerção, ao mesmo tempo.

CAPÍTULO V