Das pessoas entrevistadas cerca de 40% são nordestinos e outros 60% são provenientes principalmente das Regiões Sudeste e Centro Oeste, principalmente dos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Os paulistanos e paulistas, mesmo tendo naturalidade no Estado e na cidade de São Paulo, em grande parcela são filhos de imigrantes. Essas com grande contingente de nordestinos migraram para São Paulo, nas décadas de 1970 e 1980, justamente pela oferta de emprego; no entanto, a chamada recessão eliminou uma grande quantidade de postos de trabalho. Parte dos empregados, que anteriormente possuíam uma inserção ocupacional
protegida pela legislação trabalhista e social, foi obrigada a buscar uma outra forma qualquer de trabalho. É nítido nas conversas das pessoas o impacto que a recessão teve na vida das delas na Região metropolitana de São Paulo. Metrópole que era o sonho da maioria;
Quando vim para São Paulo da Bahia muitos anos atrás tudo era mais fácil pra sobreviver, por que tinha mais emprego, a gente tinha mais oportunidades hoje até o emprego de porteiro ta difícil que na época era tão fácil, por isso fica muito difícil sustentar a família e quando conseguimos alguma coisa normalmente pagam muito pouco, sem benefício e carteira assinada, às vezes desanimamos até de procurar emprego, hoje trabalho de camelô na rua. (José Ameida de Guimarães – 46 anos) Essa metrópole tinha uma estrutura produtiva nucleada pela indústria de transformação, no entanto, como a partir de 1980, houve uma grande retração no nível da produção e de empregos industriais que geraram um crescimento acentuado do desemprego aberto, essas pessoas hoje são vítimas desse processo:
Esse comportamento do desemprego indica que o aumento da população economicamente ativa, que teve um ritmo mais lento que nos anos 70, foi absorvido de alguma forma. E essa absorção ocorreu nas atividades urbanas, pois continuou a cair o peso das atividades agrícolas na ocupação total durante a década de 1980. (Andrade Baltar e Salvadori Dedecca 1997: 92-93).
Distribuição dos participantes das atividades e cursos da Casa da Solidariedade, por Naturalidade. Tabela 7 Naturalidade % Urbana 68% Rural 32% total 100%
Isso explica a porcentagem de muitos entrevistados já terem nascido ou há muito tempo já estarem em áreas urbanas, pois 68% dos entrevistados nasceram em áreas urbanas. Tendo em vista que desses a maioria são pessoas mais jovens filhos de imigrantes que já nasceram em São Paulo, seus pais são predominantes de áreas rurais, 32% tiveram origem em áreas rurais, logicamente pessoas de mais idade acima dos 45 anos. A Partir desse período e dessa constatação, percebe-se que o crescimento da ocupação não agrícola foi dessa forma relativamente rápido.
Vim para São Paulo para buscar uma vida melhor, trabalhar, por que na roça não dava mais, ter uma renda melhor, estudar e o pior é que hoje não tenho renda nem para estudar por que estou desempregado e nem trabalhando estou, não quero hoje voltar pra Paraíba por que lá também ta difícil estou fazendo o curso de eletricidade para ver se as coisas melhoram e consigo fazer um bico. (José Lindeberg Fernandes do nascimento – 38 anos).
No entanto, a indústria de transformação e a construção civil em São Paulo não tiveram um papel predominante na absorção da população ativa em atividades urbanas, pois foram justamente estes setores os mais atingidos pela crise econômica. Segundo depoimentos, aumentou a participação no comércio e nos serviços, muitas pessoas passaram a trabalhar nessa época principalmente na reparação e conservação, alojamento e alimentação, atividades sociais, e também em serviços de apoio à atividade econômica na ocupação urbana. A falta de uma política agrícola decente e a necessidade de renda através do emprego foram as principais causas dessas pessoas migrarem a São Paulo. Como se comenta se tivesse havido uma reestruturação fundiária, uma reforma agrária adequada, estas medidas poderiam ter contribuído muito para evitar o maior êxodo rural, pois este pressionou fortemente o mercado de trabalho urbano.
Distribuição dos participantes das atividades e cursos entrevistados da Casa da Solidariedade, por Religião.
Tabela 8 Religião % Católico 70 Protestante 2 Espírita 9 Evangélico 9 Afro 0 Sem Religião 10 total 100%
Em relação à religião, 70% se apresentaram como sendo católicos e outros 30% como de outras religiões ou se consideram sem religião. Isso se explica também na medida em que a Pastoral Operária teve origem no seio da Igreja Católica, apesar de que todos foram unânimes em afirmar que não existe diferenciação no tratamento entre os pertencentes das várias denominações religiosas.
Sou evangélico mais nunca houve diferenciação por causa disso mesmo por que a formação é a mesma e muitas vezes as pessoas nem me perguntam se sou católico ou de outra religião”. (Edinaldo Alves Silva – 16 anos). Além disso, segundo depoimentos de coordenadores e formadores da Casa da Solidariedade, tanto a formação como os encontros bíblicos têm uma dimensão “ecumênica”40:
Todo mês, nos reunimos com o padre Franscisco para aprofundar nossa fé numa dimensão ecumênica, para construir desde já, um “novo céu e uma nova terra”....O grupo de Pastoral Operária da região debate as questões dos trabalhadores nos
40 O sentido geral que se dá a este termo é o de referir a algo “universal”, que estende por todo o mundo. Em
linguagem eclesiástica, por exemplo, se diz que um Concílio é ecumênico quando dele participam as igrejas de todas as partes do mundo. Mas a aplicação do termo não se limita a vida religiosa e à prática das instituições eclesiásticas. De fato, ecumênico é algo que tem a ver não só com os corpos cristãos, com as igrejas. É empregado também no âmbito político, econômico, cultural, etc.
dias de hoje e resgata a sua história, propiciando a revisão de sua vida e de sua prática. (Boletim da Casa da Solidariedade N. 9 – setembro de 2006).