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Segundo Resende (2009), é importante estabelecer um diálogo entre o Realismo Crítico e a Análise de Discurso Crítica. Para a autora, com a heterogeneidade de abordagens, temos uma concordância em certos princípios de análise, questões, desenvolvimento metodológico, todos com uma característica em comum: a interdisciplinaridade. Assumimos, junto com ela também a filiação à abordagem de Fairclough. Resende (op. cit., p.12) nos diz que as pesquisas discursivas devem estar “baseadas na identificação de problemas sociais parcialmente discursivos que possam ser investigados por meio de análise situada de texto”, além de assumir uma posição explícita em face os problemas sociais, na tentativa de “desvelar discursos que servem de suporte a estruturas de dominação ou que limitam a capacidade de transformação dessas estruturas, por isso a ADC requer atenção tanto ao uso da linguagem quanto à estruturação da ação social”. Nesse cenário, notamos que a vida social é cada vez mais mediada pelos textos.

Dessa forma, a autora apresenta alguns pontos para discussão. A teoria do Realismo Crítico embasa as discussões em ADC em três aspectos:

 a estratificação da realidade social;  a vida social como sistema aberto;

 o modelo transformacional da relação entre estrutura e ação social.

Resende cita Bhaskar para explanar sobre a respeito da estratificação do mundo social. Segundo ele, temos três estratos da realidade: o potencial, o realizado e o empírico. O domínio potencial refere-se ao que se quer que exista, envolvendo as estruturas e poderes dos elementos sociais. Já o domínio do realizado refere-se ao que acontece quando esses poderes são ativados. O domínio do empírico é o domínio da experiência, da própria observação, representado, por exemplo, com a pergunta: “o que realmente observamos nas estruturas, das possibilidades, do que é realizado e manifestado ao nosso redor?”. Resende (op. cit., p.21-22) constata que:

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a distinção entre os domínios do realizado e do empírico, por sua vez, implica que nem tudo o que é concretizado em eventos é captado em nossa experiência. Assim a relação entre potencial, realizado e empírico é de contingente e conteúdo, em que o domínio potencial é maior que o do realizado, que por sua vez é maior que o do empírico.

Explicando melhor, esses estratos podem ser sintetizados da seguinte forma:

 Domínio do potencial – refere-se ao que quer que exista; refere-se às estruturas e poderes dos elementos sociais;

 Domínio do Realizado – refere-se ao que acontece quando esses poderes são ativados;

 Domínio do Empírico – domínio da experiência, da observação – é aquilo que nós efetivamente observamos dos efeitos das estruturas, das potencialidades e das realizações.

Dessa forma, podemos considerar: o domínio do potencial e do realizado pertencem a dimensão ontológica da realidade social, isto é, “que nem tudo o que poderia acontecer em função das estruturas internas dos objetos sociais acontece de fato, pois há contingências contextuais que podem bloquear mecanismos” (op. cit., p.21). Podemos complementar com a ideia de Collier (apud RESENDE , 2009) de que poder fazer não é sinônimo de fazer. Já o empírico pertence a dimensão epistemológica, baseada no nosso conhecimento sobre a realidade. Essas relações implicam que “nem tudo o que é concretizado em eventos é captado pela nossa experiência”.

Um ponto importante das discussões promovidas por Resende (2009, p.24) é a relação de causalidade entre práticas sociais e textos, isso por existir efeitos causais identificáveis nos textos e, em contrapartida, a existência de causas sociais na construção de textos. Juntamente a essas relações, há o conceito das representações discursivas, sendo essas responsáveis por “acarretar diferentes modos de legitimação de ações e de identificação de atores sociais”.

Ao tratar da concepção entre sociedade e pessoas, Bhaskar (1998, p.36) entende que pessoas não criam a sociedade, ela sempre preexistiu e é uma condição necessária para suas atividades. Para o autor, a sociedade deve ser vista como um conjunto de estruturas, práticas e convenções os quais os indivíduos reproduzem ou transformam, mas que sem ela esses não poderiam existir. Bhaskar (op.cit., p.36) propõe o seguinte modelo:

75 Sociedade Socialização reprodução/transformação Indivíduos

Figura: Modelo transformacional da conexão sociedade/pessoa

Segundo Bhaskar (1998), a sociedade fornece condições necessárias para as ações humanas intencionais e essa, por sua vez, é uma condição necessária para a sociedade. Além disso, segundo ele, a sociedade é apenas presente na ação humana, mas a ação humana sempre expressa e utiliza uma ou outra forma social.

Resende (2009, p.78), a partir do que apresenta Bhaskar, diz que “como as estruturas sociais são concebidas como coerção de atividade, devem também ser concebidas como recurso para a atividade, o que implica o caráter recursivo da vida social: agentes reproduzem e transformam as estruturas que utilizam (e que os constrangem) em suas atividades”. O modelo apresentado acima, ela chama de “modelo transformacional da atividade social”. Com base nele, ela propõe:

Bloqueio da satisfação da necessidade

Estrutura

Recurso/ constrangimento Reprodução/transformação Ação

Alguns meios para a remoção desse bloqueio Necessidade

76 O movimento descendente representa a dependência da ação humana de regras e recursos da estrutura social: ela é, ao mesmo tempo, facilitadora, por permitir determinada ação, e constrangedora, por regular condutas. Já o movimento ascendente representa “o acionamento de regras e recursos de estruturas sociais por atores sociais pode resultar em reprodução ou transformação de tal estrutura. Isso gera efeitos imprevisíveis (ver RAMALHO; RESENDE, 2011).

Resende (2009, p.28) conclui que

A concepção realista crítica da relação entre estrutura e ação, então, enfatiza que as estruturas sociais são condição necessária e pré- existente à agência intencional, mas também que elas existem apenas em virtude da agência. Nessa concepção, então, as estruturas sociais são tanto condição como resultado da agência humana, que ao mesmo tempo as reproduz e transforma. [...] as estruturas são sempre prévias, isto é, embora na agência seja potencialmente possível transformar estruturas (e não apenas reproduzi-las), as estruturas com as quais um ator social lida hoje foram conformadas em ações anteriores de atores que o antecederam.

Dessas proposições, temos as práticas sociais juntamente com o conceito de posição assumindo papel mediador entre as estruturas sociais e a ação social, como um ponto de contato entre elas. O modelo de Bhaskar e a relação com a perspectiva da vida social como um sistema aberto, mesmo que atividades sejam restringidas pelas estruturas, é uma “restrição parcial” por apresentar caminhos para a mudança social (RESENDE, 2009, p.30). Os atores sociais, assim, possuem certa autonomia em sua atuação social: embora tenha sua ação restringida pela estrutura, pode, naturalmente, transformar a essas e às relações sociais.

Sendo assim, Resende (op.cit.) identifica o continuum de abstração e concretude entre estruturas, práticas e eventos. Sobre esses últimos, podem produzir mudança social ao confrontar expectativas presentes em práticas sociais estruturadas; do mesmo modo, os textos como eventos sociais podem transgredir a ordem do discurso produzindo mudanças quanto a formas de mediação (seleção de gêneros discursivos), a questões discursivas como público-alvo e condições de produção, por exemplo, e também quanto ao estilo, entendido como identificação face a realidade.

77 Além do Modelo transformacional da atividade social, no diálogo entre o Realismo Crítico e a Análise de Discurso Crítica, a autora discute outros dois tópicos relevantes: a estratificação da realidade social e as dimensões transitiva e intransitiva do conhecimento.

Sobre a estratificação da realidade social, o foco é discutir a redução da realidade ao empírico. Entendendo que a RC se baseia na distinção entre o que é ontológico e o que epistemológico, retoma o que Bhaskar chama de “falácia epistêmica”, isto é, a pretensão de estudar o mundo real de uma forma objetiva, considerando que para tal necessariamente há a passagem pelo “filtro das nossas experiências”, além de conceber o mundo apenas a partir do que experienciamos. Há uma redução de “o que é” a “o que sabemos sobre” (RESENDE, 2009).

Como proposto pelo RC, a distinção entre o potencial e o realizado é compreender que nem tudo o que poderia acontecer acontece de fato, devido à vários fatores referentes a um dado momento. Dessa forma, nota-se que “ a emergência de eventos realizados pode ser explicada com base na causação”, ou seja, os eventos não são um modelo de sucessão regulares, mas há uma dependência da identificação de mecanismos causais e das condições que o ativaram ou bloquearam (RESENDE, 2009, p.71). É justamente isso que permite dizer que eventos sociais não podem ser previstos. Assim, as implicações epistemológicas propostas pelo RC configuram-se da seguinte maneira (op.cit., p.72):

(i) o que se realiza em eventos e o que podemos observar do mundo social não esgotam o que existe, uma vez que há poderes causais subjacentes às estruturas; (ii) isso não significa que não seja possível gerar conhecimento sobre aquilo que não podemos observar empiricamente, já que podemos, com base no conhecimento sobre as práticas, fazer abstrações sobre os poderes causais ativados/bloqueados em um dado evento; (iii) como a vida social é um sistema aberto, aquilo que acontece não esgota o que poderia ter acontecido, pois pode haver poderes causais latentes; (iv) toda a explanação social é falível e passível de ser superada, pois as estruturas não são transparentes à razão.

As dimensões transitiva e intransitiva do conhecimento trazem o pressuposto de que o mundo não deve ser reduzido a nosso conhecimento sobre ele, onde a realidade independe relativamente desse nosso conhecimento. Sobre isso Resende (op. cit,, p.73) nos diz que

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A dimensão intransitiva do conhecimento é sua dimensão ontológica – das coisas que há no mundo – e a dimensão transitiva é epistemológica no sentido que se refere às teorias que construímos sobre o mundo (natural ou social) e por meio das quais podemos gerar conhecimento sobre sua dimensão intransitiva.

Isso justifica, segundo a autora, a relação dialética entre linguagem e sociedade na ADC, “aspectos discursivos de práticas sociais, como representações discursivas de eventos e práticas, podem ser efeitos causais na sociedade; podem, por exemplo, legitimar certos modos de ação ou ser utilizadas como base para construções identitárias” (RESENDE, 2009, p.75).

Existem um diálogo possível entre RC e ADC: para a primeira, a relevância do discurso sobre os objetos sociais não é meramente discursivo, as “pesquisas em ADC estão primariamente interessadas nas representações discursivas, sem perder de vista a relevância dos momentos não discursivos das práticas sociais para a crítica explanatória do papel do momento discursivo das práticas” (op. cit., p,80). Ao assumir o foco na relação entre linguagem e sociedade, o discurso é influenciado “pelas estruturas/práticas como influencia a manutenção ou transformação”.