O plano de Jâmblico nos é dado no In Timaeum, fr.54-56 e 60. Ao considerar os dois movimentos do Timeu, o movimento do mesmo (Timeu, 36c2-3) e o movimento do outro (Timeu, 36c5), Jâmblico alega que esses movimentos não são da alma mas do Intelecto (In Timaeum, fr.55). O movimento do mesmo refere-se ao “Intelecto separado das almas”,
enquanto o movimento do outro refere-se ao Intelecto que não foi separado (ibid., fr.56). Esses representam: primeiro o noûs χωρίστóς ou αμέθεκτος, a seguir o noûs αχωρίστóς ou μετεκτós. Platão chamou o círculo do mesmo de movimento externo, e o círculo do outro de movimento interno (Timeu, 36c4-5), e Jâmblico interpretou isto como o Intelecto αμέθεκτος que rodeia (periékei; In Timaeum, fr.55.10; perékontos, ibid., fr.56.5) a alma (ou seja, toda a ordem da alma) e não se mistura (ibid, fr.56.6) com ela, enquanto o Intelecto μετεκτós está na alma (fr.56.6), misturado com ela e a conduzindo. Sendo assim, toda a ordem da alma (incluindo as almas individuas dentro dela) não participa diretamente do Intelecto mais elevado. Com isso Jâmblico pode concluir que:
...a alma participa do Intelecto, na medida em que ela [a alma] é intelectual, e através dele [νους μετεκτós] une-se também ao Intelecto divino [νους αμέθεκτος]. Pois, uma vez que a alma do Todo participa no Intelecto, ela ascende ao Inteligível. (In Timaeum, fr.55.14-17)
Assim, a alma do Todo e, consequentemente, outras almas inferiores participam não do Intelecto Divino (νους αμέθεκτος), mas do noûs μετεκτós. Um acesso da alma individual para o Intelecto Divino se dá através de um segundo intelecto que é a sua própria potência intelectual (νους μετεκτós)44. Além disso, as almas individuais junto com a alma do Cosmos,
44
Em uma manobra estratégica Jâmblico fundamenta a separação da alma humana incorporada com o Divino Noûs numa hábil aplicação do conceito da tradição platônica de participação (metechein) .
que é metekté, são intelectuais na medida em que elas estão cercadas pela alma não- participada (In Timaeum, fr.54.14-23). Jâmblico discute essa alma transcendente no In Timaeum, fr.50, definindo-a como a alma que é “transcendente, hipercósmica, absoluta, e
suprema acima de tudo”. Dessa alma procede a alma do Cosmos e todas as almas individuais (In Timaeum, fr. 54.10). As almas individuais são todas as almas divididas entre os corpos, tanto etéreis como materiais, o que inclui todos os gêneros superiores e as almas humanas.
Pode ser vista, com isso, a difícil posição em que se encontra a alma humana, complicando-se ainda mais ao lembrar que a alma humana está no mais baixo patamar da hierarquia psíquica e em sua essência é diferente de todas as outras almas que são acima.
Uma representação prática de toda essa concepção filosófica acima é demonstrada ao retornarmos para o De Mysteriis. Em I.15, Jâmblico, em resposta à observação de Porfírio de que as orações dos homens são impuras e incabíveis de serem oferecidas ao Noûs, procede com uma discussão sobre as orações e assim retruca:
De forma alguma! Pois é devido a esse mesmo fato, que nós somos vastamente inferiores aos Deuses em poderes, pureza, e tudo mais, que é antes de tudo mais crítico que oremos a eles ao máximo. Pois o reconhecimento de nossa insignificância (oúdeneías), quando comparamo-nos aos deuses, faz voltarmo-nos espontaneamente à oração. E de nossa súplica, num curto espaço de tempo somos elevados para aquele a quem oramos, e pelo nosso contínuo intercurso obtemos uma semelhança, e da imperfeição somos gradualmente envolvidos pela perfeição divina. (De Myst., I.15.47.13–48.4)
A compreensão de sua oúdeneías é a primeira necessidade de reconhecimento do homem para despertar em si o movimento em busca dos deuses. Em outro contexto, Jâmblico diz que quando a alma se torna ciente de sua “feiura” separada dos deuses, ela é atraída para a beleza divina (De Myst., I.11.39,3–13).
As orações não são apenas palavras perceptíveis, mas algo divino e intelectual (theían kaì noerán; De Myst., I.15,48.10), sua origem é divina, são símbolos-chave45 (synthémata; De Myst., I.15,48.7) dos deuses, e compartilham de um poder divino conosco (I.15,48.5-13).
Desse modo, as orações são um vínculo intelectual entre os deuses e os homens. Ao orar cria- se um vínculo de identificação com a presença ativa dos deuses, afirma Jâmblico: “No momento da oração, o divino em si está literamente unido a ele mesmo” (I.15.47.9). Aqui, é importante ressaltar que a parte de homem que recebe as orações e as envia de volta para os deuses é a sua potência intelectual (a noesis)46:
Pois aquele elemento em nós que é divino e intelectual e uno ou, se você deseja denominá-lo, inteligível, é claramente estimulado, então, ao orarmos, e quando estimulado, aspira primordialmente àquilo que é semelhante a si, e une-se a perfeição essencial (De Myst., I.15.46.13-16)
Gradualmente, assemelha-se ao deus para quem se ora (I.15, 48.1-2)47. O poder das orações eleva e conecta aos deuses por meio do intelecto, e dessa forma as orações atuam como um componente necessário aos rituais divinos (De Mysteriis, V.26.238,14-15). Pelo intelecto se conhece e se une aos deuses, mas é importante ressaltar que essa potência deve ser “estimulada” para que sua presença se torne ativa, e só assim é possível conhecer e se unir ao divino, ou seja, todas as almas humanas possuem essa potência, mas quando incorporadas apenas algumas almas conseguem ativá-la48. E, como vimos, a possibilidade de união com os deuses só é possível, diz Jâmblico, porque na alma coexiste, na sua própria essência, um conhecimento inato (emphytos gnosis) dos deuses.
45
A identificação da oração como um synthemata é de fundamental importância para a articulação da atualização divina. A esse respeito ver adiante, nesse capítulo, seção 5 Symbola-Synthemata.
46
Cf. também De Mysteriis V.26.238,12-13, onde Jâmblico declara que passar o tempo orando nutre nosso intelecto.
47
Cf. também De Mysteriis, V.26.
48
A gnosis inata ou atração essencial do De Mysteriis (I.3.7,14; 8,2) é o ponto através do qual um teurgo, em sua experiência na forma corpórea, reconhece a si mesmo como o eixo central da sua função cosmogônica enquanto alma humana. E assim, os rituais teúrgicos são necessários, quando executados de forma apropriada, para manifestar essa atração inata aos deuses e canalizar as suas energias em nossa potência intelectual, de acordo com a capacidade de cada alma, por meio dos symbola-synthemata.