2. Sporplaner
2.2 Geografiske sporplaner
Para sabermos qual a concepção ou as concepções de gramática que o SA concludente de um curso de Letras-português domina ao concluí-lo, fizemos a seguinte pergunta: O que você entende por gramática? Como vimos no capítulo 2, segundo Travaglia (2003), há três concepções de gramática, que retomamos aqui: a) gramática é concebida como um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente; b) gramática como um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada teoria e método; c) gramática como o conjunto das regras que o falante de fato aprendeu e das quais lança mão ao falar.
Diante da pergunta, obtivemos as seguintes respostas, que passaremos a analisar. Entretanto, como procedemos no subitem anterior, vamos agrupar em blocos segundo o critério da presença dos mesmos semas nos enunciados.
A) Semas: “conjunto de regras/normas”
Neste bloco, reunimos todos os textos em que apareceram os semas “conjunto de regras” e “conjunto de normas” ou alguma palavra ou expressão que sejam correlatas e remetam a estes sentidos, de “regras” ou “normas”. Vejamos, então, os seguintes textos:
SA3: É um conjunto de regras que estrutura uma determinada língua. Ela é o principal suporte da Norma Padrão.
SA5: Conjunto de regras que regem o modo de falar e escrever de cada indivíduo.
SA6: Se for a Normativa, entendo como um conjunto de regras que tem como objetivo padronizar a língua portuguesa. Mas temos outros tipos de gramática também, como a internalizada que cada falante possui, a descritiva que apenas descreve os usos, e assim por diante.
SA7: Regimento de uma língua, necessário ao bom andamento daquilo para o qual a língua foi criada.
SA9: Conjunto de normas (regras) que tem como finalidade orientar o usuário da língua. Em suma, é um manual da língua que prioriza a linguagem culta. SA10: Conjunto de normas que regem o padrão escrito de uma língua.
SA11: Podemos dizer que a gramática é um meio de normatizar e/ou formalizar as regras de uma determinada língua, estabelecendo uma regulamentação de uso de escrita e de fala para a sociedade. Porém, o padrão defendido pela gramática não deve ser seguido como verdade absoluta, pois o que for de encontro às regras gramaticais, não quer dizer que está errado.
SA12: A gramática é o conjunto de regras criadas para estabelecer um padrão a ser seguido pelos falantes de uma determinada língua.
SA13: É um conjunto de regras que deve ser seguida de acordo a norma padrão.
Na maioria absoluta dos textos, ocorreu a definição de gramática como “um conjunto de regras” ou como “um conjunto de normas” ou os dois juntos. Em geral, para todos os sujeitos-alunos desses discursos, a gramática é concebida como um manual com regras de bom uso da língua a serem seguidas por aqueles que querem se expressar adequadamente, ou seja, uma concepção de gramática restrita à normativo-prescritiva. Essa concepção também se encontra nos textos a seguir:
SA15: Entende-se por gramática o conjunto de regras, formas e usos que caracterizam o emprego adequado/correto de se expressar na língua culta: escrita e falada, de um grupo social.
SA16: O conjunto de regras e normas que cada país utiliza para o uso padrão de Língua.
SA17: Normas que nos auxiliam a interagir orientando e regulando o uso da língua e da fala de forma padrão.
SA18: A gramática serve para regular e orientar o uso da língua, ou seja, padronizar a escrita.
SA19: Gramática como um conjunto de regras que o individuo não necessita dominar para se comunicar.
SA20: Entendo por Gramática sendo ela um conjunto de normas e regras que se estende para determinado uso da língua, possuindo o objetivo de estudar a forma e composição das palavras, bem como demais questões relacionadas à língua. Em seus discursos, os SA demonstram ter assimilado no decorrer do processo de sua formação acadêmica que a concepção de gramática se restringe a “um conjunto de normas e regras”. Seguindo a tese de que a concepção de língua determina a concepção de gramática, se infere dos discursos desses SA que eles ficaram restritos à concepção de língua como um conjunto de “bons usos”, por isso aludem, em seus dizeres, à gramática correspondente dessa concepção: a prescritiva (mais conhecida por gramática normativa ou tradicional). Não se fez nenhuma referência, em nenhum dos textos, ao interdiscurso da gramática descritiva, aquela que corresponde a uma concepção de língua como um conjunto de produtos estruturados; ou ao interdiscurso da gramática histórica, aquela que corresponde a uma concepção de língua como “um conjunto de processos e de produtos que mudam ao longo do tempo”, por exemplo.
B) Semas: “descritiva”; “normativa”; “internalizada”; “gerativa”; “histórica”; “comparativa”
Neste bloco, reunimos os três textos que trazem semas que não se restringem à concepção de gramática normativa/prescritiva somente. A presença dos semas “descritiva”, “internalizada”, “gerativa”, “histórica” e “comparativa” denuncia outros tipos de gramática que nos textos anteriores não foram mencionados. Os SA revelam que tiveram acesso a e tem conhecimento da existência de outras concepções (ou tipos) de gramática e não somente a normativa/prescritiva. Eles demonstram estar, assim, em conjunção com o discurso da academia, com o campo discursivo da ciência da linguagem, as novas teorias linguísticas e as concepções de gramática.
SA2: Um conjunto de regras que demonstram “a estrutura” de uma língua. Podendo ser classificada em: normativa, descritiva, comparativa.
SA4: Um estudo minucioso da língua seja ela social (normativa), natural (intrínseca ao ser humano), historia (descritiva) e etc.
SA8: Há várias concepções e determinações sobre a gramática: internalizada, normativa, descritiva, gerativa, da língua falada etc. Porém, o que é comum entre elas é que há um modo peculiar de estruturação da língua para cada uma delas. A partir dessas categorizações, percebe-se que gramática pode ser entendida como: um conhecimento linguístico internalizado a partir da interação entre sujeitos de uma dada comunidade; um conjunto de regras convencionado e institucionalizado socialmente de modo a normatizar o uso de determinada língua em certas instâncias da atividade humana, para que não haja desvios; modo de sistematização linguística que possibilita a geração de infinitos enunciados; uma descrição das diversas modalidades de utilização linguística em vários setores da sociedade.
O texto do SA2 foi o único que, além de trazer o interdiscurso da gramática normativa como “Um conjunto de regras”, faz uma referência aos interdiscursos da gramática estrutural, como aquela que demonstra a “estrutura de uma língua”, e da gramática “comparativa” ou “histórico-comparativa”. A gramática estrutural pode ser definida “[…] como uma tendência de descrever a estrutura gramatical das línguas, vendo-as como um sistema autônomo, cujas partes se organizam em uma rede de relações internas” (MARTELOTTA, 2009, p. 55). A gramática comparativa ou comparada é aquela que “[…] estuda uma sequência de fases evolutivas de várias línguas, normalmente buscando encontrar pontos comuns” (TRAVAGLIA, 2003, p. 37). A gramática histórico-comparativa surgiu com muita força na primeira metade do século XIX, na Alemanha, “[…] como uma proposta de comparar elementos gramaticais de línguas de origem comum a fim de detectar a estrutura da língua original da qual elas se desenvolveram” (MARTELOTTA, 2009, p. 47).
Nos textos dos SA – SA4 e SA8 – aparecem os semas “descritiva”, “normativa”, “internalizada” e “gerativa”. No entanto, diferentemente do discurso do SA8, os semas “internalizada” e “gerativa”, no discurso do SA4, estão marcados pelo uso da palavra “natural” e pela explicação entre parênteses, “intrínseca ao ser humano”, que tanto podem remeter, nesse contexto, ao espaço discursivo da gramática internalizada como ao da gramática gerativa. A gramática internalizada é aquela que corresponde a uma concepção de língua como um conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade de acordo com o exigido pela situação de interação comunicativa em que o usuário da língua está engajado. Ela constitui a competência comunicativa dos falantes nativos de uma determinada língua. E a gramática gerativa, de acordo com a teoria de Chomsky, é um mecanismo finito que permite gerar um conjunto infinito de frases gramaticais bem formadas de uma língua. Ela constitui o saber linguístico dos indivíduos que falam uma determinada língua, isto é, a sua competência linguística. Em síntese, os interdiscursos da competência comunicativa (gramática
internalizada) e da competência linguística (gramática gerativa) constituem o discurso do SA8 de forma bem marcada pelo uso dos semas no texto.
O sema “histórica”, que está apenas no discurso do SA4, é marcado pelo vocábulo “historia”, que tomamos como sinônima de “histórica”, contudo, o uso do recurso dos parênteses após a palavra “historia” pode nos levar a interpretar que o SA está tomando os termos como equivalentes: histórica = descritiva. E isso seria uma compreensão equivocada das concepções de gramática histórica (aquela que corresponde a uma concepção de língua como um conjunto de processos e de produtos que mudam ao longo do tempo) e de gramática descritiva (aquela que corresponde a uma concepção de língua como um conjunto de produtos estruturados). São duas concepções distintas de gramática, portanto, dois discursos de espaços discursivos distintos que estão em disjunção no discurso do SA4.
No texto do SA8, entretanto, chama-nos a atenção a definição elaborada após o texto explicativo que situa o leitor nos vários tipos de gramática para só então expor a sua concepção na qual faz um apanhado de todos os tipos de gramática anteriormente citados. A sua definição adentra vários campos discursivos de teorias linguísticas abrigadas na corrente funcionalista, principalmente às ligadas ao discurso e à enunciação, para estabelecer a sua concepção de gramática. O SA8 elabora uma definição de gramática que tenta abranger os tipos que ele cita: “gramática: internalizada, normativa, descritiva, gerativa, da língua falada etc”, ou seja, ao reconhecer que existem vários tipos, ele as define num só enunciado.
Como vimos até aqui, as categorias língua, linguagem e gramática estão intrinsecamente interligadas, pois a concepção de uma pode determinar a concepção da outra. A forma como são recebidas, compreendidas e aceitas tais concepções pelos SA e sujeitos- professores vão, certamente, influenciar no ensino de LP.
Partindo desse pressuposto, vamos analisar no próximo subitem, nos textos dos sujeitos-alunos, que concepção de ensino de Língua Portuguesa (ou seja, o que é ensinar LP no EB) eles estão levando na bagagem ao concluírem o curso. Ter conhecimento da concepção de ensino de LP que esses sujeitos estão levando para a prática docente, pode nos dar uma ideia de como serão como sujeitos-professores de LP no EB.