O fenómeno cultural do hip hop tem as suas origens socio-históricas enraizadas num contexto socioeconómico marcado por profundas dificuldades experienciadas pela população urbana. É a partir da criatividade de alguns jovens que, na década de 70 nos bairros de Nova Iorque, a cultura se desenvolve e se apresenta como aliciante para uma série de jovens noutras localidades. “Apesar da especificidade da sua origem geográfica e histórica, o hip-hop transpôs a esfera local e perdurou ao longo do tempo” (Simões, Nunes e Campos, 2005: 176).
É possível, de grosso modo, identificar algumas etapas fundamentais no crescimento do fenómeno hip hop. Simões, Nunes e Campos (2005) definem pertinentemente três fases da história da evolução da cultura no globo.
Numa primeira fase da história da cultura, o consumo e a produção de hip hop eram não só circunscritos a manifestações espontâneas e improvisadas, como restritas no seu acesso apenas para quem fazia parte do meio onde essas práticas tinham lugar. Os indivíduos adeptos da cultura eram quase exclusivamente produtores da mesma. O hip hop era, dessa forma, essencialmente uma cultura de rua e a uma vivência da juventude urbana.
Numa segunda fase, ocorre a abertura definitiva do meio para o exterior (Barbio, 2011). Após o hip hop se espalhar pelas várias regiões de Nova Iorque, começa a expandir-se para outras zonas dos EUA e depois para o resto do mundo. O alcance do hip hop encontra-se associado a um fenómeno de globalização-localização que tende a gerar simultaneamente práticas gerais e reconhecíveis por um vasto conjunto de indivíduos, bem como práticas específicas associadas a fenómenos locais. A comercialização desempenhou um papel decisivo. Pelo reconhecimento das potencialidades comerciais dos elementos da cultura, particularmente da vertente musical, foram desenvolvidas estruturas e formas de organização que permitiram a institucionalização do campo do hip- hop (Simões, Nunes e Campos, 2005).
A música rap passa a estabelecer-se como comercialmente viável, a partir do single “Rapper’s Delight” (1979), dos Sugar Hill Gang (Simões, 2010; Persaud, 2011; Robinson, 2011). O tema é creditado como o início do rap gravado e em formato comercial. O single direcionou a atenção dos EUA para uma nova forma de música. A partir dessa altura, o rap começou a estabelecer-se como comercialmente viável. Esse início da comercialização do rap “permitiu a abertura da cultura hip hop ao exterior e consequentemente a sua expansão para outros territórios e mercados” (Simões, 2010: 39). “Esta expansão está na origem da própria evolução e dinâmica da música rap” (Simões, 2010: 39). A partir de meados da década de 80, multiplicaram-se os artistas e grupos de rap, bem como a quantidade de áreas geográficas onde o movimento se fixava. Por essa altura, alguns músicos de hip hop atingiram sucesso mainstream, começando a aparecer entre os artistas com maior dimensão e número vendas na indústria musical (Persaud, 2011).
Uma das áreas com maior expressão, e com uma influência que continua a persistir na atualidade, foi a Califórnia também denominada de West Coast hip hop. Foi em Los Angeles que nasceu um subgénero do rap, o “Gangsta Rap”. Nas zonas mais pobres da South Central Los Angeles, nos “guetos” habitados por negros e latinos, em zonas marcadas por atividades de gangues, emerge esta variante do rap característica pela sua proclamação de um estilo de vida centrado em aspetos marginais (o designado “gangsta
style”). Um dos primeiros intervenientes do género foi o rapper Ice-T que abre caminho
para os polémicos e quintessenciais Niggaz With Attitude (N.W.A.). Este coletivo de Compton, formado pelos artistas Eazy E, Dr. Dre, Ice Cube, DJ Yella, MC Ren e Arabian Prince, marca o início de uma nova era no hip hop, responsável pela divulgação do fenómeno para uma escala mundial. A partir de uma sonoridade melodicamente inovadora, os rappers do grupo musical falavam sobre temáticas sociais, violentas, obscenas e sexuais, numa tonalidade claramente irreverente, como é o caso de, por exemplo, a música “Fuck the Police” (1988). Outro marco fundamental para a influência do rap californiano na globalização do hip hop, foi a estreia a solo de Dr. Dre no seu álbum “The Chronic” (1992) e ainda a sua produção musical noutros projetos como o álbum de Snoop Dogg, “Doggystyle” (1993). Dotado por uma sonoridade única, o G-
Funk, torna-se num subgénero musical com um ritmo festivo, passando a ser o subgénero predileto para muitos jovens. A influência do rap da Califórnia na globalização da cultura hip hop, contribui para a enorme popularidade do movimento a partir de finais da década
de 80 e inícios da década de 90. Por essa altura, o fenómeno cultural do hip hop atingia já uma escala planetária.
Numa terceira e última fase, a comercialização adquire uma expressão extremamente diversificada – à “abertura provocada inicialmente pelo impacto da comercialização do hip hop, […] vem juntar-se a dispersão territorial gerada pela globalização desta cultura” (Simões, Nunes e Campos, 2005: 177). Pela década de 90, o hip hop alastrava-se já ao mundo inteiro. Os vários países, regiões e cidades do mundo onde o hip hop se enraizou, apropriaram-se da cultura deparando-se com a sua própria visão e interpretação fenómeno - o hip hop português surge justamente nesta fase. O aparecimento do rap em diversos contextos geográficos teve como consequência uma transformação do género musical. Pela forma como foi adaptado localmente, as caraterísticas musicais e linguísticas dos vários contextos geográficos foram incorporadas na produção musical (Simões, 2010). O hip hop produz, desta forma, uma certa convergência cultural, sendo um fenómeno claramente transcultural. Por um lado, existe “uma linguagem comum que pode ser identificada enquanto tal pelos seus praticantes [e consumidores], por outro lado, e ao mesmo tempo, gera divergência cultural, pelo facto de essa linguagem ser localmente adotada e adaptada” (Simões, 2002: 36; citado por Simões, Nunes e Campos, 2005: 177, 178). No fundo, no que podemos designar como especificidade local, cada lugar constrói o seu próprio hip hop (Barbio, 2011). Este fator gerou uma vasta diversificação nos critérios e formas de produção da cultura. No caso do rap, a lista de subgéneros da variante musical é extensa – “Boom bap”, “Crunk”, “Drill”, “G-Funk”, “Grime”, “Jazz Rap”, “Mafioso Rap”, “Trap”, “Trip Hop”, entre tantos outros subgéneros.