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Os primeiros contatos foram realizados no mês de fevereiro. As entrevistas foram realizadas no mês de março e abril de 2014. O curso investigado ocorre por etapa, devido os/as estudantes indígenas serem professores/as em suas aldeias. Não funciona semestralmente como a maioria dos cursos. Tal diferenciação ocorre devido aos professores indígenas não poderem deixar suas escolas a qualquer momento.

O fator distância também conta para que o curso seja ofertado por etapa (uma nos meses de fevereiro e março e outra em abril, julho e agosto), ou seja, muitos indígenas moram em lugares distantes da cidade, alguns tendo que viajar mais de sete horas de barco e mais 7 horas em via terrestre – ônibus, até chegar à cidade de Ji-Paraná, onde acontece as aulas do referido Curso.

Como mencionado anterior, ainda na graduação iniciou-se a pesquisa sobre os grupos indígenas de Rondônia, por meio do Grupo de Pesquisa em Educação na Amazônia – GPEA. Por ser integrante do referido grupo de pesquisa, obtive aproximações com os professores indígenas. Em 2014 havia três turmas em andamento, numa média de 150 estudantes/professores.

Ao retornar para Rondônia em 2014, depois de morar na cidade de Porto Alegre no ano de 2013, no mês de fevereiro iniciei os primeiros contatos, uma vez que nesse mês, iniciavam-se, as aulas em uma das etapas do curso. Assim, os primeiros passos foram em forma de diálogo informal com a coordenadora do curso, quando a mesma mostrou-se disposta a colaborar com a pesquisa, mediante posterior aprovação da chefe de departamento.

O curso conta com quatro disciplinas voltadas ao campo da Etnomatemática no ciclo de formação Básica, sendo elas: Etnomatemática e Temas Fundamentais em Matemática I; Etnomatemática e Temas Fundamentais em Matemática II; Etnomatemática e Temas Fundamentais em Matemática III; Matemática do cotidiano e Matemática Escolar. Esse ciclo é denominado de Ciclo Básico, independente da escolha de formação, sendo estas disciplinas obrigatórias. Tais disciplinas são pautadas na ideia da interculturalidade. Aborda com os estudantes a matemática não indígena, ao mesmo tempo em que insere em seu discurso uma positividade quanto aos saberes indígenas.

No momento da pesquisa, o curso contava com um professor graduado em matemática e esse, trabalha geralmente com as disciplinas vinculadas com o ensino de matemática e Etnomatemática. Tal professor aceitou de imediato colaborar com a presente pesquisa. O mesmo me convidou a participar de suas aulas, as quais ocorriam no período matutino e noturno.

No curso, há quatro áreas de formação, sendo elas: Ciências da Linguagem Intercultural; Ciências da Natureza e da Matemática Intercultural; Ciências da Sociedade Intercultural e Educação Escolar Intercultural no Ensino Fundamental e Gestão Escolar. Optou-se por realizar a pesquisa com os estudantes que realizam sua formação na área de Ciências da Natureza e da Matemática Intercultural. Os formados nessa área são habilitados a trabalhar com o ensino de Física, Química, Biologia e Matemática. Optou-se também em realizar a pesquisa com os estudantes indígenas que haviam efetivado o ciclo básico.

Assim, os estudantes que poderiam colaborar com essa pesquisa estariam cursando a turma A e a turma B. Vale ressaltar que se denomina a turma pelo ano de entrada na Universidade. Turma A refere-se à turma que ingressou no ano de 2009. Já a turma B refere-se à turma que ingressou no ano de 2010.

A partir desse momento, as conversas com possíveis colaboradores foram iniciadas. Em um dia determinado em parceria com o professor das disciplinas voltadas à Matemática e à Etnomatemática, estive com a turma A onde o professor abriu o espaço em sua aula para expor os objetivos da pesquisa, bem como conversar com os estudantes a fim de evidenciar a importância de desenvolver a pesquisa em questão. O professor se retirava da sala para que a conversa se tornasse o mais informal possível, assim, pude expor a pesquisa com seus objetivos, lembrando que uma pesquisa como essa os entrevistados tem que sentir dispostos a colaborar e sem obrigação nenhuma. Ao fim, perguntei se alguém tinha o interesse de participar. Houve um momento de silêncio e, por alguns segundos, nenhum estudante se propôs a colaborar. Quando estava saindo da sala, um disse: “professor, quero colaborar”. Aproveitei e marquei um horário com o estudante. Antes, perguntei a ele se tinha um local em que preferia ceder a entrevista e, devido ele estar boa parte do tempo na universidade, preferiu ser em uma das salas.

Com isso foi possível perceber que talvez fosse melhor realizar as conversas com cada um em particular. Assim, pesquisei quem poderia, com os requisitos tratados acima, colaborar com a pesquisa. Sabendo os nomes, comecei a conversar pessoalmente com cada um a fim de conseguir uma participação no meu trabalho. Pude contar com seis estudantes/professores indígenas como colaboradores, todos do sexo masculino.

Todas as entrevistas foram realizadas no espaço da Universidade, uma vez que os estudantes/professores indígenas ao se encontrarem em Ji-Paraná necessitam alugar residências em parceria com outros colegas em função de tempo (de 45 a 90 dias). Desse modo, não seria adequado realizar uma entrevista em um espaço onde se encontravam aproximadamente cinco a sete pessoas. Outro fator que motivou a pesquisa ser realizada no espaço da Universidade se deu pela timidez explicitada por alguns, bem como a proximidade que os mesmos poderiam querer manter na pesquisa. Das seis entrevistas, cinco foram realizadas nas salas de aula e uma realizada em baixo de uma árvore.

As conversas surgiram sempre a partir de uma pergunta central: me fale

como você chegou na docência. Ao serem questionados sobre o processo que os

constituíram como educadores indígenas, iniciaram suas falas lembrando de como foram alfabetizados, de seus professores, da escola e logo (talvez em função de

saberem os objetivos da pesquisa) falavam sobre qual Matemática aprenderam e como foram ensinados e como isso influenciou na forma como deram aula até ingressarem no curso de Licenciatura Intercultural.

A partir desses relatos, foi possível ir organizando meus direcionamentos em relação às experiências evidenciadas pelos colaboradores. Lembrando sempre que por meio das entrevistas narrativas, a intenção era a narração de suas vivências enquanto educadores para que, a partir das suas falas, pudesse compreender como constituíam suas percepções em relação às disciplinas mencionadas anteriormente e como isso influenciava em sua prática e em seu modo de entender as implicações dos saberes tradicionais matemáticos no âmbito do curso de Licenciatura Intercultural, bem como em relação ao que conhecemos como Matemática (Matemática não indígenas) tanto no âmbito do curso quanto no processo de escolarização.

CAPÍTULO III

CONHECENDO AS IDENTIDADES ESTUDADAS