Para cumprir os objetivos propostos para este projeto de intervenção/investigação foram utilizadas técnicas de recolha de dados que permitiram alimentar o ciclo da reflexão-ação anteriormente referido, ou seja, fornecer os dados envolvidos nos processos que permitiram planificar, executar, avaliar e refletir, num movimento cíclico continuamente equacionado para permitir a prossecução desses mesmos objetivos. Para apresentar as técnicas selecionadas criamos uma tabela (Tabela 2) onde as mesmas são equacionadas tendo em conta a sua maior preponderância no campo da compreensão ou da ação (investigação ou intervenção), relacionando-as também com a tipologia de Guerra (2002) para as funções da Investigação-Ação.
Técnicas Investigação Intervenção Funções da Investigação-Ação Descritiva Observação participante Análise documental Questionário Explicativa Conversas informais Notas de campo Entrevista
Controlo Grupo de Discussão
Tabela 2 - Técnicas de investigação/intervenção
A leitura da Tabela 2 permite concluir o seguinte: A observação participante, a análise documental e o inquérito por questionário foram as técnicas de investigação que cumpriram a função descritiva da Investigação-Ação, na descrição do contexto, dos atores e das suas representações; As
conversas informais, as notas de campo e a entrevista, também com maior pendor na reflexão (investigação), foram as opções para o trabalho explicativo, na tentativa de refletir sobre as perceções e a compreensão dos fenómenos; O grupo de discussão, tradicionalmente uma técnica de recolha de dados, foi aqui usado deliberadamente com propósitos de controlo da ação, conferindo-lhe assim um certo hibridismo entre o papel de investigação e o de intervenção. Este trabalho de classificação, que serve apenas propósitos expositivos e organizativos, não corresponde a uma divisão estanque, porquanto aceitamos que outras configurações possam também fazer sentido. Seguidamente far-se-á uma breve descrição de cada uma das técnicas anteriormente referidas.
A observação participante permite recolher dados fundamentais para conhecer melhor o público-alvo, na auscultação das suas opiniões e perspetivas, nas questões comportamentais que manifesta, na forma como reage às atividades propostas, como se envolve, etc. Para Máximo-Esteves (2008), “A observação ajuda a compreender os contextos, as pessoas que nele se movimentam e as suas interações” (p. 87), e por ser participante implica que “o investigador pode compreender o mundo social do interior, pois partilha a condição humana dos indivíduos que observa” (Lessard- Hébert, Goyette & Boutin, 1994, p. 155).
A análise documental permite a recolha de dados sobre a problemática do projeto, dos pressupostos teóricos que o fundamentam às temáticas introduzidas ao longo da intervenção. Permitindo o acesso direto a fontes primárias de informação, a análise documental é uma técnica muito importante, “seja complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema” (Lüdke & André, 1986, p. 38).
O questionário é uma forma de inquérito que permite recolher informação de forma muito direcionada, ao condicionar as respostas ao contexto das perguntas, havendo, no entanto, a possibilidade de articular perguntas abertas com perguntas fechadas no sentido de alargar ou restringir o espectro de respostas possíveis. Visando “a verificação de hipóteses teóricas e a análise das correlações que essas hipóteses sugerem” (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 188), o inquérito é especialmente apropriado para recolher dados que possam, posteriormente, ser estatisticamente tratados.
Podendo ocorrer em todos os momentos da intervenção, as conversais informais são uma forma de conhecer melhor as pessoas envolvidas neste projeto, sendo também um importante instrumento de recolha de dados para avaliar, por exemplo, o resultado da implementação das técnicas de intervenção.
As notas de campo são relatos pessoais que constituem uma fonte insubstituível de informação, constituindo-se por documentos descritivos e reflexivos que refletem factos e os entendimentos sobre os mesmos, isto é, falam da prática e da reflexão sobre a prática. Para Bogdan & Biklen (1994), correspondem ao “relato escrito daquilo que o investigador ouve, vê, experiencia e pensa no decurso da recolha e reflectindo sobre os dados de um estudo qualitativo” (p. 150).
O inquérito por entrevista é uma das técnicas de recolha de dados mais usuais em investigação social em virtude da sua enorme adaptabilidade (Bell, 1993, p. 118). Por outro lado, Quivy & Campenhoudt (2008) argumentam que as entrevistas fomentam processos de comunicação e interação humana que “permitem ao investigador retirar das entrevistas informações e elementos de reflexão muito ricos e matizados” (p. 192). Segundo Bell (1993, p. 120), as diferentes variantes que podem assumir colocam-nas num continuum de formalidades, das mais rígidas ou estruturadas, onde se procuram respostas para um conjunto bem definido de questões, o que, no limite, configura um questionário, até às completamente informais, aquelas que, no fundo, são conduzidas pelo entrevistado. Para este projeto optamos por um posicionamento intermédio, pelo que conduzimos entrevistas semiestruturadas, semidiretivas ou semidirigidas (Quivy & Campenhoudt, 2008, p. 192), uma norteada por um roteiro (Apêndice VII) e outra conduzida por perguntas-guia (Apêndice IX).
Propositadamente, deixamos para o final o comentário sobre aquela que consideramos ser a técnica mais importante que utilizamos nesta investigação. A dinâmica de grupo foi a principal técnica usada para desenvolver as atividades desta intervenção, pois que o contexto e o público-alvo onde esta se desenrolou determinavam abordagens que privilegiassem a relação interpessoal, o diálogo interpares e o estabelecimento de relações de confiança, de abertura e de amizade. Enquanto “conjunto de forças interiores e exteriores que atuam num grupo e determinam o seu comportamento assim como o dos seus membros” (Lima, 2006, p. 23), ou seja, forças que visam a “reformulação de comportamentos” (Minicucci, 1992, p. 17), a dinâmica de grupo é uma técnica flexível, ajustada a qualquer tema, e que se desenvolve em ambientes descontraídos, promovendo a motivação, cooperação e interação.
Na verdade, poder-se-á dizer que a dinâmica de grupo, expressão cunhada por Kurt Lewin, não é uma técnica de investigação qualitativa, mas um conjunto de técnicas de trabalho grupal adequadas para este género de investigação. Pensamos ser agora apropriado explicar que um grupo de trabalho é formado por um conjunto de pessoas que, procurando realizar objetivos comuns, procuram também um relacionamento interpessoal satisfatório (Minicucci, 1992, p. 20). Este esforço comum, que torna os participantes do grupo interdependentes, visa a interação e a partilha de saberes, não de
conhecimentos de índole comportamental, embora isso também possa ser alvo de estudo, “mas sobre os sistemas de representação face aos objetos de estudo” (Aires, 2011, p. 38). Assim, como tão bem resume Minicucci (1992), o mérito da dinâmica de grupo está no seu trabalho grupal, isto é, na sua capacidade em democratizar atitudes e desenvolver a sintalidade4 do grupo.
Das dezenas de dinâmicas de grupo bem documentadas com as quais poderíamos ter trabalho (Minicucci, 1992), aquela que nos pareceu mais adequada para cumprir os propósitos da nossa ação foi a intitulada grupo de discussão. O grupo de discussão é uma técnica de recolha de dados bastante utilizada em investigação qualitativa, que se baseia na “produção de discursos orais de determinado grupo social” (Aires, 2011, p. 38). A autora argumenta que, sendo este um discurso disseminado pelo grupo, portanto, não localizado, a função desta técnica consiste na reordenação deste discurso social através da interação discursiva (Aires, 2011, p. 39).
A versatilidade que atribuímos a esta técnica deriva do facto de ser, indubitavelmente, uma técnica de recolha de dados (descrição/explicação), mas que se configura também como uma excelente ferramenta de intervenção social (controlo). As técnicas de investigação/intervenção não devem ser rígidas mas processos facilmente adaptáveis às exigências de cada situação. Para além disso, pensamos que também não devem ser tidas como fins em si mesmas, mas como meios para alcançar algo. Próximas desta dinâmica de grupo estão duas outras (círculo de estudo e grupo focal) sobre as quais gostaríamos de tecer algumas breves considerações. Desde logo, porque se constituíram em hipóteses de trabalho aquando da planificação deste projeto. Mas, sobretudo, porque demarcando os seus respetivos territórios conseguiremos justificar a razões da escolha da nossa técnica de eleição, o grupo de discussão.
Na opinião de Vallgarda & Norbeck (1986), “O círculo de estudo consiste num reduzido grupo de pessoas que se reúne para discutir em conjunto - mas sem professor - uma matéria de forma organizada” (p. 13). Esta definição, por si só, já é suficiente para percebermos que os círculos de estudo configuram uma dinâmica grupal muito estruturada, com objetivos bem definidos e metodologias bem delineadas. Esta definição justifica também o facto de se tratar de uma técnica bastante difundida nos países escandinavos, como, por exemplo, a Suécia. Estes autores explicam que neste país a escolaridade obrigatória já estava generalizada em meados dos Séc. XIX, e que cedo se sentiu a necessidade de preparar as populações para o movimento associativo, sindical e político, abrindo, desta forma, espaço conceptual para a educação popular e comunitária, enfim, para a educação de adultos. Assim se justifica também que os círculos de estudo necessitem de pessoas
interessadas e motivadas para a aprendizagem, e que procurem o conhecimento de que necessitam pela envolvência em processos educativos. Contudo, isso pressupõe a existência de pessoas com competências literácicas em diversos domínios, nomeadamente no da competência leitora, não sendo concebível que este modelo se pudesse disseminar da mesma forma entre populações “simplesmente” alfabetizadas.
O grupo focal (focus group) consiste na discussão organizada de um grupo de pessoas sobre um tópico específico. Esta técnica exige a constituição de grupos de pessoas que partilhem conhecimentos sobre um determinado assunto, e de um moderador especialmente hábil na condução da discussão sobre esse tema. O grupo focal carece também de um planeamento que passe pela preparação de um guião com questões a explorar. Contudo, a principal diferença entre o grupo focal e outras técnicas semelhantes reside na sua forma de obtenção de dados, uma vez que aqui eles surgem da interação dos seus elementos e não de consensos gerados. Ou seja, “ainda que haja uma opinião preponderante entre a maioria dos participantes do grupo, não existe necessariamente um consenso ou uma opinião grupal” (Munaretto, Corrêa & Cunha, 2013, p. 17). Isto significa que, embora as opiniões pessoais possam, à partida, permitir chegar a consensos, o mais importante são os consensos que nascem da interação pessoal. Barbour (2009, p. 21) sublinha ainda o papel preponderante do moderador, na atenção às pequenas diferenças, explorando-as, no desenvolvendo de estruturas explicativas, no processo interpretativo, e em toda a interação grupal.
Por ser uma técnica rígida, nas finalidades e papéis desempenhados pelos seus elementos, o círculo de estudo não se configurou adequado aos nossos propósitos, já que pretendíamos flexibilidade temática e, preferencialmente, a inexistência ou diluição do papel de moderador. Também por ser uma técnica de difícil condução, semiestruturada (necessita de guião), baseada em grupos homogéneos (algum conhecimento partilhado), condição preferencial para otimizar os seus resultados, também o grupo focal foi preterido, uma vez que pretendíamos uma técnica de fácil operacionalização, tematicamente orientada mas tolerante a desvios, e funcional com grupos homogéneos e heterogéneos.
Como temos justificado, optamos pelo grupo de discussão porquanto “método de pesquisa que privilegia as interações e uma maior inserção do pesquisador no universo dos sujeitos” (Weller, 2006, p. 241). Apesar de adequada aos nossos objetivos, sabemos que esta não uma técnica perfeita, nem tal atributo poderá/deverá ser concedido a nenhuma outra. Sobre as desvantagens desta técnica, Geoffrion (2003) afirma que: dificilmente os seus resultados poderão ser extrapolados; o animador
pode involuntariamente influenciar opiniões; apesar de espontâneo, o grupo de discussão é sempre um meio artificial (pp. 322-323).
Todas as técnicas de investigação/intervenção são importantes e necessárias, devendo funcionar enquanto processos interligados, que se complementam e retroalimentam, permitindo assim a triangulação de dados. Individualmente, cada técnica transporta um certo grau de subjetividade, fruto da complexidade que deriva da observação e registo dos fenómenos sociais. A redução desta subjetividade é, desta forma, uma preocupação transversal a toda e qualquer investigação de cariz social, e o investigador não deve descurar o cruzamento de dados no sentido de a diminuir, facto que poderia comprometer a validade do trabalho final.
Para este projeto planificamos uma intervenção baseada em técnicas que promovessem as relações pessoais, a valorização das perspetivas individuais e a partilha de experiências. Longe de usar práticas diretivas que tentassem incutir algo, foram necessárias abordagens de proximidade na tentativa de construir pontes entre diferentes saberes, gerações, culturas, interesses, etc. Especialmente com esta técnica de participação ativa (grupo de discussão), introduzida de forma inovadora no âmbito da educação de adultos (Aires, 2011, p. 40), e que revela ganhos emocionais e cognitivos no trabalho com idosos (Lima, 2006, p. 24), promovemos estratégias de Animação Sociocultural baseadas em leituras, espaços de diálogo e reflexão, momentos de fruição cultural, e outras interações que visaram promover a finalidade deste projeto.
4.3. Recursos mobilizados e limitações do processo