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Generelt om EU/EØS-retten og virksomhetsoverdragelse

O pathos é a dimensão do auditório. Costumeiramente compreendido como o conjunto de emoções e paixões sentidas pelo auditório sobre determinada questão, o

pathos configura-se sobretudo como a dimensão das afecções, de tudo aquilo que afeta o auditório e que o move a tomar determinadas posições. Segundo Perelman e Olbrechts- Tyteca (2005), lembramos: é sempre em função do auditório que se faz qualquer argumentação. Nesse sentido, importa saber tudo o que o atinge, pois é precisamente a partir do que o desestabiliza, ou do que o agrada, que o orador supostamente direciona seus argumentos.

Não obstante, apesar de a dimensão do pathos ser a dimensão onde se situam as paixões, isto não nos permite sentenciar que o todo do pathos seja relacionado às paixões. Quanto a isso, Meyer (2007, p. 36) esclarece que: “Se o ethos remete às respostas, o

pathos é a fonte das questões e estas respondem a interesses múltiplos, dos quais dão prova as paixões, as emoções ou simplesmente as opiniões”. Em termos de pergunta e resposta, podemos inferir que as paixões transferem a problemática para o plano da resposta, pois entende que as paixões, quando se estabelecem, procuram determinar a questão como respondida. “E a própria paixão, como resposta, é um julgamento de valor sobre aquilo que está em questão” (MEYER, 2007, p. 37), e, portanto, pela paixão, a pergunta se torna resposta. Vemos, nesse contexto, que se referir ao pathos pode ir além

de uma referência às paixões do discurso pura e simplesmente, embora elas sejam predominantes, mas também acerca dos juízos e opiniões decorrentes dessas paixões que, através do logos, arrazoam-se e mostram-se como legítimas.

O caráter cauteloso de se falar em paixões ou ainda de se pesquisar o papel das emoções no discurso é ainda fruto da desvalorização que as paixões sofreram durante o desenvolvimento da arte retórica, tal como afirma Lima (2006). Durante muito tempo as paixões eram consideradas ainda como desvios de argumentação. Tal juízo tem início desde a era clássica grega com Platão, e, em certa medida, foi continuado por aqueles que defendem (alguns até hoje) a preponderância da razão em detrimento da emoção no discurso argumentativo. Nesse viés, Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), ao entenderem as argumentações a partir do prisma da razoabilidade, são frequentemente associados como teóricos contemporâneos que mantiveram tal visão redutora das emoções. Ora, o razoável é perfeitamente compreensível quando se leva em conta os dois polos distintos de racionalidade. O positivismo de um lado, doutrina que compreendia a racionalidade absoluta e a aplicabilidade de leis a todas as situações humanas; e o relativismo dogmático de outro, a exacerbação de valores, paixões e ideologias às últimas consequências.

Ademais, visto o período pós-guerra em que Perelman se insere, parece-nos perfeitamente cabível uma teoria em que prevaleça a tentativa do acordo e do equilíbrio em detrimento do racionalismo irrestrito e do dogmatismo descontrolado. Fato é que, devido a isso, Perelman não se preocupa em entender o pathos puramente como conjunto de emoções e paixões, mas sim como o conjunto daqueles a quem queremos persuadir e convencer e que, sendo assim, devemos levar em conta tudo o que os torna passíveis à adesão, inclusive as paixões. O conceito de argumentação como “o estudo das técnicas discursivas que visam a provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que se lhes apresentam ao assentimento” (PERELMAN & OLBRECHTS-TYTECA, 2005) refere- se, inclusive, a um “espírito” que é, segundo ele, a constituição do auditório em intelecto, valor e paixão.

Contudo, não queremos aqui partir em uma defesa aberta à teoria da nova retórica, apesar de simpáticos a ela, mas sobretudo queremos estabelecer os pontos problematológicos da dimensão do pathos nos estudos de retórica e do discurso político, especialmente. Ou seja, não pretendemos aqui nem acusar as paixões de serem “desvios

de argumentação”, visto que não a enxergamos desse modo, tampouco em afirmar que as paixões devam ser exploradas aleatoriamente, ou consideradas como as chaves de qualquer argumentação. As paixões são importantes para o discurso e os estudos discursivos não podem prescindir de uma análise do discurso emocionado75. Preferimos,

destarte, entender como essas paixões podem ser argumentadas em um encadeamento lógico. Nesse sentido, Raphael Micheli (2010), profundamente influenciado pelas contribuições de Plantin (2011), procura apresentar as paixões em outro prisma, buscando as origens de suas constituições e concluindo, portanto, que as paixões não têm apenas efeito cognitivo, mas origens cognitivas, fundamentadas em conjuntos de crenças e julgamentos que as justificam aos olhos daqueles que as experimentam.

Também nesse prisma, Patrick Charaudeau (2005a), filiando-se a uma tradição retórica, considera as paixões como o que toca o auditório : “Les toucher, cela voulait dire les mettre dans une ‘disposition d’esprit’ telle que leur jugement puisse être plus facilement orienté dans telle ou telle direction76” (CHARAUDEAU, 2005a, p. 62). Para

ele, as estratégias do discurso político precisam considerar o domínio das paixões, pois estas afetam o espírito do auditório, o que poderia levá-lo, através destas paixões gerenciadas e exploradas, à adesão, ou mesmo a reforçar a adesão (CHARAUDEAU, 2005a, p. 63).

Sendo assim,

a paixão é, portanto, um poderoso reservatório para mobilizar o auditório em favor de uma tese. Isso reforça a identidade dos pontos de vista, ou a diferença em relação à tese que procuramos afastar. A função da paixão consiste em comunicar ao outro a diferença que é a sua[...] (MEYER, 2007, p. 38).

Nesse sentido, é possível observar que o pathos é a dimensão mais problematológica de todas, levando em conta que é precisamente nela que reside a maioria das diferenças estabelecidas no discurso. Isso se dá notadamente pelo caráter de alteridade de qualquer argumentação. Essa alteridade, a simples presença do outro, “interroga e interpela os indivíduos” (MEYER, 2008, p. 173). A problematologia do

pathos começa, pois, a partir dessa condição, enquanto fruto de um jogo argumentativo

75 Cf. PLANTIN, 2011.

76 Tocá-los. Isso queria dizer coloca-los em uma ‘disposição de espírito’ tal que seu julgamento pudesse ser

entre identidade e diferença, entre valores distintos e iguais, entre paixões que buscam aniquilar tais diferenças ou, em oposição, aumentá-las.

Assim, Meyer nos afirma que “ dans ces conditions, on comprend que la passion ne soit pas seulement faite de plaisir ou de déplaisir, mais aussi de réaction de mise à distance ou de rapprochement à l’égard de ce(lui) qui s’identifie au problème77

(MEYER, 2008, p. 173). Ou seja, a paixão não se trata de uma manifestação do espírito ou do corpo, que nos arrebata e nos leva a agir, a fazer algo em prol ou contra algo, mas também faz parte do próprio jogo de interação retórica entre as relações dialógicas instituídas no processo argumentativo e que se constituem como a base para qualquer problematologia na argumentação: a existência do outro, a alteridade, com suas diferenças de credos, crenças, valores e também paixões. O papel da argumentação focada no pathos seria, nesse sentido, o de veicular paixões e emoções em direção ao acordo e gerenciá-las de maneira que elas passem a ser respostas e não mais perguntas, isto é, para que elas passem a ser identidade e não mais diferenças.

Para um melhor entendimento do que queremos chamar de “problematologia do

pathos”, vejamos o conceito de paixão em Michel Meyer:

Une passion est donc un sentiment de plaisir ou de déplaisir qui s’exprime corporellement et intellectuellement. C’est une réponse subjective (plaisir- déplaisir) à un problème objectif provoqué par la présence de l’autre, mais qui peut s’identifier à l’autre lui-même, comme dans l’amour ou la haine. La passion transforme l’alterité en subjectivité. Cela se traduit, pour l’autre, par une distanciation, qui peut tendre vers zéro ou, au contraire, « être infinie », comme lorsqu’on ne peut pas voir quelqu’un « en peiture », ou retourner à certains endroits traumatisants78 (MEYER, 2008, p. 174, grifos do autor).

Em outras palavras, podemos dizer que a paixão seria a maneira como a distância entre os seres e as coisas nos afeta (MEYER, 2008). Dessa forma, não seria propriamente um sentimento, mas sim as relações de distância entre os seres, evidenciando a grandeza

77 Nestas condições, compreende-se que a paixão não seja apenas feita de prazer e desprazer, mas também

de reação à tomada de distância ou aproximação ao olhar do que (ou de quem) se identifica ao problema. [Tradução nossa].

78 Uma paixão é, logo, um sentimento de prazer ou desprazer que se exprime corporalmente ou

intelectualmente. É uma resposta subjetiva (prazer-desprazer) a um problema objetivo provocado pela presença do outro, mas que pode se identificar no próprio outro, como no amor ou na raiva. A paixão transforma a alteridade em subjetividade. Isso se traduz, para o outro, por uma distanciação que pode tender a zero ou, ao contrário, ser “infinita”, como quando não queremos ver alguém “nem pintado de ouro”, ou retornar a certos lugares traumatizantes. [Tradução nossa, grifos do autor].

paixão/distância como atributo definidor da qualidade e das características da argumentação. Isso nos permite dizer que há uma grandeza lógica em que podemos aferir a força de uma paixão retórica observando as proximidades de crenças, valores, ideologias entre os seres, visto que a paixão nada mais é do que uma questão que se passa por resposta na medida em que os correligionários já a entendem como respondida e, quiçá, como intocável. Sendo assim, tal grandeza se estabelece proporcionalmente de forma indireta, isto é, quanto mais uma distância é forte, mais a paixão é fraca (MEYER, 2008). Meyer nos afirma que “a ficção, a narração, a evocação de situações que poderiam ser as nossas e poderiam nos afetar suscitam o sentimento de proximidade, de comunidade, até mesmo de fraternidade” (MEYER, 2008, p. 177, Tradução nossa).

Podemos considerar, pois, que o auditório responde às questões levantadas pelo locutor e isso pode ocasionar diferentes resultados: 1- a adesão; 2- a recusa; 3- o auditório pode completar as respostas; 4- ou modificá-las; 5- pode ainda permanecer em silêncio, o que pode ocasionar tanto o consentimento de aprovação, como o desprezo pela reprovação, ou ainda, pode significar desinteresse pela questão tratada (MEYER, 2007, p. 39). Contudo, a imagem criada do orador pelo auditório pode constituir a imagem desejada pelo orador ou não, o que o colocaria no desafio de transformar as paixões avessas do auditório em similares às suas próprias, refazendo, assim, a sua boa imagem de orador. Nesse prisma, veremos, na análise pretendida, que houve a preocupação do orador Lula, em seu pronunciamento, em reverter a disposição do auditório, trabalhando assim com as paixões deste. É crucial para qualquer acordo, por mais objetivo que ele seja, identificar as paixões presentes e saber argumentar a partir delas. Portanto, “encontrar as questões implicadas no pathos é tirar partido dos valores do auditório” (MEYER, 2007, p. 39). Importa, pois, saber tudo o que o afeta, o que ele detesta, o que aprecia, o que o indigna, o que deseja, ou que o deixa esperançoso, fato que coloca a análise discursiva de prisma retórico, nessas dimensões, como suficientemente complexa, profunda e adequada para depreender as possibilidades de significado dos atos enunciativos.